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	<title>d3system &#187; Shadowrun</title>
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	<description>Divulgando o RPG no Brasil</description>
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		<title>Shadowrun: Decisões Infelizes II</title>
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		<pubDate>Tue, 11 Nov 2008 01:19:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>D3</dc:creator>
				<category><![CDATA[Shadowrun]]></category>

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		<description><![CDATA[Segunda parte do prólogo da narrativa dos nossos personagens de Shadowrun. Lembrando que o livro de referência diagramado pode ser encontrado no artigo anterior.
Decisões Infelizes — Parte II
Cheguei ao local por volta das 21:50 h. Peter estacionou sua van. Um grupo como este chamaria a atenção em outros locais, mas em São Paulo era fácil [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Segunda parte do prólogo da narrativa dos nossos personagens de Shadowrun. Lembrando que o livro de referência diagramado pode ser encontrado no <a href="http://d3system.com.br/shadowrun_brasil_d3system.pdf">artigo anterior</a>.<span id="more-2555"></span></p>
<h2>Decisões Infelizes — Parte II</h2>
<p>Cheguei ao local por volta das 21:50 h. Peter estacionou sua van. Um grupo como este chamaria a atenção em outros locais, mas em São Paulo era fácil passar despercebido. Ninguém olha mais diretamente para você; esta é uma metrópole movimentada e tenebrosa — um olhar errado pode transformar um cidadão comum em mais uma vítima.</p>
<p>Quando todos chegaram, Peter repassou o plano umas três vezes, meticuloso como sempre:<br />
— Vamos entrar como uma firma de limpeza, bem simples. Remarquei a visita da equipe original para outro dia, entrando no sistema deles, mas não alterei a agenda da própria SonMitsu. Eles ainda esperam a chegada dos faxineiros. Seremos nós.<br />
Ele jogou o crachá do chefe da limpeza para mim. Eu estava segurando um esfregão na fotografia inventada pelo tecnauta. Antes que eu pudesse reclamar, ele completou:<br />
– Pelo menos você é o chefe.<br />
– Engraçadinho, sabe que eu odeio sujeira e vive me provocando.<br />
Bem que ele podia ter arrumado outra rota de entrada; e ainda por cima teremos que usar macacões azuis. Odeio azul.<br />
Colocamos a logomarca na van e seguimos em frente. A entrada foi simples. A partir do portão, descemos para a garagem. Não percebi nenhuma suspeita nos guardas quanto a nossa presença.<br />
Normalmente, o tecnauta nem chega a sair com o grupo, mas Peter gosta de sentir a adrenalina também. Ele tem o costume de abrir o sistema antes e pegar algumas senhas básicas, tornando nossa incursão mais “saudável”, por assim dizer.<br />
Ele indicou no mapa o local que procurávamos. Seguimos mais alguns minutos por corredores, encontrando somente funcionários comuns da empresa.</p>
<p>— Não é incrível como ninguém presta atenção nos faxineiros? — Disse Rad, mais resmungando do que afirmando qualquer coisa.</p>
<p>Paramos numa porta, ingressamos em um setor mais vazio e utilizamos as senhas roubadas para avançar. Uma vez na área privativa da empresa, trocamos os macacões por jalecos. Eu uso as minhas próprias roupas, já que prefiro me passar por um guarda-costas.<br />
— Peter, e as câmeras? — perguntei, falando baixo.<br />
— Estão rodando imagens repetidas, nem vão saber quem esteve aqui. Vamos por este corredor. A partir deste ponto, não tenho mais as senhas, vamos ter que improvisar.</p>
<p>A parte boa é que os improvisos dele eram quase tão letais quanto os planos. Melhor eu ir na frente como segurança, será mais fácil se (ou quando) aparecer alguém.<br />
— Dever ser nesta sala — disse Peter. A porta era de metal sólido — Vou acessar daqui, me cubram.<br />
— Vai demorar com esta p*&amp;%$ dessa porta, Peter? — MC é um cara bom, pena que é muito impaciente. Acho que são as dores de cabeça. Uma bola de golfe incrustada no crânio deve incomodar.<br />
— Nem vou pedir paciência, MC. Somente um pouco de silêncio.<br />
— Se você não fosse tão útil, tecnauta, eu&#8230;</p>
<p>Um ruído e o som de alguém cantarolando deixou bem claro que tínhamos companhia.</p>
<p>– Era o que eu precisava para me aquecer. — Rad estalou os ossos do pescoço. Quase dava para ver as linhas de maná envolvendo seus músculos; quer dizer, EU quase conseguia ver.</p>
<p>Rad avançou na direção do guarda, que ficou tão surpreso ao ver um cientista tão veloz que era impossível se defender; fico imaginando seus pensamentos: “como pode um cientista ser tão rápido?”. Ele caiu com um único golpe.<br />
– Você não o matou, espero. – perguntou Peter.<br />
– Claro que não! Por isso eu fui antes do MC. — respondeu Rad<br />
– Hunf! — Bufou MC.<br />
– Pronto. Consegui. Não vai dar para segurar os alarmes se ativarmos algumas das defesas internas.<br />
A sala era gelada, como um freezer. Duas caixas de vidro blindado, trancadas, continham equipamentos eletrônicos e tubos de ensaio. Outras tinham braços, pernas e mãos cibernéticas. Um cofre de vidro no centro da sala abrigava nosso alvo; estávamos “subtraindo” (porque roubar é feio) uma maleta com um tipo de armadura externa. Ela parecia composta de um metal super-resistente e leve; pequenos geradores estavam encaixados nas laterais dos braços.<br />
Enquanto Peter tentava entrar no sistema de segurança da sala, MC se precipitou.<br />
— Deve ser apenas um censor de movimentos. Deixa eu testar.<br />
Ele pegou uma cápsula em seu bolso e jogou para dentro da sala; a cena chega a ser engraçada, pois nada aconteceu.<br />
— Não deve ter nada. Vamos logo.<br />
Ele avançou para o interior da sala com sua arrogância padrão e, claro, foi pego desprevenido.<br />
— NÃO ENTRE — gritou Rad, tentando alertá-lo. Ele deve ter ouvido algo com sua audição aprimorada, mas era tarde demais.<br />
O zunido, similar a um assovio, e o barulho de metal indicavam que ele ativara uma armadilha.<br />
– Droga. Que p*&amp;%@ é essa?<br />
Ele se movimentou rápido e se jogou atrás de uma bancada, mas a vindicator cuspiu fogo incessantemente contra ele.<br />
– Vai, Peter, desliga logo esta merda. – gritava o corajoso MC — Vai me partir no meio, caramba!<br />
– Vou ter que entrar direto, vai ser mais rápido. – respondeu Peter, jogando múltiplas senhas no sistema, sobrepondo-o com os programas que ele tinha, tentando conseguir acesso a alguma coisa — qualquer coisa.<br />
— Neko, não tem como fazer alguma magia? — gritou Rad, se escondendo dos ricochetes das centenas de disparos da metralhadora.<br />
– Eu teria que ficar na linha de tiro&#8230; é impossível.<br />
– Vai à merda Peter! Desliga essa porra! Vou ter que resolver sozinho?</p>
<p>Ele sacou a sub-metralhadora e descarregou o pente, mas a tentativa não surtiu efeito. A vindicator estava bem protegida na parede, coberta com duas placas de metal blindado, tornando mais difícil que ajudássemos. A situação estava cada vez mais feia, os alarmes estavam zunindo, e as luzes do corredor mudaram.<br />
– Consegui! — gritou Peter. — Agora saia daí, diabos!</p>
<p>O funcionamento da arma letal foi interrompido e MC abandonou a sala com seu olhar sombrio, fingindo tranqüilidade. Como se ele não tivesse quase morrido!</p>
<p>– VAMOS LOGO! – ele disse.</p>
<p>Ele avançou até a maleta que estava em frente à porta, chamando a atenção como uma isca fatal. Erguendo-a, achamos que seria uma perda de tempo tentar abri-la naquele momento.<br />
Enquanto nos movimentávamos para o corredor, Rad entrou na sala com velocidade, apanhou um tubo de ensaio e se virou para a porta:</p>
<p>— Neko, isso deve valer algum dinheiro, certo?</p>
<p>Como eu já estava na curva do corredor, com bastante pressa de sair daquele lugar, Rad abriu o frasco, sentiu o cheiro do líquido, fechou-o novamente e o guardou no bolso da jaqueta. Se ele soubesse japonês, teria lido “	Corporações Laudenzack” no rótulo.<br />
— Nossa saída mais fácil agora é pelos dutos de ventilação. — disse Peter, recolhendo seu neuro-terminal — Não vai ser confortável, mas pelo menos não seremos detidos pelos drones de segurança.</p>
<p>Esta era nossa melhor rota, mas o final dos dutos nos levaria para um confronto ainda pior. A travessia não chegou a ser tranqüila, mas foi necessária para todos. Ela terminou numa área de “Carga de Descarga”, onde demos de cara com um grupo de 5 guardas. Estes pareciam bem mais preparados — ou seja, nem pediram para pararmos, já sacaram as armas e começaram a disparar.<br />
— Maldição! A segurança foi dobrada pelo alarme. PROTEJAM-SE. — gritei.<br />
— Abre isso, Vasques! — MC berrou, jogando a maleta na direção do tecnauta — vamos ver para que serve.<br />
— Tudo eu, cacete! – Peter se jogou atrás de uma empilhadeira e começou a mexer nas trancas da maleta.<br />
Os guardas assumiram uma formação padrão e não paravam de atirar. Pelo som, não parecia que estavam usando munição letal — ainda.<br />
Rad, em silêncio, retirou sua arma e se escondeu nas sombras de uma caixa. Eu mesmo quase não o vi agachado. Ele atirou contra um dos guardas, que tombou e não se levantou mais. MC também atirava como um desesperado, e jogou o segundo pente descarregado de sua arma. Num guarda! Esse é abusado.<br />
Eu peguei em meu bolso um sache com ervas&#8230; achei que seria engraçado fazê-los sentir o “fedor” de seu próprio medo. Eu sou um Xamã Gato, afinal. Não teria graça se eu simplesmente os matasse ali mesmo&#8230; eles teriam que me respeitar. Me posicionei sobre uma caixa e lancei o feitiço. Já ciente do efeito, comecei a rir em voz alta.<br />
– Sai daí seu louco — Peter gritou para mim. Depois jogou a maleta rente ao chão, que foi deslizando até os pés do MC. — Pega e abre, mas eu não aconselho usar. Vai saber os efeitos colaterais disso.<br />
— Problema é meu! Você tem doutorado nisso por acaso? Eu não morri com coisa pior.<br />
— Então tá bom. Só estou falando.</p>
<p>O exoesqueleto era de um material leve, mas não chegava a ser uma roupa. Era possível encaixá-lo sobre uma vestimenta ou mesmo uma armadura. Escondido atrás das caixas, MC ficou quieto durante um curto período. Quando se levantou, estava com 2 armas em punho, atirando feito um louco.<br />
— Isso é muito bom, nem sinto o recuo das Predador. — ele não parecia muito bem&#8230; ou melhor, parecia bem demais, gritando e gargalhando.<br />
Ele derrubou dois guardas enquanto falava conosco, Rad acertou mais um e o último fugiu pelo corredor.<br />
– Vamos aproveitar esta “janela”. Certeza que ele voltará com ajuda letal desta vez.</p>
<hr />Depois de tirar o exo-esqueleto do MC, que estava quase morto, levamos ele ao único “médico” disponível — O Doutor Hans Chucruts. Depois eu conto como ele é. Digamos que era nossa única escolha MESMO!<br />
Na noite seguinte, fomos encontrar o Senhor Johnson, nosso contato e comprador. Antes de receber seu pagamento, Rad já estava tendo calafrios.</p>
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		<title>Shadowrun Brasil PDF</title>
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		<pubDate>Fri, 07 Nov 2008 20:48:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>D3</dc:creator>
				<category><![CDATA[Aventuras]]></category>
		<category><![CDATA[Downloads]]></category>
		<category><![CDATA[Shadowrun]]></category>

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		<description><![CDATA[Como prometido, compilamos todo o material do cenário de Shadowrun nacional em um único arquivo PDF, magistralmente diagramado pelo Johnny Menezes.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a class="aligncenter" title="Shadowrun: Brasil" href="http://d3system.com.br/shadowrun_brasil_d3system.pdf" target="_blank"><img class="alignnone size-medium wp-image-1979" style="float:right; padding-left:10px; padding-bottom: 5px;" src="http://d3system.com.br/wp-content/uploads/2008/11/srun_capa.jpg" border="0" alt="" width="286" height="341" /></a>Como <a href="http://d3system.com.br/shadowrun-brasil-final/" target="_blank">prometido</a>, compilamos todo o material do cenário de Shadowrun nacional em um único arquivo PDF, magistralmente diagramado pelo Johnny Menezes.</p>
<p>O trabalho começou a gerar frutos e meus antigos parceiros de campanha, o Fábio Novaes e o Willian Ferraz, decidiram escrever as histórias de nossas mesas e partilhá-las com o público do D3System.</p>
<p>O material  já publicado pode ser obtido <a title="Shadowrun: Brasil" href="http://d3system.com.br/ shadowrun_brasil_d3system.pdf" target="_self">aqui </a>ou clicando na capa ao lado.</p>
<h2>Novos Contos</h2>
<p>As histórias que contaremos a seguir foram escritas a seis mãos — minhas, do Novaes e do William —, usando as aventuras que jogamos com esses personagens no meio da década de 1990. Essa é minha campanha mais antiga, e esses shadowrunners cumpriram muitas missões. O conto abaixo é um prólogo da narrativa inclusa no <strong>Shadowrun: Brasil</strong>, chamado <a href="http://d3system.com.br/shadowrun-brasil-parte-i/">Terra Morta</a>, que revela como o iniciado somático <strong>Rad</strong> contraiu a doença mágica que o afligia.</p>
<blockquote>
<h3>0.Prólogo: Decisões Infelizes</h3>
<p>Meu nome é Neko Tsumetai — ou pelo menos era assim que me chamavam nas ruas. Eu já tive uma pátria, um pai e um amigo, agora as únicas coisas que me restam são as lembranças.</p>
<p>Infelizmente, com o passar do tempo, a magia se esvai lentamente, cada feitiço se tornando mais arriscado que o outro; entretanto, a adrenalina e “O Gato” não me deixam esquecer quem eu fui e sou, e o poder que eu já manipulei. Sim, eu manipulei as linhas do maná — está é a “dica” suprema: enquanto outros se consideravam poderosos, eu só queria “manipular”, afinal este PODER não é meu, nem NUNCA será de ninguém.</p>
<p>Sempre que eu ia à casa de Peter Vasquez, um velho amigo, acontecia a mesma coisa.</p>
<p>Toc toc&#8230;</p>
<p>— Está aberta.</p>
<p>Como ele sabia que era eu sem fazer viagem astral ou magias, eu só descobri mais tarde. Ele tinha câmeras em todos os lugares que alguém pode imaginar. Sempre dizia que era um procedimento padrão, mas era uma tentativa de disfarçar sua paranóia por segurança.</p>
