Abrimos as Portas na Casa de Janaina
Postado no dia 22 de janeiro de 2010 por Janaina Azevedo Corral em Casa de Janaina, Colunas

Janaina Azevedo Corral
Oh, sim. Primeiro é melhor que eu me apresente, não? Muitos que vira e mexe estão aqui na D3System já me conhecem da RPGCon, enquanto outros não devem ter a mais mínima idéia de quem sou eu. Então lá vai a apresentação: eu sou a Janaina Azevedo Corral, a TPM Girl que ajudou o D3 a fazer a RPGCon. E o que eu estou fazendo aqui na D3System?
Bom, eu podia dizer várias coisas, mas a verdade é que eu estou aprendendo a ser divertida. Oh, sim, e é o D3 quem está me ensinando. ¬¬
Como? Boa pergunta, mas que está, está.
Desde antes da RPGCon, algumas vezes eu e o D3 sentamos para conversar sobre a minha outra carreira: a de escritora. Mas como escritora, eu produzo coisas que nem sempre interessam a todo mundo: religiosidades do Brasil, cultura típica brasileira, crenças e cosmopolistismo, essas coisas. Não obstante, sempre me dediquei muito ao lado acadêmico da escrita.Mas o D3 sempre me dizia que meu conteúdo, por mais bacana que fosse, era chato. E eu queria fervê-lo em óleo quente de Carnaúba e depois jogá-lo num formigueiro quando ele falava isso.
Até que surgiu uma oportunidade de conversarmos mais a sério sobre isso, e a explicação dele para isso foi mais do que aceitável (a partir daí eu só queria fervê-lo no óleo de carnaúba, podia dispensar as formigas…). Topei fazer algumas mudanças no meu jeito de escrever, abordar as coisas e, ainda, fazer com que todos enxergassem as maravilhas culturais do Brasil (que, sinceramente, deixam qualquer europazinha por aí no chi-ne-lo) da maneira como eu vejo e aliando à seriedade das minhas pesquisas, as cores e a diversidade dessa cultura, permitindo que ela fizesse parte do nosso dia-a-dia.
Daí veio a idéia de trazer uma partezinha da Casa de Janaina (www.casadejanaina.com), meu site, em que trabalho com todos esses temas, para dentro da D3System, com artigos sobre Lendas Brasileiras, Mitologias das Religiões provenientes dos Índios e Escravos, Festas e Manifestações Culturais, entre outros.
Quinzenalmente, aqui na D3System, vocês vão encontrar reportagens, pequenos encartes e outros, com histórias e adaptações para o RPG de tudo que o Brasil tem de bom. Começando hoje mesmo. Trouxe uma matéria bem pequena para publicar hoje, sobre a Criação do Mundo segundo os Iorubás, escravos negros da Nigéria. A maneira como eles vêm o mundo é que deu forma e substância a tudo quanto conhecemos como Candomblé, hoje, no Brasil.
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Os Orixás do Candomblé de Raiz Iorubana:
Os Deuses que estão no Mundo em que Vivemos
Oxalá, Ogum, Oxóssi, Xangô, Iemanjá, Oxum, Iansã, Nanã, Omolu são nomes que conhecemos muito bem e quem não conhece muito bem ao menos já ouviu falar. Mas de onde eles vieram? Essa pergunta é meio fácil também: da África, oras.
Ok, mas todo mundo sabe que Afrodite é a Deusa do Amor, Ares é o Deus da Guerra, e por aí vai. E quando falamos desses deuses, a quem conhecemos por Orixás, de que estamos falando?
Os Panteões Africanos são riquíssimos, mitica e culturalmente. Isso sem falar que a maneira como o mundo se organiza a volta deles é, no mínimo, singular: diferentemente do que acontece no catolicismo ou em muitas outras religiões que possuem um padrão doutrinário, neste caso não há uma versão, mas muitas versões, com elementos comuns, para a criação e a manutenção do mundo e da realidade tal qual a conhecemos. Para facilitar o entendimento, neste artigo enumeraremos não as diversas versões, mas as narrativas comuns à grande maioria delas num grande poema Épico.
