Brut, sec ou demi-sec: Escolha seu sistema!

Postado no dia 31 de julho de 2009 por em Artigos

Plantar as uvas e extrair delas o milagre do vinho. Esse é um ritual ancestral que acompanhou praticamente toda a humanidade através dos milênios de nossa evolução — mas o que essa história de vinho está fazendo aqui, num blog de RPG?

Vinho & RPGExplicando o título pseudo-etílico dessa postagem: vinhos são avaliados por enófilos e enólogos em classificações tão variadas que, para um leigo, ler sobre o assunto dá a impressão que se está diante de um idioma de outro mundo.

Os vinhos são classificados pela acidez do solo, tipo de uva (ou pela casca da fruta), região de produção, envelhecimento (ou não) e muitas e muitas outras coisas… Apesar disso tudo, para nós, leigos, a classificação pelo teor de açúcar é a mais simples de entender.

Mesmo não tendo ponto nenhum na perícia “enofilia”, ao bebermos um vinho é fácil conseguir identificar se ele é Brut, Sec ou Demi-sec, ou simplificando, Bruto (sem açúcar), Seco (pouco açúcar) e Meio-seco. Tendo isso em mente, dividi alguns dos sistemas de RPG nestas três categorias.

1. Brut

Os sistemas do tipo Brut possuem algumas características básicas. São simples em relação à mecânica (o que não quer dizer sistema simples e as vezes pode até ser o oposto), são diretos, rígidos e facilmente identificados e associados a um tipo de jogo específico. O sistema Brut mais famoso do mundo também é o sistema de jogo mais famoso do mundo: o pop-pop D&D em várias de suas safras.

  • Safra Vintage (OD&D/AD&D 1e): Das safras mais antigas, da gelada região central do Wisconsin, vem o D&D Original e o AD&D 1ed. São sistemas duros, de difícil degustação, não apenas pela sua raridade nas adegas atuais, mas por terem um sabor que realmente contrasta com o paladar contemporâneo. Eles compõem os jogos Brut mais duros que se conhece, podendo ser classficiados como Nature-Brut ou Extra-Brut, ou seja, açúcar praticamente ZERO!
  • Safra de Ouro (AD&D 2ed): No início dos anos 90, e por toda a década, um novo tipo de sistema ganhou rapidamente o apelo popular. Eram os sistemas do tipo Sec, mais maleáveis, dedcados ao drama, interpretação, estória e narração. Acompanhando esse movimento, os produtores dos sistemas Brut, acabaram efetuando uma safra de corte, ou seja, um sistema que utiliza mais de um tipo de uva, para se alcançar um resultado misto. Foi assim que, sem dúvida nenhuma, chegamos numa das safras mais famosas e adoradas de todos os tempos, a ponto de ser classficada como “a Safra de Ouro do RPG”, uma espécie de Brut mais adoçado, com mais interesse na história, um pouco mais focado no drama, mas sem deixar de lado a pauleira característica dos sistemas do tipo Brut, ou Extra-sec, ou seja, um Brut com um pé no vinho mais adocicado.

2. Sec

Os sistemas do tipo Sec são uma interseção entre a rigidez característica dos Bruts, mas sem a coragem de assumir o seu lado doce. São jogos equilibrados por se concentrarem em pontos mais versáteis da jogabilidade e, assim, conseguindo agradar uma grande parcela de jogadores.

Os sistemas desse tipo possuem uma importância evolutiva e histórica muito grande, por terem sidos responsabilizados pela real introdução do drama nos sistema de RPG.

  • Safra Anti-diluviana (Vampiro/Storyteller): Se alguém em algum momento já conseguiu colocar açúcar num sistema e fazer isso cair no gosto popular, foram os sistemas Storyteller, principalmente o Vampiro. Nunca um sistema saiu do beco para os palcos com tanta força e velocidade. Um jeito inteiramente novo de jogar foi trazido à tona, com um sistema extremamente simples, apoiando a história sem depender dela, com uma temática intrigante e de forte apelo popular e ainda cheio de vertentes de jogo que podiam conviver sem maiores problemas. Se você quisesse um jogo mais shakespeariano, com intrigas, política, reviravoltas e drama pessoal, esse era o seu sistema! Se você fizesse parte de um jogo Lobisomens vs. Vampiros, no melhor estilo Marvel vs. Capcom, este sistema também lhe concedia base para isso. Se, por fim, você tivesse interesse num jogo Vampiro vs. Tudo-e-todos, essa também era uma boa opção. O Vampiro proporcionou essa maleabilidade aos narradores de todos os tipos, de Anjo Azul à Rambo, e talvez ela tenha sido o seu grande trunfo!
  • Safra do Texas (GURPS): Alguns terão ataques de asma diante desta safra sendo classificada com Sec. No entanto a explicação é simples: mesmo com um sistema monstro, com canhões que atiram pra todos os lados, a experiência de jogo do GURPS, é mais próxima do pouco açúcar do que do açúcar nenhum, e isso foi obtido com uma sacada genial — enquanto o módulo básico chega a ser quase “salgado” de tantas regras, tabelas e fórmulas, os suplementos são como o mais puro mel. Ao misturá-los temos a combinação perfeita pra transformar o GURPS num verdadeiro sistema Sec!
  • Safra Diária, por Encontro ou Sem Limite (4e): Outra classificação que certamente será polêmica, entretanto já explico que não dá para classificar um jogo como o D&D 4e em outra categoria. Ele não é tão adocicado quanto um Demi-Sec, mas também não é tão árido quanto um Brut — mesmo com as características agressivas dos Bruts mais Bruts de todos. No entanto, o açúcar da 4e é de identificação custosa; ele está escondido, travestido de regras. Os desafios de perícias, por exemplo, são algo que não parecem ser. Aparentemente colocam regras onde antes havia interpretação, mas fazem o efeito contrário! Estimulam os jogadores a pensar, raciocinar e interpretar. Eu concordo que, por si só, os desafios de perícia não conseguiriam adocicar o sistema para torná-lo um legítimo Sec, mas outras pequenas características lhe garantem essa classificação. Por exemplo: o sistema de pactos, introduz automaticamente uma característica que praticamente “clama” por uma explicação dramática. As descrições diretas dos poderes que abrem lacunas para personalizações de efeitos (sim, você pode ter uma bola de fogo do jeito que desejar) e, a mais importante, o conceito do Pulsos de Cura que trouxe novamente — e com força jamais vista — a temática dos pontos de vida para o centro da discusão. Eliminando o conceito “barrinha de vida” dos PVs antigos e transformando-os em algo menos pontual e mais interpretativo e subjetivo.