<p>— Que bom que você recebeu meu recado — ele começou.</p>
<p>— Você sabe que eu não costumo abrir pacotes Peter, mais como só você e o pobre entregador sabiam meu endereço, tive que usar um feitiço no coitado.<br />
Peter abre seu sorriso seco, já sabendo onde provavelmente o entregador foi parar.</p>
<p>— Pelo visto vou ter que arrumar outro cara para o próximo serviço, ninguém nunca volta – completou o tecnauta.</p>
<p>— Fala qual a confusão desta vez.</p>
<p>— Sabe como são as coisas na matriz, eu estava lá só olhando uns arquivos&#8230;<br />
Pensei comigo: “só olhando”, como se eu não o conhecesse de verdade.</p>
<p>—&#8230; de uma empresa, nada difícil de se fazer, quando a segurança foi acionada. Percebi que não tinha sido eu, havia mais alguém ali.</p>
<p>Ele continuava falando com seu jeito rápido de conversar, gesticulando com as mãos, como se eu fosse entender o complicado mundo da matriz. Só acenei com a cabeça, ele prosseguiu.</p>
<p>— Rapidamente levantei minhas defesas, já preparado para a primeira onda do sistema. Foi quando vi o outro tecnauta, ele era bom, o espelho dele deixou para trás uns dois programas de defesa, que tentavam incessantemente atacar a sua imagem falsa.</p>
<p>— Ele passou pelo primeiro grupo facilmente; pensando bem, talvez fosse uma armadilha dos GELOS, levando o infeliz para algo pior. Bom, você sabe que eu sempre espero o pior, certo? Bom, no fim, eu estava certo: o sistema estava abrindo falsas saídas e ele caiu direitinho. Dussel gans!</p>
<p>— Eu tinha que saber o motivo daquela luta toda, então me aproximei e comecei a “atacá-lo”. Claro que eu só queria copiar os arquivos sem que ele percebesse; ele não teria tempo de me “ver”, estava focado em suas defesas contra os gelos negros.</p>
<p>— Consegui copiar parte do que ele estava retirando do sistema. Era um arquivo da 3Mitsu.</p>
<p>— A corporação resultante da fusão da 3M e da Mitsubishi? — Perguntei.</p>
<p>— Essa mesma. Eu abandonei a matriz antes de ser percebido. Acho. Aqui está o que eu encontrei.</p>
<p>Ele abriu o arquivo na tela do seu neuroterminal Fuchi Cyber-4. Pensei: “eu já vi equipamentos melhores com outros tecnautas, mas nunca um piloto melhor do que Vasques para este modelo”. Comecei a ler tudo calmamente; tratava-se de informação confidencial sobre um tipo de armadura ou algo assim, um exoesqueleto. Não havia mais detalhes.</p>
<p>— Então, Peter, o que pretende fazer?</p>
<p>— Já fui aos Pubs da matriz, gastei uma merreca de nuyens, e consegui descobrir quem era o outro tecnauta. Marquei um encontro na rede e me contaram que ele só estava querendo se divertir, testando a defesa do lugar. Ele fez um trabalho bem amador, mas pelo menos sobreviveu.</p>
<p>Durante alguns segundos, os olhos biônicos do tecnauta se reajustaram, como se ele estivesse analisando outro lugar enquanto olhava para o teto.</p>
<p>— Comprei o silêncio dele por alguns dias, mas sabe como são estes “playboizinhos”: se mais alguém encontrá-lo, ele vai vender novamente a informação, com certeza.</p>
<p>Peter era um caucasiano com seus 29 anos, que odiava este tipo de gente. Eu nunca o questionei sobre seu passado, mas ele já deve ter sido um assalariado de algum escritório, o que para ele seria uma prisão em vida.</p>
<p>— Eu deixei um recado em uma rede de amizades, uma informação que somente seria procurada por alguém realmente interessado no assunto. Recebi uma resposta anteontem.</p>
<p>Ele me passou um pequeno cartão de dados. Observei o pedaço de plástico durante um tempo, sem muita certeza do que Peter queria. Então, ele meneou a cabeça, pegou o disco novamente e inseriu no próprio terminal e virou a pequena tela na minha direção.</p>
<p>— Você podia comprar um terminal de leitura, seu mago mequetrefe. Parece que vive no século passado! Bom, eu me encontrei com o Sr. Jonhson e negociei uma incursão na 3Mitsu por 150.000¥.</p>
<p>— A divisão vai ser a de sempre, Peter?</p>
<p>— Claro! 50.000¥ cada e precisamos de mais duas pessoas, pelo menos.</p>
<p>Depois destas palavras, notei quem seria responsável por encontrar as “duas pessoas”. Naquela mesma noite, fui a um de meus clubes preferidos, um local em uma das áreas ainda controladas do Centro Expandido de São Paulo.</p>
<p>O segurança do local parecia um muro de detenção de tão grande. Paguei a taxa habitual para não pegar aquela maldita fila.</p>
<p>Caminhei na direção da mesa que eu reservei, localizada numa câmara de vidro à prova de som. O barulho antes de chegar à pequena sala transparente era tremendo, mas era assim que deveria ser: sons aleatórios dificultam a vida de qualquer bisbilhoteiro que estiver nos arredores.</p>
<p>Alice, minha informante, sabendo das minhas necessidades, estava sentada a mesa com mais duas pessoas; estava me esperando na sala há exatos 4 minutos.<br />
Um deles, chamado Rad, era um humano moreno, de mais ou menos 1,70 m, careca, e sem nenhuma modificação cibernética aparente.</p>
<p>O outro, conhecido como MC (Morte Certa&#8230; eu não sei se é a dele por carregar uma bomba córtex ou a de seus inimigos), era um elfo de 1,80 m, cabelos claros até os ombros, corpo malhado, muito diferente do habitual da raça. Eu quase posso afirmar que a magia tinha modelado aqueles dois.</p>
<p>Ambos trajavam sobretudos bastante desgastados. Nós já havíamos trabalhado juntos em outras ocasiões, numa missão em Seattle, logo que voltei do Japão.<br />
MC me cumprimentou com a sutileza de um bárbaro bêbado.</p>
<p>– Fala, japonês! — como se eu já não tivesse sido apresentado a ele. Pelo meu nome de rua, claro.</p>
<p>– Boa noite, Neko — a voz inconfundível de Rad ecoou na sala.</p>
<p>Cumprimentei Alice, que hoje só poderia me atender nesta questão, e paguei a taxa pelos serviços prestados.</p>
<p>— Boa noite! Espero que estejam livres pelo menos durante esta semana — os dois concordaram com um aceno de cabeça e eu continuei falando — Nosso conhecido em comum nos arrumou um trabalho (“será que se você falasse problema eles aceitariam? O totem Gato provoca em meus pensamentos”). Os detalhes serão revelados a caminho do local. Se vocês aceitarem o serviços, claro.</p>
<p>— Qual o valor? — pergunta MC, calmo como sempre.</p>
<p>— Acha que vamos precisar levar armamento pesado? — completa Rad.</p>
<p>— Crédito de 25.000¥ para cada um e os custos da incursão são nossos. Armamento médio será suficiente. Como já perguntaram alguns detalhes, suponho que estejam contratados. Estaremos perto da Velha Igreja de São Judas, amanhã as 22:00. Sejam discretos.</p></blockquote>
<p>Continua na próxima semana.</p>
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		<title>Shadowrun Brasil &#8211; Final</title>
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		<pubDate>Wed, 16 Jul 2008 05:00:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>D3</dc:creator>
				<category><![CDATA[Shadowrun]]></category>

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		<description><![CDATA[Essa é a última parte do cenário adaptado para Shadowrun 3ª Edição. Nada é muito inédito, mas deve ajudar os Mestres que continuam a jogar esse clássico de cyberpunk.

Em breve, teremos um PDF com o material completo e mais artigos sobre universos futuristas e cyberpunks.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Essa é a última parte do cenário adaptado para Shadowrun 3ª Edição. Nada é muito inédito, mas deve ajudar os Mestres que continuam a jogar esse clássico de cyberpunk.</p>
<p>Em breve, teremos um PDF com o material completo e mais artigos sobre universos futuristas e cyberpunks.</p>
<hr />
<h2>A DISSOLUÇÃO DO CONGRESSO</h2>
<p>Nos calcanhares dos ataques de guerrilha, e devido ao Poder Legislativo de várias capitais estar nas mãos de suplentes, foram convocadas eleições gerais para 15 de novembro de 2033. Apesar do temor geral, essas transcorreram sem quaisquer tipos de problemas. Os candidatos eleitos e os sucedidos confraternizaram-se pela ‘volta da democracia’. Mas os problemas pareciam perdurar. Três semanas antes da posse, um novo escândalo do orçamento abalou as estruturas de cada senador e deputado federal de Brasília, e todos os meios de comunicação e o público quase fizeram uma prece pela B.R.A.S.I.L.</p>
<p>Talvez, como uma das estranhezas do Sexto Mundo, essa prece malfeita foi atendida. No dia 01 de janeiro de 2033, data da posse dos novos legisladores, enquanto o Presidente Manfredini fazia seu pronunciamento, dezenas de aeronaves leves de pouso vertical cercaram o Congresso Nacional. Os jatos Mirage da FAB pouco puderam fazer para impedir a investida de cerca de cento e cinqüenta homens armados que tomaram a solenidade. Apesar do pânico, o presidente e quatro ministros conseguiram fugir, às custas de sete homens do corpo de segurança.</p>
<p>Após render os membros dos Dragões da Independência presentes, Felipe Carcará subiu ao palanque e, em rede nacional, informou que a B.R.A.S.I.L. tomava, a partir daquele momento, as rédeas da punição daqueles “congressistas vis e corruptos, que impediam o avanço nacional”. Trazendo o presidente da Câmara dos Deputados à frente das lentes da imprensa, Felipe ordenou-lhe confessar sua culpa nos escândalos de verbas e, em seguida, fuzilou-o. O grupamento de choque da polícia militar do Distrito Federal, após duas horas de negociação, decidiu que invadiria o local. Felipe ordenou a morte de um congressista a cada cinco minutos, caso essa ordem não fosse retirada. De alguma forma, todos os passos das autoridades eram previstos e respondidos à altura pelos invasores. No final do ‘Dia de Confraternização Universal’, quase todos os legisladores — sucessores e sucedidos — haviam morrido pelas armas dos Brigadeiros ou pelos disparos da própria PM.</p>
<p>Ao amanhecer do dia 02, quando o 4º Regimento de Cavalaria Blindada invadiu o prédio, restavam poucos invasores, entre eles o próprio Felipe Carcará, que se utilizando de sua magia, num efeito não identificado até hoje pelos catedráticos em magia da USP, derrubou toda a cúpula do Congresso sobre si, seus aliados e seus antagonistas. Os corpos dos quatro brigadeiros identificados pelas câmeras internas de segurança nunca foram encontrados. Houve quatro dias de luto nacional pelos mortos, além de novas eleições convocadas imediatamente.</p>
<table style="border-style: solid" border="0" bgcolor="#b8b8b0">
<tbody>
<tr>
<td>
<h2>Viagem Astral</h2>
<p>— Nós tínhamos toda a situação sob controle tático. Secretamente, começamos a organizar a invasão. Segundos após a ordem de cortar o fornecimento de energia e água, nossa freqüência de rádio foi invadida por Felipe, dizendo que mataria um senador a cada cinco minutos se fizéssemos isso. Ordenamos silêncio total no rádio, mas mesmo assim eles sabiam EXATAMENTE o que fazíamos e quando. Para tudo eles tinham uma contra-resposta. Semanas depois, quando conseguimos analisar o local do conflito, nossos magos encontraram resquícios de alguma atividade mágica desconhecida no espaço astral do lugar.</p>
<p>— Parece que os terroristas usaram uma técnica muito avançada para superar nossas barreiras, tão avançada que nem os nossos melhores pesquisadores reconheciam! Nem preciso dizer o quanto isso nos deixou preocupados. Quem diabos lhes ensinou isso?</p>
<p><strong>• Tenente Marcondes</strong>, sobre a frente de combate contra a B.R.A.S.I.L.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<h2>NASCE O ESTADO AMAZÔNICO</h2>
<p>O conflito começou em 10 de fevereiro de 2034, quando uma frota de quase duzentas aeronaves paramilitares de três médias corporações multinacionais, acompanhadas de três grandes Dragões — Hualpa, uma serpente emplumada, Sirrurg e Laudenzack, dois dragões ocidentais — invadiram o espaço aéreo brasileiro. O SIVAM (Sistema de Vigilância da Amazônia) e as Guarnições de Selva constataram que as naves se dividiram em pelotões de meta-humanos, rumando para três campos de pouso: Zona Franca de Manaus, pistas de pouso ilegais ao norte de Rondônia e áreas improvisadas na reserva kaiapó, localizada ao sudoeste do Pará, descendo então a rodovia BR 158, tomando aeroportos e bases militares — sem fazer prisioneiros ou deixar sobreviventes — até atingirem a Serra dos Xavantes, na BR 153, em 14 de Fevereiro do mesmo ano. Dali, Laudenzack lançou seu ultimato: o governo brasileiro deveria entregar-lhes toda a região amazônica, pois agora eles eram os ‘guardiões da ecosfera’, e os únicos capazes de assegurar sua sobrevivência ante o desmatamento predatório iniciado em 2004. Caso contrário todo o arsenal militar tomado nas bases de Tocantins seria voltado contra o governo brasileiro, num ataque total que reduziria todas as grandes cidades de Goiás, inclusive a Capital, parcialmente vazia em decorrência do incidente de 1º de janeiro anterior, a escombros.</p>
<p>Caso esse poderio não fosse suficiente, as forças mágicas da Terra proclamariam sua vontade, como seria demonstrado na pajelança à ser realizada alguns dias depois, às margens do Rio Araguaia. O governo federal — cético quanto à sua incapacidade de rechaçar uma investida militar desse porte, aparentemente ridículo — decidiu agrupar suas forças em Brasília e aguardar a investida do triunvirato de Dragões e suas hordas de Orks, Elfos e Trolls. Nesse ínterim, as tropas invasoras também receberam seus reforços de Rondônia e da Zona Franca de Manaus, através dos aeroportos tomados. Surpreendentemente, guarnições do Movimento Armado dos Sem Terra dos estados do Nordeste anunciaram sua união às tropas, na esperança de que, com a tomada do poder e seu auxílio, tivessem liberdade para redistribuir os latifúndios daquela região. A legião crescia, mas mesmo assim não intimidava o presidente.</p>
<p>Sem o apoio de uma casa legislativa, dissolvida com a invasão do Congresso Nacional pela B.R.A.S.I.L. — Brigada Revolucionária Armada para Solução da Impunidade Legislativa — no ato de posse em janeiro último, o presidente ordenou o bombardeamento da cidade de Gurupi, base atual dos invasores. Nesse momento, o governo percebeu que a maioria das tribos indígenas e membros do MST da região havia entrado na guerra, assumindo uma postura favorável aos ‘guardiões’; dentre eles, destacaram-se dois índios das tribos panará e tupinambá e dois elfos sertanejos, que iriam se tornar mais tarde membros do Conselho Amazônico. Eles organizaram um ritual, na parte mais larga do Rio Araguaia, próximo à cidade de Santa Terezinha, no qual participaram membros das tribos Tupinambá, Kaiapó, Karajá-Aruanã, Xerentes, Xingu, Apinayê e Cateté, numa pajelança iniciada na noite de 15 de fevereiro.</p>