Contam os babalaôs, os grandes sacerdotes, que no princípio havia apenas Olorum, o Grande Criador. Olorum teve muitos filhos, dentre eles Olodumare, o Sol. Olodumare, por sua vez, também teve filhos, dentre os quais um casal de gêmeos, Orún, o Céu e Ayé, a Terra. E aqui começa a história do mundo.
Orún e Ayé possuíam grande energia. Energia da Vida, energia criadora, e por isso, Olorum-Olodumare viram naqueles dois mundos um brilho que não havia em muitos outros. Olorum, então, mandou que habitassem em Orún seus filhos mais diletos, aqueles que são conhecidos como Orixás da Criação, o primeiro grande panteão.
E em Orún habitaram os Fun Funs, Orixás Brancos.
Orunmilá, o Senhor da Ordem.
Olokun, a Senhora do Caos.
Orinxalá, aquele que tece a vida.
Obatalá, O rei primeiro.
Ifá, o Senhor do Oráculo.
Oduduá, aquela que sopra a vida
Ajalá, quem esculpe a forma da vida
Oraniã, o moleiro dos deuses
Onilé, o governante de Ayé.
Todos os Fun Funs criaram a vida, cada um por sua vez, desempenhando seu papel. Mas eis que, a vida criada, era preciso que ela tivesse começo, meio e fim.
O Tempo, a quem chamam de Iroko, a árvore da Vida, dá aos seres vivos seu princípio e seu fim. O Tempo chega a todos. O Tempo de nascer e o Tempo de morrer.
Mas era necessário saber para onde se vai no meio do Caminho. Eis então que Orunmilá, que teve muitos filhos, entregou o Destino em suas mãos. Eles são chamados de Odus, os Senhores dos Destinos. São eles Òkánràn, Éjìòkò, Étàògúndá, Iròsùn, Òsé, Òbàrà, Òdí, Ejìoníle, Òsá, Òfún, Òwónrín, Ejílàsegbora, Ejíologbón, Iká, Ogbèògùndá e Aláfia.
Mas mesmo assim, a terra era informe e habitada apenas pelas águas profundas, que tinham sido dadas a Olokun, tornando-a Senhora dos Oceanos profundos. Era necessário que houvesse terra firme, para que algo além dos peixes de Olokun sobrevivesse.
Foi então que Oxalá, o Senhor da Paz, levou um pombo, seu animal, e uma cabaça de terra para a superfície. Deitou a cabaça sobre as águas e o pombo sobre ela. Ciscando, o pombo espalhou a terra, que ao se reunir formou os continentes.
Com a terra surgindo e se tornando fértil, Ossaim foi mandado por Orunmilá para tratar das folhas e plantas, e por isso se tornou Senhor delas, passando a conhecer todos os segredos do que elas podiam curar ou causar.
Oxalá permaneceu junto à terra para ver o resultado de sua obra e eis que, da mistura da terra e da água, também surgiu Nanã, a quem ele desposou.
Oxalá teve quatro filhos com Nanã: Oxumarê e Ewá, as serpentes que deram forma a terra, moldando com o movimento de seus corpos as montanhas e os vales, os planaltos e as planíceis. Depois, veio Iansã, Senhora dos Espíritos e do Mundo dos Mortos.
Teve também Obaluaê, que nascera cheio de chagas e por isso a mãe o abandonara à própria sorte na beira do mar, no que foi acolhido pela filha de Olokun e Orunmilá, Iemanjá, que o criou como seu próprio filho.
Em determinado tempo, Nanã partiu para receber os homens nos portões da Morte, até onde eram levados por Iansã. Foi quando Oxalá desposou Iemanjá e da união deles nasceram os Orixás que ficam mais próximos da terra e dos homens.
Exu, o Mensageiro dos Orixás.
Ogum, o Senhor do Ferro.
Oxóssi, o Senhor da Caça.