3. Demi-Sec

Os sistemas demi-sec são uma parcela interessante de todas as safras, por que mesmo contendo bastante açúcar, poucas vezes se tornam fenômenos de venda, ainda que sejam fenômenos de crítica. São sistemas com regras simples, pouco evasivas, praticamente nulas que, independente de sua eficácia, permitem uma experiência de jogo absurdamente dramática e interpretativa.

  • Safra vitoriana (Castelo Falkenstein): Um sistema que elimina complicações, números, fórmulas e até mesmo dados com leveza e delicadeza o bastante para, sobretudo, conseguir uma justificativa plausível para isso. Esse sistema não podia estar em outro lugar que não junto aos demi-sec. Como se isso não bastasse, o cenário é fantástico — em todos os sentidos — extremamente adocicado e de fácil degustação. O sistema é inteligente a ponto de, se jogado da forma mais correta, gerar um diário no final da campanha. Mais doce impossível!
  • Safra de Tóquio (3d&T): Sistema simples, rápido, limpo e direto. Ambientações variadas e abrangentes. De jogos de video-game à fantasia medieval básica. O 3d&T é tão simples, despretencioso e versátil, que eu o vejo como um dos sistemas mais aptos ao jogo online.

Terminamos este artigo, já longo demais pro meu gosto (o patrão gosta de textos curtos!), na certeza que nem de longe todas as safras foram demonstradas. Há muito mais o que se falar sobre essa classificação exótica dos sistemas de RPG.

O mais importante é que, com essa base, você consiga extrair informações diferentes, menos ortodoxas, de observar um sistema de jogo e isso sempre é divertido!

Vinho & RPG

Para finalizar, o último conselho importante sobre as safras RPGísticas: “aprecie sem moderação!”

7 Comentários

Maru

31 de julho de 2009

Desce uma garrafa de Sec e outra de Demi-sec, por favor ,taverneiro!

Pedro Gabriel

31 de julho de 2009

Para os não-alcoólicos (eu, por exemplo):

Brut — Sumo de uva extra-forte e sem açúcar (ou fanta-uva zero e seco);
Demi-Sec — Suco de uva moderado, concentração alta e açúcar baixo (ou fanta-uva light desidratado);
Sec — Néctar de uva de boa concentração e bem adoçado (ou Fanta Uva legítimo!).

Só espero que não exista a Diabetes RPGística, porque Demi-Sec é o que há em minha opinião (mas gostos dos Sec também)!

Pedro Gabriel

31 de julho de 2009

Só uma pergunta: cadê a 3ª edição do D&D nessa classificação? Na minha opinião ele fica entre Brut e Sec.

Túlio d Bard

31 de julho de 2009

hehe ia perguntar a mesma coisa que o Pedro

Mas quer saber o que eu faço? Coloco açúcar no meu Brut/Sec. =P

Shin

1 de agosto de 2009

Santa Chicória!

Que postagem mais “alucinante” :)
Achei muito interessante a maneira como foi colocado, explicando os pequenos detalhes e fazendo essa ligação com os vinhos.

Apesra é claro que poderia ter sido Vodka que eu não iria reclamar.

:)

Rey Ooze

1 de agosto de 2009

Fácil, um dos melhores artigos sobre sistemas em que já pus o olho (E o Antonio sabe mto bem que eu digo quando não gosto). Uma comparação divertida, rápida, eficaz e uma das analogias mais originais que já li.

Nota 10!

O 3.5 é o chapinha dos vinhos ae (eu não podia deixar passar essa! AHAAHA)

Arquimago

1 de agosto de 2009

Eu sou do tipo sec ou dimi-sec com o mesmo tão sei-la!

Muito criativo, divertido, gostoso de ler!

Sempre pronto a espierimentar novos paladres isso é o mais importante!!!

E o Mutantes e Malfeitores fica onde? Acho que no sec, mas as vezes com algumas variaveis acho que ficaria facinho no sec! Mutante mesmo, rsrsrsrsrsrs

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