<p>Sabendo que o conflito era inevitável, os conselheiros das tribos invocaram as forças da mãe natureza, ‘O Grande Espírito Das Águas’, que se personificou numa cheia de enormes proporções, destruindo a barragem de Sete Quedas, aumentando o nível das águas dos rios Amazonas, Xingu, Iriri, Araguaia e seus afluentes, num raio de mais de seiscentos quilômetros, em menos de uma hora. Quando os jatos da Força Aérea Brasileira aproximavam-se de Serra Dourada, o céu tornou-se escuro, com nuvens negras cobrindo toda a região. Na pior tempestade tropical já registrada, as descargas eletromagnéticas danificaram todos os instrumentos das aeronaves, que se perderam em meio as matas, caindo ou sendo obrigadas a pousos de emergência no Parque Nacional do Araguaia. A violência da tormenta derrubou cabos de transmissão de luz e comunicação, provocando um blecaute em toda a região. O apelo tinha funcionado melhor do que se esperava, mas a natureza cobrara seu preço. À exceção dos pajés panarás, tupinambás, kaiapós e dos elfos sertanejos, nunca mais se teve notícia dos outros participantes dessa investida mágica. A cheia dos rios Xingu e Iriri nunca mais foi desfeita, tendo o leito dos rios aumentado permanentemente, criando uma barreira natural difícil de ser transposta.</p>
<p>Tendo perdido este embate, que fora chamado de “O Levante de Sete Quedas”, o governo brasileiro se viu obrigado a medidas drásticas. Infelizmente, as forças da OTAN e os aliados europeus não poderiam, face as Euroguerras, fornecer apoio ou auxílio militar. Tampouco as antigas potências norte-americanas, recém divididas entre o C.A.S. e a UNECAM, poderiam suprir nosso país com aquilo que não possuíam.</p>
<p>Numa tentativa desesperada de manter a coesão da República, o Presidente Manfredini decretou estado de sítio, convocando todas as tropas dos estados da região sul e sudeste para uma investida final a ser realizada no dia 18 do mesmo mês, Sábado de aleluia, contra os invasores. Na esperança de ganhar tempo, foi convocada uma reunião entre os líderes do autoproclamado Estado Amazônico e o governo brasileiro, para a manhã de 16 de fevereiro, na Esplanada dos Ministérios. Compareceram a essa reunião o Presidente e seus generais; pelos invasores, João Alberto da Silva, elfo sertanejo e um dos líderes do MAST; o pajé Wendigo Kaxinawá, da tribo antropofágica tupinambá; Hualpa, a serpente emplumada hispânica; Sirrurg, o Dragão Ocidental ameríndio e Laudenzack, o Dragão Ocidental brasileiro, visto pela primeira vez na ilha de Fernando de Noronha. Esperava-se que desta reunião fosse elaborado um tratado, a exemplo do ocorrido anteriormente em Denver &#8211; EUA , mas os generais tupiniquins acharam que com a eliminação dos líderes da invasão, o restante das tropas seria facilmente reprimido. O ataque do primeiro Grupamento das Agulhas Negras de Minas Gerais e do Pelotão dos Dragões da Independência — as duas tropas de elite nacionais — foi um massacre contra elas mesmas. O poderio mágico e físico dos cinco membros rebeldes mostrou-se mais eficaz e letal que os fuzis FAU de ambas as companhias, e em pouco mais de 45 minutos de combate os membros do conselho Amazônico alçaram vôo, deixando atrás de si mais de 50 mortos — entre eles o Presidente — e também uma frustrada unidade de infantaria antiaérea.</p>
<p>O novo comandante-em-chefe do Estado Brasileiro, Henrique Gomes Bachelard, rechaçou publicamente o ultimato da força amazônica, ordenando imediatamente uma retaliação total de todas as tropas disponíveis às cidades de Gurupi, Manaus e Porto Velho — além de quaisquer outras bases identificadas do inimigo. Mas Laudenzack e suas forças tinham outra idéia, iniciando naquela mesma noite uma marcha para Brasília, através da BR 153, impedindo o avanço dessas mesmas tropas. Em vista do estado de sítio, da ausência de um governante legalmente instituído, e temendo que caso saíssem vencedores, ver-se-iam novamente sob o jugo de uma ditadura militar, os governadores dos estados de RS, SC, PR, SP, RJ e ES amotinaram-se, ordenando que as tropas reunidas guardassem única e exclusivamente suas fronteiras.</p>
<p>Desprovidos desses reforços indispensáveis, o General Bachelard e suas tropas seriam facilmente derrotados pelo exército conjunto do inimigo, das hordas indígenas e dos milhares de sertanejos do MAST. Na manhã do dia 17, as tropas de Laudenzack invadiram e se estabeleceram em Brasília e nas cidades satélites, encontrando pouca ou nenhuma resistência. Batalhões da Bahia e sul do Maranhão e Piauí iniciaram suas decidas até as bases do inimigo, enquanto o restante da força aérea nordestina era dizimada pelas aeronaves e pelos próprios Dragões em vôo. Prevendo o desfecho iminente da guerra, o conselho do Estado Amazônico ordenou, no mesmo dia, que os habitantes da cidade evacuassem toda a capital e suas cidades vizinhas, tarefa coordenada pacificamente pelas tropas meta-humanas. Ao amanhecer do dia 18, o exército brasileiro iniciou o cerco à Brasília, sendo que 75% da população local havia sido retirada.</p>
<p>Houve uma nova tentativa, por parte de João Alberto da Silva, de entregar os protocolos do acordo firmado — ou quase — no dia 16. Quando, munido de uma bandeira de trégua, o líder do MAST e dois soldados se aproximaram das tendas da inteligência brasileira, foram alvejados por franco atiradores situados nas barricadas formadas na ponte Presidente Médici. Às 11:00h as barricadas do Estado Amazônico terminaram seu ajuntamento nas áreas das pontes de acesso às Avenidas L4-sul, das Nações e a área à margem do Palácio da Alvorada e da Lagoa do Jaburu. Às 11:15h, no acampamento da área da torre de TV, os comandantes receberam a notícia de que o líder do MAST era prisioneiro da força inimiga. A ordem foi imediata. A linha de frente das tropas meta-humanas passou a disparar morteiros nas tropas do exército, além de explodir as pontes de acesso. Dado o primeiro movimento, a invasão através de hovercrafts foi iniciada em massa, com uma perda de homens semelhante à ocorrida um século antes na Normandia. Mais de quatro mil homens, incluindo civis, perderam a vida neste dia, sem conseguir entretanto levar a cabo a retomada de Brasília. Impossibilitado de perpetuar uma guerra inútil, o General Bachelard foi “induzido” pelo que restou da Assembléia Legislativa a assinar o Tratado Separatista da Amazônia, que cedia a área à leste do rio Xingu e os Estados do Amapá, Roraima, Amazonas, Acre e a parte norte de Rondônia ao novo Estado Amazônico. Brasília — o Plano Piloto — ficou totalmente devastada com o combate, tornando-se inabitada até os dias atuais. O governo brasileiro caiu, sendo substituído por uma Junta Militar Provisória.</p>
<p>Os estados do sul amotinados, em vista da desestrutura da força militar do nordeste, e claramente possuindo 70% do PIB do país que se desfazia, declararam sua independência algumas semanas depois, formando a Confederação Independente Brasileira — CIB. Nos 18 meses subseqüentes, novas investidas por parte do Brasil, visando as duas novas nações, foram levadas adiante, com maior ou menor grau de sucesso. Essas investidas, aliadas à própria pressão interna dos movimentos civis, paramilitares e empresariais, acabaram por exaurir a capacidade combativa do país. Em março de 2036, o governo do Estado Amazônico e as Corporações Laudenzack reivindicaram, a exemplo do ocorrido na América do Norte, direito de exploração sobre as jazidas da Serra dos Carajás, e outras jazidas localizadas no Maranhão, Tocantins e Piauí, inclusive seus recursos hídricos e usinas hidrelétricas, num programa de ‘extração sustentada’ com o aval dos representantes indígenas, agora integrantes do Conselho Amazônico. Como parte do acordo proposto, a Laudenzack se comprometia a auxiliar o governo brasileiro a erguer novamente sua economia, desenvolvendo pesquisa em paracriaturas e melhorias biogenéticas num trabalho conjunto. Essa proposta foi inicialmente negada, mas com a eleição de 2037, ela foi retomada com novo fôlego, e acabou por ser aceita.</p>
<p>Análise de fitas trazidas a público anos depois demonstram que o então Presidente eleito, Willian Ferraz, fora financeiramente induzido a aceitar a proposta, convencendo inclusive outros membros do alto escalão do governo. Nenhuma dessas hipóteses podia ser confirmada com certeza, mas o fato é que o Presidente não se empenhou em desfazer os “boatos” que haviam sido lançados.</p>
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<tbody>
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<h2>Corporações Laudenzack</h2>
<p>As Corporações Laudenzack produzem uma infinidade de produtos, diversos deles através de fábricas assimiladas pelo Estado Amazônico quando da tomada da Zona Franca de Manaus. Desde veículos até o controle de hidrelétricas e extrativismo vegetal e mineral, passando pela pesquisa e controle de paraespécies, fabricação de remédios, computadores, eletro-eletrônicos e siderurgia.</p>
<p>Nessa área, em especial, destaca-se a produção do metal mágico e raro Orichalcum, resultante da fusão de ouro, prata, cobre e mercúrio, mantidos coesos através da magia. Apesar do empenho da Corporação em produzir esse item em grande escala, inclusive com a tomada da Jazida dos Carajás, o total de orichalcum vendido pela empresa ainda é pequeno.</p>
<p>A despeito de outras áreas industriais, a Zona Franca de Manaus e outras regiões industriais do Estado Amazônico pertencem unicamente a Laudenzack.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>Após o término dos conflitos em grande escala, e a nova delineação de fronteiras brasileiras, amazonenses e da CIB, um novo embate aguardava as tropas meta-humanas estabelecidas em Manaus. Aproveitando-se do golpe de estado, na situação agora de total independência, a antiga Guiana Francesa tentou se apoderar das reservas minerais — principalmente ouro e diamante — do antigo estado do Amapá. Num conflito que durou vários meses, com batalhas esporádicas, até 2040 a questão não havia se resolvido definitivamente. Apesar da extensão temporal do conflito, o número de mortos e feridos não atingiu índices muito altos. Irritados com essa audácia, os membros do Conselho decidiram, em reunião no Teatro de Manaus, sede do Governo, que anexaria — nos próximos cinco anos — toda a área de floresta amazônica existente, assimilando ambas as Guianas, o Suriname e partes da Venezuela, Colômbia, Peru e Bolívia. Acordos foram firmados entre Aztlan e o estado inca-maia Quetzocuatal, forçando Peru e Bolívia a abdicarem, quase pacificamente, de partes de suas terras no ano seguinte (2038).</p>
<p>Venezuela e Colômbia não cederam tão facilmente, no entanto. Após enfrentamentos armados que duraram cerca de 3 anos (também até 2040), os países hispânicos, exauridos pelas guerras externa e interna, consentiram em ‘arrendar’ territórios, contanto que houvesse permissão para exploração comercial — mesmo que sob fortes impostos. Suriname e Guiana se uniram num único país, exigindo uma cadeira no Conselho Amazônico, ao invés de serem esmagados pelo poderio mágico-militar das três nações, e foram prontamente atendidos.</p>
<p>Em meio à deflagração internacional pela posse total da Amazônia, um dos principais membros do Conselho Amazônico abdicou. Boatos que Sirrurg estava descontente com a política de Laudenzack começaram a correr no final de 2038. Numa entrevista à revista Veja, anos mais tarde, um conselheiro yanomami não identificado afirma que ambos os dragões travaram inclusive combate físico e mágico para resolver suas desavenças. Nenhum desses boatos nunca foi confirmado — ou negado. O fato é que, após os tumultos raciais contra meta-humanos que varreram a América do Norte e os principais metroplexos da América do Sul, entre eles os grandes centros da CIB e do Brasil, culminando naquilo chamado de “A Noite da Fúria”, o dragão norte americano abandonou suas obrigações em fevereiro de 2039, nunca mais sendo visto. Eram notórias suas manifestações de desagrado ao tratamento que os meta-humanos vinham recebendo nos países surgidos das cinzas dos EUA e Canadá. Suspeita-se que Sirrurg seja o responsável pela derrubada do vôo 329 da Euroair, dois anos depois.</p>
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<h2>CONFLITO INTERNO</h2>
<p>— Quando o bate-boca deixou de ser apenas isso, e os ânimos se exaltaram, com os Dragões ganhando os céus de Manaus, começando a se engalfinhar, a noite se iluminou em clarões escarlates, com o fogo partindo de ambos os combatentes.<br />
— Trovões ribombaram das nuvens tropicais em direção ao campo aéreo de combate, aparentemente se estilhaçando nas defesas dos Dragões. Após alguns minutos de confronto mágico, com seus feitiços causando mais dano à cidade que ao oponente, ambos partiram para uma investida física, com garras do meu tamanho rasgando peles grossas como pedras.<br />
— Pouco depois, eles caíram como uma estrela cadente na direção da catedral de Manaus, destruindo uma de suas torres e abrindo um buraco de vários metros no chão.<br />
— A próxima coisa que vi foi o Dragão brasileiro alçar vôo, seguido por Sirrurg. Eles ficaram no ar durante alguns minutos, voando em círculos. Pareciam estar discutindo.<br />
— Então, talvez lembrando que eram &#8211; ou foram, ao menos &#8211; aliados, Sirrurg partiu, nunca mais voltando.<br />
— Quando Laudenzack pousou, quase dava para sentir seu desagrado e tristeza. Depois daquele dia, o Conselho ficou em recesso por duas semanas.</p>
<p><strong>• extraído da revista Veja, traduzido de uma entrevista concedida por uma testemunha yanomami não identificada.</strong></td>
</tr>
</tbody>
