Os Custos de Uma Nau Aventureira

Postado no dia 18 de agosto de 2009 por em Artigos, D&D

Por Rodrigo “Allefcapt” Tolentino
allefcapt@spellrpg.com.br

Muitos mestres e jogadores de RPG já se viram diante de embarcações em suas aventuras.
Geralmente, estas são utilizadas para transportar os heróis através de longas jornadas, unindo terras desconhecidas e apresentando povos exóticos. Em outras ocasiões, permitem o deslocamento de exércitos ou equipamentos de modo mais rápido e direto pelos mapas criativos das campanhas de jogo.
De qualquer modo, torna-se um exercício interessante pensar nos custos de uma embarcação deste porte, em dinheiro, horas de trabalho e árvores abatidas, e nos detalhes necessários à sua fabricação, uma vez que muitos jogadores desejam construir suas próprias fortalezas flutuantes.

O Navio Clássico da Fantasia

nau_1512 O navio clássico, idealizado por muitos jogadores e envolvido nos cenários do RPG, se aproxima das figuras históricas da Nau e da Caravela, importantes embarcações que permitiram a expansão marítima européia iniciada no século XV.
Historicamente, as caravelas e naus constituíam as frotas dos descobrimentos. Cabral por exemplo, partiu de Portugal com nove naus, três caravelas e uma naveta de mantimentos.
O navio modelo para as aventuras de RPG deve ser observado como quase um híbrido entre as caravelas e as naus, o que certamente deixará mestres e jogadores detalhistas satisfeitos.

A embarcação ideal para as campanhas deveria possuir três mastros equipados com velas quadradas e triangulares, medindo entre 30 e 35 metros de comprimento e 6 metros de largura, capaz de transportar 150 toneladas de carga e alcançando uma média de 10 quilometros por hora, aproximadamente 5,8 nós.
A tripulação terá entre 30 e 40 indivíduos, distribuídos em funções definidas, como marinheiros, calafates, carpinteiros, grumetes, todas necessárias a uma boa equipe de bordo.
Para a elaboração deste texto, que pretende apresentar uma pequena introdução a este conhecimento, utilizarei algumas das informações contidas nos livros oficiais de Dungeons & Dragons, sempre uma referência importante para os jogadores de RPG, aliadas a dados reais, que construíram a história das embarcações ao longo dos séculos.
O Livro do Jogador do antigo AD&D Segunda Edição trazia o custo aproximado de uma caravela, que era apresentado como 10.000 moedas de ouro. No Livro do Jogador do D&D3.5, o termo “caravela” não aparece, sendo substituído por “veleiro”, com custo estimado em, também, 10.000 peças de ouro.
A descrição do termo veleiro é nitidamente a que mais se aproxima da descrição de uma caravela, apesar de conter alguns pequenos erros técnicos, facilmente corrigidos e adaptáveis.
Tomando como referência os cruzados portugueses que possuíam 3,5 gramas de ouro por moeda, uma nau do nosso mundo de fantasia custaria o equivalente a 35 quilos de ouro.
De acordo com o Livro do Jogador do D&D 3.5, a moeda de ouro padrão pesa 10 gramas, neste caso uma nau equivaleria a aproximadamente 100 quilos de ouro, mais próximo ao valor histórico real.
É importante ressaltar que estes valores estão restritos aos cenários de fantasia, uma vez que uma nau verdadeira custava cerca de 25 mil réis, o equivalente (na época) a 150 quilos de ouro. Como, depois de construí-la, ainda era preciso equipá-la, e a tripulação ganhava razoavelmente bem, os gastos com uma única nau chegavam a 326,638 quilos de ouro (de acordo com os cálculos obsessivos do historiador naval João da Gama Barata)
caravela_real Neste caso, acredito que se deve adotar o valor apresentado pelo Livro do Jogador do D&D 3.5, assim como o peso apresentado para uma moeda de ouro, o que como já foi ressaltado, deixa os valores mais próximos á realidade. É importante lembrar que este valor se refere a uma embarcação sem armamento algum.
Caso os jogadores e mestres desejem equipar suas naus com canhões e catapultas, comuns a aventuras piratas renascentistas, devem utilizar o valor base de 8.000 moedas de ouro a serem somadas ao valor final da embarcação, referentes a todos os equipamentos necessários a estas adaptações.