Xangô, o Rei dos Homens e Senhor da Justiça
Oxum, Senhora dos Rios e das Cachoeiras
Olossá, Senhora dos Lagos
E Obá, a guerreira de uma orelha só, Senhora do Cobre.
Estes são os deuses que habitam o mundo até os dias de hoje.
São os deuses que zelam pelo mundo.
Esta é apenas uma tentativas de síntese do funcionamento do Panteão Iorubano. Além dos citados, existem muitos outros orixás, com as mais diversas funções. Isto por que os deuses africanos são, em geral, parte da nossa existência e da nossa realidade, eles estão a nossa volta e fazem parte de tudo que somos. São mais de 200 deuses, cada um com uma função específica, para reger a vida de toda uma comunidade, ou mesmo de apenas uma pessoa, já que cada indivíduo é importantíssimo para o funcionamento do mundo.
Esta narrativa foi escrita especialmente para seu último livro, é de autoria da própria escritora e reúne suas experiências como pesquisadora de religiões africanas, tendo sido escrita em sua viagem de estudos à Africa, quando visitou Angola e Moçambique (permanecendo como estudante e pesquisadora por cerca de um ano) tendo acesso a histórias contadas no idioma original.



































6 Comentários
Guilherme Göltork
23 de janeiro de 2010
Sssuuuuper Interessante! =D
Arquimago
24 de janeiro de 2010
Nossa! Isso foi muito legal!!! Aprendi e deixei de algumas pequenas impressões erras sobre essa cultura.
Acredito que irei gostar de seus textos, pois o tema me fascina e sua escrita é bem interessante.
Ps.: Sou historiador e concordo que por mais fascinante que seja o tema, se o escritor não tiver manha é um p@$$ ler o livro, quase uma obrigação. Claro que não devemos fazer piada com tudo, mas escrever na forma de um bate papo, é muito mais proveitoso, não cansa tanto (é porque uma hora cansa de ler, mesmo que a escrita esteja mega boa), digo você lê por mais de horas e nem percebe.
Agora se for muito chato o texto… nem por 5 minutos e se já achou que passou dias…
Patesi
2 de fevereiro de 2010
Ótima iniciativa!
Espero ser agraciado com matérias tão ricas quanto estas, em futuro próximo!
Obrigado.
Paulo Peçanha
3 de fevereiro de 2010
Oras, essa moça não é a que não gosta de Otakus ?
Mas a materia é interessante.
Danielfo
3 de fevereiro de 2010
Oba, que bom que está todo mundo voltando os olhos para a cultura nacional. Ficou muito bom o resumo Janaína.
Janaina Azevedo Corral
6 de fevereiro de 2010
Então… Sou eu mesma Paulo… ¬¬ *chiuuuffff*. Mas não se preocupe, já prometeram para este ano me levar para a Mesa de Vidro com toquinha de pikachu, silvertape na boca e nas mãos e uma plaquinha presa ‘em algum lugar’ escrito “eu (coraçãozinho) otakus”… O.O
Enfim… Fico feliz que tenham gostado da iniciativa… a próxima matéria, que provavelmente entra no ar semana que vem é sobre o mesmo tema, ainda falando de lendas, mas da organização da cosmogonia, introduzindo alguns aspectos que podem ser usados em jogo… Pretendo começar a falar de divindades mais específicas e arquétipos que se organizam em torno destas divindades e os mitos que envolvem as pessoas que servem estes deuses.
Exemplo: Os Guerreiros de Ogum, os Sacerdotes que servem aos Primeiros deuses, Os adivinhos cegos que vêem o futuro… a proposta é fazer um ambiente narrativo jogável para este cenário e, na mesma toada, tirar alguns preconceitos que o pessoal tem sobre essa cultura. Muitas vezes, por vermos pessoas não sérias abordarem o tema com fanatismo ou escândalo, achamos que o negócio é meio “ridículo”, quando não é verdade.
Aliás, sugestões são bem vindas, viu???
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