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<p>Após a resolução dos conflitos pela selva amazônica, em meados de 2041, e por desaprovar a manutenção da megacorporação de Laudenzack, que já colhia frutos de bioengenharia juntamente com o governo brasileiro, a serpente emplumada Hualpa retirou-se com suas tropas para a planície Iucatã, no que restara do México, permanecendo como um soberano revolucionário e anticorporações naquela região. Quando, em 2044, Aztlan nacionalizou todas as empresas de capital estrangeiro, sob forte pressão da empresa Aztecnológica, houve um início de confronto armado com empresas que tentaram manter suas propriedades. Usando essa confusão como cobertura, Aztlan anexou a maior parte do México, com exceção de Iucatã, onde as forças despertadas de Hualpa, auxiliadas pelas de Laudenzack e Quetzocuatal frustraram toda e qualquer tentativa de posse.</p>
<table style="border-style: solid" border="0" bgcolor="#b8b8b0">
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<h2>O CONSELHO</h2>
<p>Os membros do conselho são o dragão Laudenzack, dono da corporação Laudenzack; Rapina, uma pajé da tribo panará, que participou do “Levante de Sete Quedas”; João Alberto da Silva, um elfo sertanejo ex-líder do MAST, que também guiou o espírito para aumentar o fluxo das águas do rio Xingu; o Wendigo Kaxinawá, membro da tribo tupinambá, conhecidos por sua grande força física e suas atitudes canibalescas; o representante da Guiana-Suriname, o yanomami-tumucumaque Waimiri e Claudomiro Veiga, babalorixá piauiense, antes pertencente ao Brasil, representante da comunidade mineradora de Carajás. Como membros beneméritos, de cadeira reservada, encontram-se Hualpa e Sirrurg, ausentes por motivos pessoais.</td>
</tr>
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<h2>O NOVO BRASIL</h2>
<p><em>“Sempre me disseram que o sertão ia virar mar. Eu nunca acreditei. Até que eu vi.”</em><br />
<strong>— Maria das Graças Almeida, moradora do sertão pernambucano.</strong></p>
<p>O Brasil perdeu boa parte de seu território, e agora é composto pelos estados do Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Bahia, Goiás, Sergipe e a parte norte de Minas Gerais, sudeste de Tocantins, e Mato Grosso do Sul.</p>
<p>Apesar de nominalmente o Mato Grosso e a área de pantanal do Mato Grosso do Sul pertencerem ao Brasil, essas terras se tornaram inabitáveis devido às violentas tempestades fluviais e de maná. Em estudos realizados com o Estado Amazônico, constatou-se dois fatores: as tempestades maná são semelhantes à aurora boreal, com um fluxo incontrolável de energia partindo da terra e das águas lamacentas, despedaçando qualquer objeto ou ser vivo inapto à magia; segundo, provavelmente face essas tempestades, uma enorme quantidade de paracriaturas se desenvolveu naquela região, com características de absorção de maná.</p>
<p>Algumas raças de meta-humanos se arriscam em meio a essas anomalias, tentando permanecer intactos e em segurança, estabelecendo-se como nômades, aproveitando ao máximo tudo que aquela terra restrita pode oferecer. A grande maioria desses ‘colonos’ são homens e mulheres despertadas que terminam por desenvolver maiores poderes mágicos, em consonância com o desequilíbrio místico daquela região. Entretanto, é sabido, mediante testes efetuados na Academia de Magia de Boa Vista, que tais ‘aumentos mágicos’ advém da região e não do indivíduo, como uma forma de equilíbrio para se enfrentar as agruras do pantanal.</p>
<p>O congresso nacional, destruído na revolta armada de 01 de janeiro de 2034, foi refeito na forma de um parlamento em 2038, após o ‘impeachment’ de William Ferraz, sob acusações de corrupção. O primeiro ministro indicado, Marcelo Gritti Neto, tem governado desde então.</p>
<p>Nos sertões onde outrora se encontrava a caatinga e os horrores da seca, hoje há uma região com mais vida vegetal e animal que antes, em vista de investimentos em irrigação e talvez outro fator determinante: alguns atribuem o fato à tecnologia empregada depois de 2038, mas as lendas populares falam de uma grande magia responsável pela mudança, parecida com a pajelança ocorrida em Novembro de 1998, quando um enorme incêndio devastou a região do então estado de Rondônia, obrigando os membros das reservas indígenas locais a invocar o poder da mãe Terra, muito antes da magia Despertar, para apagá-lo. O fato, noticiado com veemência e descrença na época, gerou histórias transmitidas pela tradição oral. Apesar dos cientistas afirmarem ser apenas uma   coincidência, horas depois da dança ter terminado, uma chuva torrencial se precipitou sobre o incêndio.</p>
<p>Houve, no primeiro semestre de 2038, uma grande romaria em direção a Juazeiro e a barragem de Sobradinho, o mesmo ocorrendo para a Barragem de Itaparica, o Açude Boqueirão — na nascente do Rio Paraíba — e o Rio São Francisco, próximo à cidade de Piranhas. Esses romeiros e pagadores de promessas eram guiados por conselheiros e ‘padres’, com forte convicção teológica e (especula-se) tendência à magia hermética. Discute-se até hoje nos centros de antropologia do país se, ao menos alguns deles, não eram despertados. Reunindo-se em seus destinos, esses fiéis passaram dias em vigília, rezando e orando, enquanto seus guias se uniram numa corrente à margem das barragens quase secas e ao Rio São Francisco. Suspeita-se que todos os oradores mantiveram algum contato astral, já que simultaneamente &#8211; em todos os lugares de reunião &#8211; começou a chover torrencialmente. Esse fato, isoladamente, não causaria nenhum distúrbio no ecossistema árido comum àquela parte do globo. A diferença dessa chuva, segundo alegam os fiéis, seria a ‘vontade de Deus’. Daquele período em diante, todos os rios temporários do Nordeste, em maior ou menor grau, aumentaram seu fluxo, diminuindo — mas não cessando — a estiagem, poupando em parte o povo sertanejo.</p>
<p>Essa alteração climática, atribuída pelos especialistas ao fenômeno El Niño, trouxe muitos investimentos privados para a agricultura, enriquecimento dos grandes latifundiários e um aumento do PIB brasileiro. Entretanto, determinados problemas crônicos, como a distribuição de renda e a falta de saúde e saneamento básicos, ainda assolam o país. Com a perda da maioria de suas vias de escoamento da produção, devido à criação da Confederação Independente Brasileira, as exportações diminuíram para o cone sul, aumentando, entrementes, para a Europa devastada.</p>
<p>Com o aumento das lavouras — o Brasil hoje é um dos maiores produtores de alimento mundiais — o trabalho infantil quadruplicou, com a educação sendo negligenciada pelo governo e pela própria família.</p>
<p>A partir de 2041, num esforço conjunto de grandes corporações e o governo brasileiro, centenas de paraespécies não catalogadas foram reveladas ao mundo. As utilizações militares, para a saúde e outros fins de todas elas ainda vêm sendo estudadas, mas avanços importantes foram conseguidos na última década.</p>
<p>Estudos de bioengenharia têm sido realizados pelas universidades das três nações emergentes da antiga República Federativa do Brasil, com a CIB notadamente muito na dianteira.</p>
<p>Os anos que se seguiram a 2050 testemunharam o desenvolvimento do neuroterminal de sétima geração, agora do tamanho de um teclado. A bioeletrônica e a biotecnologia continuam a avançar, à medida que uma parcela significativa da humanidade tem escolhido se distanciar das falhas do corpo natural.</p>
<p>Embora algumas fronteiras ainda precisem ser definidas, e as ameaças de guerra ainda fervilhem, a situação encontra-se num estado relativamente calmo. Mas, num mundo Despertado, quanto tempo isso pode durar?</p>
<p>Leia também a <a href="http://d3system.com.br/shadowrun-brasil-parte-i/">Parte I</a>, a <a href="http://d3system.com.br/shadowrun-brasil-parte-ii/">Parte II</a> e a <a href="http://d3system.com.br/shadowrun-brasil-parte-iii/">Parte III</a>.</p>
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		<title>Shadowrun Brasil — Parte III</title>
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		<pubDate>Tue, 25 Mar 2008 13:37:20 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[A seguir, a terceira parte do Livro de Referência Brasil para Shadowrun. Depois, disponibilizaremos um PDF com todas as informações em um único arquivo.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<h1>O ALVORECER DA MAGIA</h1>
<p>Embora a humanidade estivesse sofrendo mais uma crise devastadora, a ciência e a tecnologia continuavam a progredir. Em 2024, começou a ser comercializada a primeira unidade de entretenimento de sensorama (um tipo de videocassete sensorial). A unidade oferecia impressões sensorias tão rudimentares que o usuário tinha total consciência de que a experiência era uma simulação.</p>
<p>Em 2025, a magia finalmente foi aceita mundialmente como ciência. O MEC concedeu-lhe reconhecimento acadêmico estabelecendo o primeiro curso facultativo de estudos ocultos na Universidade de São Paulo. Em dois anos, programas de magia técnica e instalações de pesquisa em magia foram estabelecidos no MIT &amp; M — Instituto de Tecnologia e Magia de Massachusets — e nas Universidades de São Paulo e Campinas.</p>
<p>Enquanto o estudo de magia representava uma entrada para o reino astral, pesquisas secretas e conjuntas de vários governos exploravam outro mundo misterioso: o eletrônico. Em 2026, os primeiros viajantes do ciberespaço davam passos mancos naquilo que hoje conhecemos como a Matriz. O primeiro ciberterminal foi uma câmara de isolamento do tamanho de uma sala, munida de conectores com contatos múltiplos e diversos sistemas de apoio para o operador. A instalação foi projetada para uso da inteligência militar. Os primeiros voluntários enlouqueceram.</p>
<p>Em 2027 a ciência buscava outro avanço, desta vez na parte do mundo banhada pelo sol. Depois de anos de perseguição ao sonho da energia gerada pela fusão fria, a primeira usina de força entrou em operação. Embora o sonho de pequenos geradores ainda não tivesse sido alcançado, a pesquisa conduziu a conquistas que possibilitaram a criação de usinas de grande porte no exterior.</p>
<p>A outra conquista desse ano foi o refinamento dos neuroterminais. Quando os sistemas de computação tornaram-se incrivelmente complexos no final do século XX, muitos programas substituíram as longas séries de comandos por desenhos simples, ou ícones, que simbolizavam comandos específicos ou programas. O usuário indicava o ícone desejado, e o computador faria aquilo     que o desenho significava. No final da década de 1990, um usuário típico estava lidando com tantos milhares de ícones que os sistemas de processamento de dados ruíam sob o peso da própria complexidade.</p>
<p>Em 2029, a Sony Cybersystems, a Fuchi Industrial Electronics e a RCA-Unisys tinham todas desenvolvido protótipos de ciberterminais que permitiam ao usuário interfacear com a rede mundial de dados através de seu sistema nervoso, que traduzia os dados e transmitia os comandos. Ao invés de digitar comandos ou clicar ícones, as operações eram realizadas — literalmente — à velocidade do pensamento. Esses primeiros ciberterminais eram grandes, requerendo que o usuário estivesse num tanque de isolamento sensorial. O objetivo da pesquisa, patrocinado por várias agências de espionagem, era possibilitar a invasão de sistemas de dados por esquadrões de choque de “super piratas de dados”.</p>
<p>Nos EUA, a CIA, a NASA e a IRS juntaram suas forças para explorar essa técnica. Sob o nome código de Echo Mirage, recrutaram e treinaram uma equipe de cibercomandos. Esbarrando em dificuldades como equipamentos defeituosos e psicoses induzidas pelos sinais sensoriais gerados pelos ciberterminais primitivos, a Echo Mirage estava avançando na direção de uma tecnologia exeqüível quando ocorreu o desastre internacional.</p>
<h2>O NOVO CRAQUE DE 29</h2>
<p>Em 8 de fevereiro de 2029, os sistemas de computador do mundo inteiro foram atacados, aparentemente ao acaso, por um vírus de computador de uma força sem precedentes. Os sistemas quebraram, seus dados foram completamente apagados e até mesmo seus hardwares foram danificados pelos efeitos do vírus. À medida que o programa assassino se espalhava, governos caíam. A economia mundial beirava o colapso.</p>
<p>Durante os três primeiros meses do ano, o vírus se espalhou pela rede de dados que mantém o mundo em sintonia. Por ordem da ONU, a Echo Mirage e projetos semelhantes foram acionados para neutralizar o vírus, mas os agentes tiro certo desses programas foram sobrepujados pelas exigências psicológicas do combate psicofisiológico no ciberespaço.</p>
<p>Os mestres da Echo Mirage e do programa Aniquilação da USP reagiram, recrutando os mais brilhantes, ainda que excêntricos e rebeldes, processadores de dados da indústria e universidades. Destes, os melhores foram escolhidos e forçados a um programa de treinamento brutal, realizado pela própria Echo Mirage, totalizando 32 homens e mulheres — dentre eles um brasileiro e um argentino — que terminaram o treinamento com a sanidade intacta.</p>
<p>Entretanto, foi preciso esperar até agosto de 2029 para que a nova equipe, armada com cibertecnologia aperfeiçoada, pudesse montar um ataque coordenado contra o programa matador. Após dezoito minutos de luta contra o vírus, quatro membros da equipe estavam mortos. Quando os arquivos de dados foram analisados, duas coisas ficaram claras: primeiro, o programa vírus podia induzir bio-retroalimentação (biofeedback) letal em humanos acessando a Matriz; segundo, nenhum computador de segurança existente teria condições de nem mesmo retardar uma pessoa usando um ciberterminal.</p>
<p>As empresas envolvidas no esforço ficaram horrorizadas com a facilidade com que a Echo Mirage penetrou em seus sistemas de dados de segurança máxima. Em reação a isso, através de pesquisas secretas, as empresas começaram a desenvolver novos softwares de segurança que poderiam repelir tecnautas usando uma interface com a Matriz. Isso incluiu uma pesquisa para duplicar os efeitos letais gerados pelo vírus. O software resultante foi a primeira geração de guardiões eletrônicos de linhas e operações, ou GELO, como são mundialmente conhecidos.</p>
<p>A Echo Mirage aprendeu técnicas para isolar e conter o vírus. Equipados com novos programas de combate e ciberterminais reforçados, começaram a longa tarefa de expurgar a infecção da Malha. Até o final de 2031, eles tinham eliminado a última concentração conhecida do código vírus.</p>
<p>Esses terminais de segunda geração usavam hardware do tamanho de uma mesa e dispensavam o tanque de isolamento sensorial. Pouco tempo depois da eliminação total do vírus, quatro dos membros sobreviventes da Echo Mirage se retiraram para o setor privado, para o qual foram transmitidos os segredos da nova tecnologia.</p>
<p>Em maio de 2034, a Matrix Systems de Boston, começou a comercializar o primeiro ciberterminal pirata. Seis meses depois, o computador da Matrix Systems foi inutilizado e seus dois funcionários morreram em acidentes sem relação aparente com os fatos.</p>
<p>Da perspectiva do complexo militar-industrial, os danos já haviam sido causados. A tecnologia da Matriz fora liberada. A Fuchi Industrial foi a primeira grande empresa a desistir de combater a invasão de tecnautas quando, em 2036, colocou no mercado seu primeiro ciberteclado de terceira geração, o desktop CDT-1000.</p>
<p>A maioria dos neuroterminais vendida hoje é composta de máquinas licenciadas que injetam uma assinatura exclusiva nos arquivos de qualquer sistema que acessam, registrando dessa forma todas as atividades legais na Matriz. Entretanto, há anos os usuários piratas, ou tecnautas, vêm adquirindo neuroterminais para modificá-los. Os tecnautas suprimem as assinaturas de seus sistemas e acrescentam capacidades que são de pouco uso para operadores honestos de neuroterminais. Assim é o mundo na década de 2060.</p>
<p>Devido ao caos do craque dos computadores, outro evento importante de 2029 passou relativamente desapercebido. Naquele ano, as Nações Nativas da América do Norte declararam que as emergentes raças meta-humanas eram bem-vindas nas terras tribais.</p>
<h2>OS SUPERPODERES</h2>
<p>O craque dos computadores foi a marcha fúnebre para os dominadores do mundo. Já enfraquecidos pelas catástrofes das três primeiras décadas do século, e fatigados pelas provações do Mundo Despertado, eles ruíram sob a nova crise.</p>
<p>Durante vinte anos, começando em 2030, as pessoas da Europa e da Ásia enfrentaram uma série de conflitos, hoje conhecidos como as Euroguerras. Com seus sistemas de comunicação e vigilância despedaçados, o poder dominante da República Russa se viu diante dos outros membros da Comunidade de Estados Independentes — CEI — exigindo o cumprimento de antigas promessas de independência autêntica.</p>
<p>O conflito foi dificultado e prolongado quando potências da Europa Oriental, como a Alemanha e a Polônia, foram arrastadas para a guerra. Também durante esse período, o Despertar alastrou-se pelas Regiões Baixas da Sibéria Ocidental, a Iakútia (um país xamanista), e todos os outros territórios a oeste das regiões baixas. Como os Estados Unidos e o Canadá, os russos também perderam seus campos para os recém-chegados.</p>
<p>O craque foi um chute no estômago dos EUA. Num país cada vez mais dependente das tecnologias de informação, o vírus foi mais devastador para a economia que o VITAS fora para a população. A situação do Canadá foi ainda pior. Em 2030, o que havia sobrado dos EUA (menos as terras cedidas à NANA) juntou-se ao que havia sobrado do Canadá, incluindo seus principais centros industriais e importantes áreas de recursos naturais. O novo governo foi chamado de União dos Estados Canadenses e Americanos (UNECAM), apesar dos protestos em ambos os lados da fronteira.</p>
<p>Quase quatro anos depois, uma coalizão de dez estados sulistas separou-se da união para formar a Confederação dos Estados Americanos (CAS). A CAS foi instantaneamente reconhecida por Aztlan (anteriormente México), ele mesmo recentemente separado da NANA. Os ânimos se exaltaram, e o medo de uma segunda guerra civil se espalhou. Contudo, a transição foi relativamente organizada. As unidades militares, com suas lealdades divididas, partiram-se e se transferiram para seus países de preferência. Os incidentes violentos foram poucos.</p>
<p>A Europa não teve a mesma sorte. Em 2031, uma desesperada República Russa atropelou a Bielorrúsia e lançou uma invasão da Europa para garantir recursos vitais e industriais. A Rússia e suas forças aliadas depararam-se com uma oposição por parte da Alemanha, Polônia e da OTAN; oposição essa inesperadamente forte, ainda que tenham lutado sem o auxílio de seus belicosos aliados norte americanos, que se afundavam em suas próprias guerras. Numa tentativa de isolacionismo, o congresso dos EUA havia retirado suas tropas da Europa.</p>
<p>Em um ano o conflito europeu chegou a um impasse; o desgaste revelou-se implacável. Embora as perdas em homens e materiais tenham sido altas em ambos os lados, poucos territórios realmente trocaram de donos. Então, no final de 2032, as forças russas, tendo obtido uma dominação precária sobre uma parte significativa da Polônia, renovaram a guerra com um ataque surpresa a Berlim. Suas forças aerotransportadas, que tinham sido cuidadosamente poupadas enquanto as outras repúblicas e seus aliados punham em combate tudo que possuíam, obtiveram inicialmente grandes vitórias. Os aliados perderam o equilíbrio, mas ainda assim conseguiram retardar a ofensiva. A Grã-Bretanha, que antes não se comprometera, entrou no conflito enviando tropas para os Países Baixos, “com o fim de proteger os interesses britânicos”. A escalada da guerra parecia inevitável.</p>
<p>Então, na noite frígida de 23 de janeiro de 2033, os monitores aeroespaciais suecos detectaram várias aeronaves cortando os céus da Europa setentrional; pareciam bombardeiros de combate Nightwraith da Aerospace FA-38 britânica. Num ataque relâmpago, as aeronaves anularam os centros estratégicos de comunicação e comando pertencentes aos dois lados. Com seus planos de ofensiva prejudicados além de qualquer chance de recuperação, os dois lados anunciaram um cessar-fogo no dia seguinte. Nenhuma nação jamais assumiu a responsabilidade do ataque dos Nightwraith.</p>
<p>Embora os combates principais tivessem terminado, as Euroguerras continuaram ainda durante muitos anos, enquanto as fronteiras eram retraçadas e as tropas de ocupação mudavam de posição. A Comunidade Econômica Européia ruiu. A Itália, a França Meridional e a Europa Sudeste estilhaçaram-se em centenas de pequenos estados, retornando à ineficiente política de cidades-estado que um dia fora seu grande mal. Perdida em impotentes sonhos imperialistas, a República Russa continuou a lutar para reconquistar território, mas foi repelida de todos os campos de batalha por Estados vizinhos, pela pressão das empresas e pelo fenômeno do Despertar.</p>
<p>Paralelamente, enquanto os conflitos morriam na Europa, a violência crescia na América do Sul. O governo colombiano, na esperança de retomar os territórios perdidos para os cartéis de droga e guerrilheiros separatistas anos antes, solicitou auxílio à República Cisplatina, numa investida de dois anos que alterou pouco a situação. No calor da guerra declarada, descendentes Incas e Maias do Peru, Equador e das regiões Andinas iniciaram combates que redefiniram as fronteiras daqueles países, fazendo renascer duas civilizações praticamente extintas na forma do Estado Quetzocuatal. Notadamente auxiliadas pelo poderio militar e empresarial de Aztlan, as forças mágicas dos habitantes originais da América do Sul tomaram a costa do Oceano Pacífico, desde o sul do Equador até o norte do Chile.</p>
<p>O Brasil não se envolveu nesses eventos por seus próprios problemas. O Presidente Carlos Manfredini, eleito em 2027 para o mandato até 2031, viu-se pego no caos do craque de 29. Grande parte do capital de investimento futuro mundial encontrava-se no Brasil, que havia conseguido, face a condescendência de seu povo, superar rapidamente os problemas da mutação e do VITAS, num esforço conjunto com a República Democrática Cubana, renomada por seus dois Prêmio Nobel em medicina e genética.</p>
<p>A região paulista de Cubatão e Santos havia sido totalmente arrendada para multinacionais estrangeiras, que — apesar dos protestos ecológicos — prosperavam em detrimento da mata atlântica remanescente. No início de 2029, todas as espécies de plantas e animais únicas daquela região foram declaradas extintas ou em grave risco de extinção.</p>
<p>Os metroplexos de São Paulo e Campinas, num acordo intermunicipal, absorveram a arrecadação e problemas das cidades vizinhas, exemplo seguido de perto por Curitiba, Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Mas os problemas aumentaram de maneira inversamente proporcional à arrecadação. Protestos e movimentos de guerrilha, como o autodenominado Movimento Neo-Tenentista, passaram a surgir como ressonância das calamidades européias, norte e centro-americanas e do próprio conflito Cisplatino-Colombiano.</p>
<p>Após o craque de 2029, a economia nacional ruiu, acompanhando o desastre mundial. A capacidade de arrecadação nacional desmoronou e os pagamentos de aposentados, pensionistas, funcionários públicos e dependentes de auxílios governamentais — como salário desemprego e cestas básicas ao MST — foram paralisados por seis meses. Greves e saques varriam todas as regiões nacionais, com mais intensidade no Sudeste, Nordeste e Centro-Oeste. Apesar do exército nas ruas, as principais capitais tornaram-se um aglomerado de famintos, humanos e meta-humanos, no limite suportável de uma guerra civil.</p>
<p>Com a entrada de 2030, diversos movimentos paramilitares pipocavam nesses centros urbanos. Os principais deles foram o Movimento Neo-Tenentista 7 de Setembro, que surgiu no interior de São Paulo e depois migrou para o Rio de Janeiro, e uma dissidência do Movimento Armado dos Sem Terra — MAST — liderado pelo filho de Denis Albuquerque, Felipe Albuquerque de Sousa ou Felipe Carcará, um grupo extremista de esquerda que pregava a renovação total do Congresso como sendo o único meio de erradicar a impunidade e o desvio de verbas para obras faraônicas sem fim social, como pontes, viadutos e hidrelétricas, além de poços artesianos em latifúndios particulares no norte e nordeste.</p>
<p>Esse grupo terrorista se autodenominava B.R.A.S.I.L. — Brigada Revolucionária Armada para Solução da Impunidade Legislativa. Seu líder, Felipe Carcará, xamã urbano e estrategista militar, foi responsável pela invasão e assassinato de vários membros das Casas Legislativas de São Paulo, Curitiba, Rio de Janeiro e Belo Horizonte até agosto de 2032, quando foi dado como desaparecido. Seu movimento, entretanto, não acabou. Com o auxílio clandestino de pequenas e médias empresas, esmagadas pelo peso dos impostos, o grupo foi responsável pela invasão de quatro bases do exército, inclusive o Paiol de Quitaúna em SP, o que resultou na morte de 78 pessoas, entre eles 43 militares, na Semana da Pátria de 2032.</p>
<p>Visto a reeleição de Manfredini em 2032, esperava-se uma rápida solução por parte do governo federal para essa ameaça, mas ele já protelava uma ação mais enérgica há quase dois anos. Os esforços do presidente, devido às pressões políticas envolvidas, concentraram-se tanto em aniquilar os guerrilheiros da B.R.A.S.I.L. que as verbas disponíveis ao serviço de inteligência brasileiro se tornaram insuficientes na monitoração de outros grupos.</p>
<p>Em outubro de 2032, o MAST e o Grupo 7 de Setembro, numa ação aparentemente conjunta e bem elaborada, tomaram a Usina Nuclear de Angra dos Reis, invadiram mais de duzentas fazendas no Ceará, Pará e Piauí, apossaram-se das Usinas hidrelétricas de Tucuruí (PA) e Itaipú (PR), unindo um contigente rebelde de quase vinte mil pessoas, com diversas e incongruentes reivindicações: a renúncia do presidente e seus ministros em prol duma Junta Militar de Governo, a desapropriação das fazendas invadidas, libertação de presos políticos dos movimentos guerrilheiros, pagamento de vencimentos atrasados a funcionários públicos e outras exigências pouco relacionadas entre si.</p>
<p>Apesar do movimento coordenado dos grupos, desavenças internas, com guerrilheiros matando-se uns aos outros, acabaram gerando o derretimento nuclear de Angra II e o fuzilamento das quarenta pessoas — por grupamentos do exército paranaense e paraguaio — invasoras na Usina de Itaipú, em 26 de outubro. No entanto, a Usina de Tucuruí não permaneceu intacta. Quando, no dia 31, o exército decidiu invadir a área onde estavam os rebeldes, uma explosão de quatro megatons dizimou as turbinas simultaneamente. Todos num raio de 1,8 quilômetro morreram.</p>
<p>Análises periciais posteriores comprovaram que o explosivo plástico usado, da classe C-VIII, advinha de forças especiais norte americanas. Nunca se soube como os guerrilheiros tiveram acesso a esse e outros equipamentos. A retirada das famílias das fazendas gerou conflitos armados que causaram a morte de duas mil pessoas, segundo dados governamentais.</p>
<p>Outro fato relevante desse ano foi o abaixo assinado iniciado pela FIESP, exigindo autonomia fiscal completa para a região sudeste, gerando uma proposta na Assembléia Legislativa que tramitou até o meio do ano seguinte, sem solução. O acordo firmado entre o Conclave de Meta-humanos de Florianópolis com as empresas mineradoras de carvão e gemas coradas, trouxe benefícios inéditos para o mundo daqueles que sofreram o Kawaru, com escolas de arquitetura, geologia, geografia e engenharia civil exclusivas para Orks, anões e trolls dedicados exclusivamente ao trabalho duro das jazidas minerais de Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul. A produção de Urânio e terras raras da Região Sul triplicou em seis meses.</p>
<p>Veja também a <a href="http://d3system.com.br/shadowrun-brasil-parte-i/">Parte I</a> e a <a href="http://d3system.com.br/shadowrun-brasil-parte-ii/">Parte II</a></p>
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		<title>Shadowrun Brasil — Parte II</title>
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		<pubDate>Wed, 19 Mar 2008 03:25:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>D3</dc:creator>
				<category><![CDATA[Shadowrun]]></category>

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		<description><![CDATA[“Quando a miséria supera a capacidade de resignação de um povo, as portas estão abertas para a revolta armada”.

— Felipe Albuquerque de Sousa, Líder da B.R.A.S.I.L., morto em combate.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<h1>1. Foi Assim&#8230;</h1>
<p><em>“Quando a miséria supera a capacidade de resignação de um povo, as portas estão abertas para a revolta armada”.</em></p>
<p><strong>— Felipe Albuquerque de Sousa, Líder da B.R.A.S.I.L., morto em combate.</strong></p>
<p>O Mundo de hoje, em 2060, é radicalmente diverso daquele de nossos tataravós. No planeta antes dominado por nações poderosas — que ameaçavam umas às outras com a aniquilação nuclear súbita — existem muitas nações autônomas bem menores e a autoridade das superpotências, antes imensa, foi assumida pelas empresas. Também nossa ciência e tecnologia nos distingue, seu nível atual faz os avanços anteriores parecerem experimentos infantis de feiras de ciências.</p>
<p>Mas não é apenas isso que divide, de forma irreversível, nosso período do passado. A magia emergiu novamente na Terra; vivemos num mundo Despertado.</p>
<h2>1. Ascensão das Mega-Empresas</h2>
<p>Tudo começou no final da década de 1990, quando se intensificaram os distúrbios civis que marcaram o fim do milênio. Alarmadas com a situação social e política, as empresas — em todas as partes do mundo — temiam confiar a segurança de seus bens a governos indiferentes ou, a seus olhos, incompetentes. Começando por suas filiais nos países do Terceiro Mundo, Brasil inclusive, onde se sentiam mais imediatamente ameaçadas, as empresas passaram a armar suas equipes de segurança com os equipamentos mais avançados existentes e a contratar mercenários profissionais em acordos de curto e longo prazo. Quando foi iniciada a onda de desobediência civil e violência urbana que engolfou cada nação do globo, as empresas começaram a transferir seus recursos paramilitares para onde estes se fizessem necessários. O cenário estava montado.</p>
<p>O início dos tumultos por comida na cidade Nova York, em 1999, foi a fagulha que acendeu o estopim. O povo tomou as ruas, desesperado e revoltado com a greve dos caminhoneiros, que interrompera por três meses a entrega de alimentos frescos. Centenas foram mortos e milhares ficaram feridos à medida que a violência se espalhava pela cidade e pelo mundo.</p>
<h2>a) A União dos Oprimidos</h2>
<p>Nesse ano, nos estados da Paraíba e Piauí, os diversos Movimentos dos Sem Terra &#8211; MST &#8211; até então descentralizados através do país, uniram-se sob o comando de Denis Albuquerque, um filho de posseiros, tenente reformado do exército brasileiro. Os movimentos do interior do Pará, Bahia, Pernambuco, Ceará, Alagoas e Rio Grande do Norte logo aderiram ao comando do tenente Albuquerque, inventariando armas, treinando ‘soldados’ e transformando os assentamentos em áreas militarmente organizadas. Alguns confrontos isolados, mas de grandes proporções, começaram a alastrar-se pelo interior do país.</p>
<p>Na cidade de Anhembi, à 325km de SP, cerca de vinte mil pessoas &#8211; inclusive mulheres e crianças &#8211; iniciaram uma marcha em direção à Campinas, em 19 de outubro de 1999, como protesto à impunidade dos assassinos de 19 sem terra mortos em Eldorado dos Carajás, 3 anos e meio antes. Não tendo suas reivindicações atendidas em Campinas, partiram então para a capital, São Paulo, para uma audiência com o então governador Mário Covas. Impedidos, em 27 de outubro, de entrar no palácio dos Bandeirantes, sua frustração eclodiu num tremendo confronto com a Polícia Militar do estado, que resultou na morte de 800 pessoas entre os baleados e pisoteados no tumulto.</p>
<p>Determinado a impedir novas tragédias deste porte, o Governo Federal decretou ilegal qualquer tipo de associação com o intuito de pressão à reforma agrária. Como retaliação, e também para impedir abusos das forças militares de ‘dissociação’, o tenente Albuquerque ordenou uso de força letal para proteger os assentamentos existentes e as fazendas invadidas. Quase quatro mil pessoas morreram nos confrontos dos meses seguintes.</p>
<p>Paralelamente, a decisão Shiawase de 2001, na Suprema Corte Americana, que estabeleceu a extraterritorialidade das empresas multinacionais, foi reconhecida como convenção pelo governo brasileiro, sob pretexto de atração de investimentos estrangeiros, levando as grandes empresas nacionais &#8211; em especial as financeiras &#8211; a armarem seus corpos de segurança.</p>
<p>Nos estados da região Nordeste, onde os próprios latifundiários conhecidos como ‘coronéis’, mantinham unidades de ‘jagunços’ — capangas armados para manter as divisas de suas fazendas — essa nova situação tornou-se uma forma de legitimar suas milícias. Transferindo, apenas nominalmente, a posse das terras para empresas com sedes no Paraguai e outros países do Mercosul — tecnicamente multinacionais — eles conseguiam autorização federal para efetuar a manutenção dessas forças paramilitares. Pode-se dizer que este foi um dos fatores que contribuiu para o enorme número de mortes ocorrido entre o MST nesse período.</p>
<p>Com o novo status possuído pelas empresas, iniciou-se uma onda de pressões sobre o governo brasileiro para permissão de exploração incondicional dos recursos minerais do país, o que acabou sendo permitido, causando um desmatamento ‘controlado’ em grande escala, mesmo para as selvas amazônica e de mata atlântica, tão duramente castigadas por anos.</p>
<p>Apesar da onda de privatizações continuar, todas as empresas extrativistas mantinham algum grau de ligação e/ou dependência com o governo federal, diferente do ocorrido no período de 2002 a 2009 na América do Norte, que acabaria culminando com o atentado terrorista do grupo MOSIA, responsável pelo lançamento de um míssil nuclear americano sobre a Comunidade dos Países Independentes, em 05 de maio de 2009.</p>
<p>Entretanto, apesar dos esforços do presidente eleito em 2002 e reeleito em 2006, a onda de invasões e conflitos com o Movimento dos Sem Terra perdurou por anos a fio, ceifando a vida de policiais, oficiais do exército, forças paramilitares e dos próprios sem terra. A própria organização era acusada de envolvimento com o tráfico de drogas e reconhecida pela opinião pública e mundial como um movimento terrorista.</p>
<h2>Adversidades</h2>
<p>Os embates, prestes a explodir numa guerra civil, foram abafados pela infecção virótica do VITAS (Virally Induced Toxic Allergy Syndrome / Síndrome da Alergia Tóxica Viroticamente Induzida), que varreu o globo a partir do início de 2010. O primeiro caso foi identificado em Nova Deli, mas em poucas semanas foram registrados casos no mundo todo. Em face da precariedade do atendimento médico, e da falta de saneamento básico das cidades mais remotas do país, o Brasil foi duramente castigado pelo vírus, com uma porcentagem significativa de sua população tendo morrido ao final de 2010.</p>
<p>Por mais trágica que tenha sido, a VITAS foi apenas o início de um caos sem precedentes. Começando com a violenta dissolução do governo mexicano em 2011, mais governos caíram nos cinco anos seguintes do que em qualquer período de tempo de extensão aproximada na história. A fome tomou o mundo, aumentando o já enorme número de mortos. Protestos civis de grandes proporções resultaram em ataques a usinas nucleares na Europa, três das quais sofreram fusões nucleares. Houve precipitações radioativas longas e prejudiciais.</p>
<p>Nos calcanhares do VITAS, veio o fenômeno assustador que mais tarde seria chamado de Expressão Genética Obscura, ou EGO. No mundo inteiro, pais ‘normais’ começaram a gerar crianças mutantes e deformadas. A Newsweek batizou essas crianças de ‘elfos e anões’. Parecia que o Apocalipse afinal chegara. O ano 2011 é hoje lembrado como ‘O Ano do Caos’.</p>
<p>Com milagres e calamidades sendo registradas em todas as nações, religiões nasceram e morreram. Surgiram profetas, proclamando o fim do mundo. Em 24 de dezembro, no mesmo momento em que centenas de japoneses — ao passarem velozmente pelo Monte Fuji a bordo de um trem-bala — presenciavam a primeira aparição do grande Dragão Ryumyo, o profeta da Grande Dança do Espírito, o norte americano Daniel Coiote Uivante, conduziu seus seguidores para além dos portões do centro de reeducação, e um Dragão ocidental de pele avermelhada foi visto por centenas de turistas alçar vôo da ilha de Fernando de Noronha.<br />
Já não havia mais dúvidas nessa época: a magia retornara ao mundo.</p>
<table style="border-style: solid" border="0" bgcolor="#b8b8b0">
<tbody>
<tr>
<td>
<h2>O Aparecimento do Dragão</h2>
<p>— Eu tinha certeza que não havia sido alucinação. Enquanto pescava sossegado com minha família, apreciando os golfinhos saltando sobre a água, vi uma grande sombra crescer atrás de mim.</p>
<p>— De um só salto, a criatura se ergueu sobre a grama esparsa, lançando-se num vôo determinado rumo ao mar. Na passagem, arrebatou num único golpe o pobre golfinho. Não posso dizer com certeza a cor da criatura, mas o reflexo avermelhado do pôr do sol lhe dava essa tonalidade.<br />
— Era realmente muito grande. Eu juro que estou dizendo a verdade. Você precisa acreditar em mim.<br />
<strong>• Eduardo Marques Oliveira</strong>, bancário, em depoimento cedido ao jornal <em>Notícias Populares</em> em 25 de dezembro de 2011, sobre o aparecimento do Dragão Laudenzack em Fernando de Noronha.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<h2>O Sexto Mundo</h2>
<p>O que é conhecido como Ano do Caos foi verdadeiramente o fim da idade antiga e o início da nova, o amanhecer do mundo Despertado. Alguns místicos apontam o calendário Maia como sendo profético, lembrando que ele prediz o começo de um novo ciclo para a humanidade em 24 de dezembro de 2011. Os mesmos místicos alegam que a aparição do dragão Ryumyo é o marco daquilo que os maias chamaram de o alvorecer do sexto mundo.<br />
Tivessem pesquisado mais, esses sonhadores teriam descoberto que os Maias também predisseram uma hecatombe mundial que proclamaria o nascimento de uma nova e aperfeiçoada raça de seres humanos. Quais foram esses sinais e eventos? É verdade que o mundo enfrentou provações, desastres e grandes mudanças, mas não é um mundo novo. É ainda a boa e velha mãe Terra, mesmo que em nova fase.<br />
Um modelo melhor para esse tipo de mudança é a alteração histórica de a.C. para d.C.. Ninguém vivo na época soube que ela aconteceu. Tendo sido revelada apenas mediante uma percepção tardia, foi necessário alterar o calendário para registrar a mudança.</p>
<h2>O Inferno no Mundo</h2>
<p>A partir de 2014, o Coiote Uivante iniciou uma revolução nos EUA que começou a desestruturar os países daquele continente. Utilizando-se do que alegava ser ‘magia’, ele permaneceu durante todo esse ano desafiando a autoridade do governo norte americano.</p>
<p>A República Livre da Irlanda foi estabelecida nesse período, bem como a dissolução completa do governo branco da África do Sul. Em 2015, grandes tribos de ‘Pés-Grande’ desceram as encostas do Aconcágua, em direção às vilas chilenas da região de Viña Del Mar, buscando alimento. A primeira reação do povo daquelas cidades foi — como é do espírito humano — a violência.</p>
<p>Novos incidentes foram registrados por todo aquele ano. Em outubro, a Argentina, sob o comando do General Alencar, declarou que as Ilhas Malvinas seriam novamente anexadas à seu território. Face aos problemas que a Inglaterra enfrentava, em decorrência do vírus VITAS, a única resposta daquele país foi um desagravo junto à ONU.</p>
<p>Um acordo, firmado em 12 de agosto de 2016, garantiu apoio militar do Chile à Argentina, em caso de necessidade, o que viria a ser utilizado posteriormente na guerra contra os Cartéis Bolivianos, culminando com a proclamação da República Cisplatina, anos mais tarde.</p>
<p>Em 2016, o presidente americano Garrety foi assassinado. Logo em seguida ocorreram também os assassinatos do Presidente da Rússia, Nikolai Chelenko; da primeira-ministra Lena Rodale da Grã-Bretanha, e do Ministro Chain Shon de Israel.</p>
<p>Em 2018, após o ano anterior ter sido repleto de catástrofes atribuídas à Coiote Uivante e seus Dançarinos do Espírito, os governos dos EUA, Canadá e México forjaram o pacto de Denver, onde a maior parte da região oeste da América do Norte tornou-se uma nova Nação.</p>
<p>Outros acontecimentos importantes desse ano foram a explosão em órbita do ônibus espacial América, que matou 300 cidadãos na Austrália, e a criação, pelo Dr. Hosato Hikita, da ESP Systems Incorporation de Chicago, da primeira geração do Sistema de Indução Sensória Artificial. Enquanto a indústria de entretenimento começou a explorar desvairadamente os aspectos comerciais do sensorama, outros pesquisadores viram a tecnologia como uma solução para o controle da explosão de dados.</p>
<p>Os movimentos de guerra de guerrilha intensificaram-se nos países da América Central, com Golpes Militares sucessivos ocorrendo em El Salvador, Nicarágua, Costa Rica, Honduras e Guatemala, numa guerra civil sem fronteiras se espalhando por toda a ligação ístmica entre os grandes continentes do Novo Mundo.</p>
<h2>Mutação</h2>
<p>Em 30 de abril de 2021, iniciou-se um fenômeno totalmente inexplicado. Por todo o mundo, um entre cada dez homens e mulheres subitamente mutaram em formas humanóides horrendas. Para alguns, o processo foi curto e indolor. Outros passaram dias ou semanas hospitalizados. Alguns se recuperaram, enquanto outros morreram gritando em agonia. Naquelas semanas horríveis, duas novas raças de humanos emergiram como flores primaveris sob o sol Despertado.</p>
<p>“Mutação” ou “Kawaru” foi o nome dado pelos meios de comunicação a esse processo aparentemente catastrófico, que era apenas mais um sinal da reemergência da magia. Os estudiosos têm seus próprios nomes para isso, palavras incrivelmente polissilábicas ou fileiras de consoantes formando fileiras de palavras aparentemente desconexas. Mas, seja qual for o nome, o resultado é sempre o mesmo.</p>
<p>Nenhuma raça ou grupo étnico foi poupado quando 10% da população mundial se transformou em criaturas que logo seriam batizadas de Orks e Trolls, projetando os sombrios mitos nórdicos nas mudanças físicas sofridas pelas vítimas.</p>
<p>A maioria desses desafortunados ficou traumatizada pela experiência. E, se não, seus entes queridos ficaram. Alguns entenderam o nome que lhes foi conferido pela imprensa como uma licença para agir como os duendes e monstros das lendas, gerando muitos incidentes violentos.</p>
<p>Tivesse o fenômeno terminado aqui, os danos psicológicos certamente seriam curados depois de certo tempo. Mas algumas crianças normais também começaram a mudar à medida que cresciam, juntando-se às legiões dos assim chamados Orks e Trolls. Esses ou se juntaram à sua própria espécie ou se casaram com almas de coração aberto que podiam ver através das conchas físicas. Algumas vezes essas uniões geravam proles normais; em outras, produziam os novos tipos raciais. Mas nem todas as crianças normais permaneceram dessa forma. Muitas passaram subitamente pela mutação durante a puberdade; mais uma vez, o trauma terrível e seus desajustes decorrentes circularam pela comunidade.</p>
<p>Conforme fora noticiado mais tarde, durante os conflitos que precederam a derrubada do Congresso Nacional pelos terroristas da B.R.A.S.I.L., dezenas — senão centenas — de indígenas e moradores de áreas litorâneas também mudaram para formas semi-senscientes, com uma compulsão pelas regiões de floresta densa, batizados de curupiras, bois-tatá e outros seres místicos. Ao menos um incidente foi noticiado num Haras na região da Serra da Mantiqueira, na cidade de Lambari, onde todos os cavalos destruíram os celeiros, deixando-os em chamas, fugindo para a Mata Atlântica num frenesi de fogo, segundo testemunhas, que brotava de suas crinas e cabeças. Nenhuma dessas criaturas jamais foi recapturada.</p>
<p>A EGO, a mutação e a violência por elas causadas preocuparam as pessoas da Terra durante a maior parte do ano seguinte. Até então a cor e a religião haviam sido a grande barreira entre os homens, mas agora as pessoas do planeta começavam a odiar e temer as novas raças que surgiam: elfos, anões, Orks e Trolls. No ano de 2022, conflitos raciais varreram o globo numa escala jamais vista. Em meio ao tumulto, novas nações emergiram, quando estados separaram-se das nações que tinham-nas colonizado ou coalesceram a partir de duas ou mais unidades.</p>
<p>Na América do Sul, as mudanças mais importantes foram a criação da Nação Cisplatina, do Estado Militar de Livre Comércio do Paraguai (EMLICOMP), e da Coalizão Independente Cali Bogotá Medellin, surgido de um golpe militar de guerrilheiros e cartéis de droga da Colômbia, a noroeste daquele país. Apesar dos conflitos sangrentos que se seguiriam, e face a baixa militarização do Brasil, a maior faixa territorial coesa e sob um mesmo governo passou a ser nossa República Federativa, que só começou a dissolver-se após 2029.</p>
<p>Numa tentativa inútil de controle, o governo dos Estados Unidos declarou lei marcial durante vários meses, enquanto da Rússia e de outras nações na Comunidade dos Estados Independentes pingavam relatos a respeito de mortes em grande escala. Temendo por suas vidas, muitos dos seres mutantes buscaram refúgio no submundo, no campo ou em comunidades de suas próprias espécies.</p>
<p>O ‘Grande Êxodo’, como ficou conhecida a investida federal brasileira para contenção do fenômeno, foi marcada por meses de peregrinações das novas raças em direção a cidades santas, como Conceição Aparecida, Juazeiro do Norte e Salvador. As cidades de Niterói, Parati e Angra dos Reis tornaram-se o maior refúgio élfico do planeta, até a criação do Tir Tairngire. Por sua vez, a ilha de Florianópolis foi quase totalmente tomada por Orks e Trolls advindos de Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul, boa parte deles por ordem governamental.</p>
<p>As grandes concentrações de meta-humanos começavam a beirar o limite possível antes de explodir em confrontos, quando outro espectro mais pavoroso que qualquer ork ou troll ergueu a cabeça na forma de uma nova onda da praga VITAS. Enquanto mais uma parte da população mundial caía diante do ataque furioso das pestes, a violência racial arrefeceu, unindo pelo mundo humanos e novas raças.</p>
<p>Foi nesse ano sombrio que a Data e em seguida a Veja, revistas de notícias sobre eletrônica e variedades, respectivamente, criou o termo despertados para os meta-humanos e as outras formas de vida que haviam surgido recentemente.</p>
<p>Veja também a <a href="http://d3system.com.br/shadowrun-brasil-parte-i/">Parte I</a></p>
<p>Continua na <a href="http://d3system.com.br/shadowrun-brasil-parte-iii/">Parte III</a></p>
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		<title>Shadowrun Brasil &#8211; Parte I</title>
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		<pubDate>Mon, 10 Mar 2008 14:22:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>D3</dc:creator>
				<category><![CDATA[Shadowrun]]></category>

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		<description><![CDATA[Neko Tsumetai aproximou-se do prédio de quatro andares, cinza avermelhado, com as marcas do tempo e do descuido subindo pelas paredes frontais. O tempo havia passado, mas São Paulo ainda era como se lembrava. O metroplexo agora se estendia quase até São Roque e Jundiaí, com dezenas de cidades aglutinadas ao ‘Enorme ABC’. A grande São Paulo era, realmente, grande [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Há algumas semanas, me mostraram o novo jogo de XBOX de Shadowrun. Eu nunca gostei de jogos de tiro, e certamente não tenho habilidade suficiente para me divertir com jogos de tiro contra outros jogadores.</p>
<p>Mesmo assim, uma coisa me chamou a atenção nesse novo Shadowrun. Ele se passa no Brasil,  especificamente na área do litoral de São Paulo. Isso me lembrou do cenário adaptado que eu havia escrito para Shadowrun 3ª Edição, complementando minha campanha mais antiga de RPG.</p>
<p>Eu utilizei todas as  citações que existiam nos livros sobre a América Central e do Sul e gerei um &#8220;livro de referência&#8221;, por assim dizer, onde jogamos durante algum tempo. O engraçado é que eu só mestrei um arco de aventuras nesse cenário — as demais histórias foram criadas pelos outros Mestres do meu antigo grupo, como o Fábio Novaes e o TiB.</p>
<p>Esse material já foi publicado no antigo site do Bira, o shadowrun.com.br, que se encontra desativado atualmente. Mesmo pertencendo à 3ª Edição, aproveito que &#8220;usaram&#8221; parte da minha idéia num <em>game </em>para lhes apresentar o mini-suplemento Shadowrun: Livro de Referência Brasil. Esse é um trabalho de fã, então não tem qualquer apelo comercial e pode ser usado, copiado e redistribuído por qualquer pessoa, contanto que citem a fonte e indiquem que os direitos autorais de Shadowrun pertencem à Fantasy Productions.</p>
<p>Lembrem-se de poupar munição e nunca confiar num dragão!</p>
<p>D3</p>
<hr />
<h2>I.TERRA MORTA</h2>
<p><em>“Bem vindo ao meu pesadelo. É por ele que eu ando quando estou acordado. Portanto, não tenha medo”.</em><br />
<strong>— Joana D’Arcos, shadowrunner de Cubatão, de uma música do Camisa de Vênus.</strong></p>
<p>Neko Tsumetai aproximou-se do prédio de quatro andares, cinza avermelhado, com as marcas do tempo e do descuido subindo pelas paredes frontais. O tempo havia passado, mas São Paulo ainda era como se lembrava. O metroplexo agora se estendia quase até São Roque e Jundiaí, com dezenas de cidades aglutinadas ao ‘Enorme ABC’. A grande São Paulo era, realmente, <em>grande</em>.</p>
<p>Entretanto, o xamã urbano Gato se sentia em casa. A nuvem densa de poluição que começava a assentar com o cair da noite e a garoa fina, símbolo do que já chamara de lar, sugeria-lhe um toque de nostalgia.<br />
Era hora de trabalhar. Dando mais alguns passos na direção da Portaria, Neko enfiou a mão dentro de seu sobretudo, certificando-se que sua Predador II ainda estava lá, retirando um saco de ervas secas. Ao passar pelos quatro membros de gangue, que gritavam entre si num linguajar das ruas quase hispânico, jogando cartas sentados no chão, ele esfarelou as ervas e recitou uma pequena canção, alterando suas feições para algo mais ocidental.</p>
<p>— Boa tarde — disse ao porteiro, num português arrastado — Vim ver um amigo. Peter Vasquez. Apartamento 301.</p>
<p>— Boa tarde. O Sr. Vasquevics está viajando. Deve retornar em quinze dias. Quer deixar algum recado?</p>
<p>— Diga-lhe que Neko esteve aqui. Até logo.</p>
<p>— Neko? Seu nome é Neko, hã&#8230; Tsumetai? Há um pacote para o senhor. Mas o Peter me disse que o senhor era japonês.</p>
<p>— <em>Peter e sua discrição</em>, pensou Tsumetai. <em>Será que também falou que eu era um shadowrunner</em>? Esticando sua mão para pegar o pacote e o envelope nele grudado, Gato quase não percebeu os dois mulatos se aproximando dele. Deixando o pacote sobre o balcão, Neko girou rapidamente, assumindo uma posição quase imperceptível de combate. O primeiro homem, passando casualmente a mão esquerda pela têmpora, afastou um dreadlock marrom, deixando transparecer uma neuroconexão e pressionado algum tipo de botão logo atrás dela. O segundo homem se aproximou, estendendo um dedo inquisitivo para Neko, balançando uma série de apetrechos — mágicos aparentemente — pendurados no braço de sua jaqueta preto azulada.</p>
<p>— Eu sou Jamir e tu num pode trazer sua bunda magra de fora e vim fazê truquizinho na nossa área, malaco. — O idioma das ruas era quase ininteligível para o xamã — Isso aqui tá protegido miliano, então vai lascando fora esse disfarce, ou o Mancha na Calçada aqui atrás vai mostrar porque tem esse nome.<br />
— Que disfarce, babuíno? Tu tem noção de onde você tá e qualé tua tendência, seu pedra? — Infelizmente, além de difícil, o idioma das ruas também era um bocado ofensivo — Eu nem quero encrenca, mas o bicho pega se tu não largar mão dessa palha, sacou?<br />
Neko pensou em erguer uma barreira, ou aumentar seus reflexos magicamente, mas decidiu aguardar até saber as reais intenções do suposto mago à sua frente.<br />
— Seguinte, ratazana, magias hostis são proibidas nesse bairro. Nós tem patrulha pra garantir a parada, manja? E TODA magia que não pertence ao tronco é hostil. Se tu pretende fincar as patas aqui, japa, aconselho baixar o crânio e visitar o tronco. Essa noite. Falou sangue!<br />
— Mas — Neko ficou confuso por alguns segundos; era fato que o Sexto Mundo tinha muitas coisas estranhas, mas isso era um absurdo — Que tronco, véio? E de que magia tu tá gorfando aí?<br />
— Essa mascarazinha pra esconder tua cara japonesa de escritório não grudou, ratazana. O tronco fica na entrada da represa, beleza? Esteja lá, ou teja longe daqui.<br />
— Estarei. Mas ratazana é a velha verde da tua mãe. Eu sou Gato.</p>
<p>O mago cuspiu no chão, deu um sorriso de escárnio e virou-se para ir, entendendo que seu recado havia sido dado. Mancha retornou para seus colegas, sentando-se no chão e reclamando sobre suas três cartas.</p>
<p><em>Uma bela recepção</em>, imaginou Neko. Na certa, Vasquez guardara-lhe mais um ou dois pares de surpresas. Pegando de volta o pacote, o xamã abriu-o com pouca paciência, deixando cair seu disfarce mágico enquanto fazia isso. Dentro do pacote havia um pequeno gato de pelúcia com um chapéu de guaxinim, vestido como um cossaco russo, segurando uma chave e uma plaqueta dizendo ‘Leia a carta’ nas mãos cinzas.<br />
Abrindo o envelope, Neko começou a ler:</p>
<blockquote><p><span style="font-family: courier;"> “Caro Neko,</span></p>
<p align="justify"><span style="font-family: courier;">Sinto tê-lo tirado de teu refúgio em seu amado Japão, mas realmente necessito de sua ajuda. Nesse momento, estou severamente ocupado, vasculhando a rede em busca de uma cura para males que afligem outros amigos meus. Sei que tuas preocupações e responsabilidades são grandes, mas entre as dezenas de shadowrunners que conheço, nenhum aceitaria a missão que tenho de forma mais altruística que você, meu amigo.<br />
Tenho urgência em recuperar determinados espécimes, únicos, de para-criaturas da empresa Votorantim Biochemicals Internacional e entregá-los à Corporação Laudenzack no Estado Amazônico. É fato que eu não deveria saber quem me contratou para tal, mas considerando o pagamento e a situação que o ensejou, tornou-se fácil fazer a Matriz localizá-los.<br />
Deixe-me explicar mais detalhadamente. Na última corrida que participei, tive um aliado valioso de codinome Rad, indivíduo dotado de extrema velocidade e grandes aptidões físicas. Suspeito de emanações mágicas, apesar de não tê-lo visto soltar nenhum feitiço &#8211; pelo menos ao modo que você os faz. Esse indivíduo contraiu uma virose violenta, cujo antídoto só nos será fornecido mediante a entrega dos espécimes em questão.<br />
Encontre-me, às 22:00 h de Quinta-feira, no Bar Ganhas. O endereço consta da lista.<br />
Peter Vasquevics<br />
P.S: A partir de agora meu sobrenome mudou, por motivo de segurança. O velho Vasquez tornou-se Vasquevics. Detalhe: não utilize seus dons mágicos no bairro. Os moradores não gostam.”</span></p></blockquote>
<p>Qualquer possibilidade de irritação dissipou-se do espírito do xamã Gato ao abrir o presente e ler a carta. Vasquez, quer dizer, Vasquevics, tinha-lhe dado poucas informações, mas o pedido de um amigo sempre seria capaz de tirá-lo de seu lar. Ele guardou o gato russo de volta na caixa, pegou a chave, abriu o portão e entrou no apartamento de seu amigo, sob o atento olhar do porteiro e dos membros de gangue.</p>
<p>Às 21:50 horas, Neko chegou ao Bar Ganhas. Sentou-se no balcão e esperou. Às 22:15, Peter Vasquevics entrou correndo, com seus 1,75 m, sobretudo cinza escuro, suas conexões e espaços para chips brilhando na luz esparsa do ambiente. O bar estava cheio para um dia de semana, mas aquele era — <em>deveria ser</em>, pelo menos — um bar de runners, já que quase todos estavam armados e falavam baixo. Neko levantou-se para ir à direção do amigo. Quando o viu, Peter esticou o braço, no que parecia um cumprimento. Gato ergueu seu braço, mão e sorriso abertos. Vasquevics pegou-o pelo punho, instantaneamente arrastando-o para fora do bar, onde um furgão com um negro de músculos artificialmente bem-definidos aguardava no volante:<br />
— Oi, Neko. Desculpe o atraso. Temos trabalho. Está armado?<br />
A bateria de frases torpedeadas por Peter confundiu Neko, e quando percebeu, o furgão estava em movimento.<br />
— Estou armado, sim, Peter. É um prazer revê-lo também. Pode me explicar porquê a pressa?<br />
— Os FMP estão a poucos quilômetros da gente. Temos de correr. Esse no volante é Rad. Aquele sentado no fundo é Nio.<br />
Rad não apresentava nenhum tipo de marcas bioeletrônicas no corpo, nenhum metal, nada aparente. Era de se esperar algo estranho num shadowrunner, mas não havia nada. Nio, no entanto, era a coisa mais estranha que se podia ver num ser humano, ou quase humano. Era um anão de coturnos brancos, desgastados, calça de moletom azul e sobretudo verde limão, barba por fazer, e o asseio aparente de quem mora nas ruas há anos.<br />
— Quem são os FMP? E temos de correr para onde?<br />
— São a Força Militar Policial&#8230;<br />
— Os Ferrados e Mal Pagos, isso é que são — interrompeu o anão, com sua voz rouca, gargalhando em seguida.<br />
— Vamos para o litoral — continuou Vasquevics — Até o complexo Votorantin, em Cubatão. É lá que estão os espécimes.<br />
— E a minha vacina &#8211; resmungou Rad do volante.<br />
— Você sabe que o litoral não é minha área — disse Neko em japonês — meu lugar é entre os prédios e telhados.<br />
— Cubatão não é necessariamente litoral. É apenas uma forma de dizer. É a área mais poluída da Confederação Independente Brasileira. Todos o tipos de experimentos genéticos proibidos são realizados lá. Inclusive bioengenharia humana.<br />
— Não parece um lugar muito bom para se viver — completou Neko.<br />
— Eu sempre acreditei que as pessoas más, quando morriam, iam para o inferno. Agora sei que os patifes mortos em Cubatão acabam indo para um lugar melhor do que quando estavam vivos.</p>
<hr />— Companhia — gritou Rad, mudando imediatamente de direção.<br />
— Nio, cuide deles. Neko, guarda as costas do anão. Eu vou desorientar aquela libélula metálica. — Peter gritava, fazendo sua voz ecoar desagradavelmente dentro do ambiente fechado do furgão.<br />
Duas viaturas da FMP os perseguia na entrada para a cidade. Neko ergueu uma proteção mágica e, imediatamente depois, Nio abriu a porta traseira do furgão, descarregando sua Ingram Valiant nos pneus dos policiais.<br />
Vasquevics, por sua vez, encontrava-se numa espécie de transe, dois cabos pendendo de suas conexões enquanto seus dedos se moviam freneticamente no neuroterminal Sony CTY-360. O som do drone teleguiado foi se distanciando.<br />
— Precisamos correr — concordou Neko — Vou nos manter protegidos.<br />
— Votorratos a cinco minutos — avisou Rad, estacionando no acostamento. O Complexo Industrial de Cubatão era um amontoado de chaminés, derramando fumaça e fogo incessantemente, mas três grandes construções se destacavam naquela paisagem negra: A Laudenzack Componentes, A Petroquímica-Biogene Internacional, e a Votorantim-Biochemicals S/A. Certamente, deveria haver muita segurança naqueles complexos, apesar das ruas desertas que cercavam os portões.</p>
<p style="text-align: center" align="center"><img src="http://d3system.com.br/wp-content/uploads/2008/03/ce_finalcover.jpg" alt="" /></p>
<p>Peter, Nio e Rad avançaram na direção da cerca, provavelmente eletrificada, e passaram a cortá-la com as ferramentas da mochila de Peter. Neko mantinha-se a cem metros deles; quando recebeu o sinal para entrarem, ele achou melhor tornar-se imperceptível para olhos curiosos.<br />
Mas não pôde.<br />
De alguma forma, aquela terra tinha sido tão castigada, anos seguidos, pela poluição despejada pelo homem, que a mãe Terra se recusava a permitir que os fios do maná passassem por ali. Neko agora era um mago sem magia. Que Gato o ajudasse.<br />
Entrando pelo duto de elevador externo, Peter acionou seus olhos modificados, percebendo um rastro de calor no galpão, na saída do fosso onde desceram.Saindo cuidadosamente, não conseguiu definir para onde se dirigia esse rastro. Gesticulando com as mãos, ordenou à equipe que rapidamente se separasse, cobrindo a parte central do galpão, escondendo-se nas caixas de materiais eletrônicos amontoadas sem qualquer ordem.<br />
Rad encontrava-se mais à frente, Ares Predador em punho, quando uma respiração profunda chamou-lhe a atenção. Era uma criatura quadrúpede, que se ergueu em duas patas, assemelhando-se a um tamanduá, com garras do tamanho de um punho, uma língua bifurcada e espinhosa brotando de seu focinho. Não houve tempo para ver muito mais que isso. Um baque surdo o arremessou a quatro metros da criatura e dois metros de sua arma. Imediatamente, Neko subiu numa das caixas, as duas katanas em punho, desferindo um golpe certeiro no dorso do animal. Rad, movendo-se mais rápido que o xamã pôde ver, acertou a criatura mais duas vezes, arremessando-a sobre os ombros à frente de Nio.<br />
O anão de coturnos brancos pensou em disparar na criatura, mas foi atingido fortemente nas pernas pelo que parecia um chicote. Uma sombra cresceu atrás dele, erguendo-o do chão, e duas mãos enormes começaram a apertá-lo. Nio apontou sua metralhadora para o peito da criatura e afundou o dedo no gatilho, generosamente descarregando seu pente estendido de balas. Seguido do estrondo dos disparos veio o grito do anão, quase esmagado pela força do braço da criatura.<br />
Vasquevics começou a destrancar a porta, esperando que seus companheiros dessem conta da ameaça, quando ele mesmo foi surpreendido por outra para-criatura, um <em>Tetramandua tetradactylas</em>, que o golpeou impiedosamente, arrancando suas neuroconexões literalmente na unha, deixando-o à beira da inconsciência.<br />
—  F%$#* da P*%$! Peter! — gritou Neko, arremessando-se na direção da criatura.<br />
Enquanto Rad soltava Nio das garras moribundas da segunda criatura, Neko atravessou as costas do monstro com uma das espadas. Devido a esse espaço de tempo, Peter pôde se recuperar e disparar sua Ruger Super Warhawnk na cabeça do animal, liqüidando-o de vez.<br />
Depois de ajudá-lo a levantar, Neko perguntou ao tecnauta:<br />
— O que era aquilo? — disse, ofegante.<br />
— Um símbolo nacional — respondeu Peter enquanto terminava de abrir a porta.<br />
Um corredor branco se estendia até uma porta de vidro, com símbolos de perigo biológico gravados na porta.<br />
— É aqui. Fiquem preparados!<br />
Nio havia se recuperado o suficiente para ficar na retaguarda, enquanto Neko e Rad esperavam a abertura dessa nova barreira. O barulho de gás e a porta rangendo ao entrar na parede traziam promessas de encrenca. Dentro da sala havia quatro pequenas jaulas com seres parecidos com jacarés, menores e com membros proeminentes, aparentemente adormecidos. Peter destravou a primeira das jaulas e uma luz avermelhada e uma sirene irritante começou a soar na sala aquecida.<br />
Correndo para os elevadores com uma das jaulas, eles utilizaram os cabos para subir, na esperança de não haver qualquer força antagônica esperando-os na saída. Sua esperança foi em vão. Próximo à grade estava um homem, desarmado, à espera deles. Ele puxou uma pequena haste de sua têmpora, dizendo uma frase ininteligível nela, assumindo posição de combate.<br />
— Esse é meu — disse Rad.<br />
— Pode ser perigoso. Já temos o que viemos buscar. — gritou Peter, apontado sua pistola automática para o funcionário da Votorantin.<br />
— Não. Ele é meu — insistiu Rad, abaixando a arma do tecnauta. — Encontro vocês no carro.<br />
Aceitando a oferta do inimigo, Rad passou a desferir golpes e acrobacias de caratê quase tão rápido quanto o funcionário podia bloqueá-los. O resto do grupo correu para o Furgão; com Peter sentado ao volante, eles aguardaram alguns minutos.<br />
Pouco antes de decidir partir, deixando Rad para trás, este surgiu pela ravina, aparentemente ferido, seu braço esquerdo pendendo rente ao corpo, caminhando com dificuldade. Mal entrou na parte traseira do furgão, Peter disparou, seguindo na direção da Capital.</p>
<hr />— O Sr. Laudenzack agradece seus préstimos — o Sr. Empresa à frente deles se comportava de forma indiferente ao desespero do tecnauta. Mesmo após ter entregado o espécime, Peter relutava em contrariar a empresa do Dragão ocidental, temendo não conseguir a cura para o mal de Rad. Afinal, foi em missão dentro duma empresa do próprio Laudenzack — a serviço do tecnauta — que o samurai urbano havia contraído esse vírus. A única forma de conseguir a vacina era fazer essa incursão que acabava agora. Mas a vontade dos dois shadowrunners era estourar aquele engravatado e terminar com isso. Recebendo a ampola com o líquido azulado, imediatamente Rad aplicou-a em seu braço, sentindo-se melhor. Teve o cuidado de guardar uma pequena dose para fazer novas injeções caso fosse preciso. Aquele médico das ruas alemão poderia cuidar disso.<br />
E que o Dragão esperasse vingança.</p>
<p>Continua na <a href="http://d3system.com.br/shadowrun-brasil-parte-ii/">Parte II</a></p>
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