Montagem da Embarcação

Para a descrição dos itens necessários à construção de uma embarcação, utilizarei os dados referentes à construção de uma nau portuguesa, clássico navio da época dos descobrimentos.
Cada nau consumia, em média, 5 mil toras de madeira nobre: carvalho, sobro, pinho-manso e pinho-bravo. Cada navio construído significava, portanto, no mínimo a derrubada de cerca de mil árvores.
Além das toras de madeira eram necessários cerca de 170 mil pregos, 20 barris de alcatrão, 1.800 quilos de breu, 1.200 quilos de chumbo, 600 quilos de linho e mil quilos de estopa, feita a partir de velhos cabos de linho, distorcidos e macerados por mulheres pobres, recrutadas na zona portuária.
É importante lembrar que estas construções, se feitas em larga escala, acabam gerando problemas sócio-ambientais aos reinos envolvidos.
Temos como exemplo o que ocorreu em Portugal. Embora cortadas apenas na “lua certa” e sob a proteção de leis (daí a expressão “madeira de lei”), várias espécies foram extintas e, menos de 50 anos depois da viagem de Cabral, a escassez de madeira provocaria seriíssimos problemas à indústria naval lusitana.

caravela2

Além disso, como derrubar milhares de árvores? Para essa tarefa, deverá ser empregado o trabalho de lenhadores, marceneiros e ajudantes. Levando-se em conta que um lenhador, trabalhando o dia inteiro pode derrubar de 5 a 10 árvores de tamanho médio, ou seja, com um tronco menor do que um metro de circunferência, apliquemos o valor por dia de trabalho como base para saber quanto se gasta somente com este serviço.
De acordo com o Livro do Jogador 3.5 um lenhador recebe por dia o equivalente a 1 peça de prata. Assim, um único lenhador, caso fosse possível trabalhar sem descanso algum, levaria quase 1000 dias para derrubar 5000 troncos, o que consumiria 1000 peças de prata. Logo, deve-se calcular estes gastos usando diversos profissionais, muitas vezes aptos a desempenhar uma só função.
O mesmo raciocínio de cálculos de valor deve ser aplicado aos demais profissionais da construção de uma nau: carpinteiros, calafates, marceneiros, mestres de obras, engenheiros e ajudantes.
Uma nau levava quase 5 meses para ficar pronta, isto se nenhum contratempo ocorrer — como greves por melhores salários e condições de trabalho, atraso na obtenção de matéria-prima ou reviravoltas nas condições climáticas.

Caravela

E como este tempo era distribuído? Tomemos como exemplo a expansão ultramarina dos portugueses, que fez surgir uma bem-remunerada elite profissional, a dos mestres-carpinteiros, calafates (responsáveis pela impermeabilização dos navios) e ferreiros. Eles trabalhavam afanosamente nos estaleiros da Ribeira das Naus, no centro de Lisboa, às margens do rio Tejo. No início do século XVI, ali eram construídas cerca de 40 embarcações por ano. Uma operação complexa: cada nau consumia 3.500 horas de trabalho. Por isso, não havia feriado e até os domingos eram desrespeitados.
Apesar de todo o complexo sistema de trabalho e do custo financeiro e pessoal empregado na construção destas embarcações, devemos lembrar que estas não duravam muito. Geralmente, dependendo da viagem, duravam uma única empreitada, especialmente se esta fosse em mar aberto.
A perda não envolvia somente as embarcações, mas também as vidas dos marinheiros. Tomemos como exemplo a frota de Cabral, formada por 10 naus e 3 caravelas, que partiu de Portugal em 8 de março de 1500, retornando em 21 de julho de 1501. Das 13 embarcações que partiram, apenas 5 retornaram, em péssimo estado. Dos 1500 homens que originalmente formavam a tripulação da esquadra, 500 retornaram da viagem.
Fernão de Magalhães não teve sorte diferente. Em 1519, partiu de Sevilha na Espanha com cinco navios e 260 homens. Três anos depois, quando a frota era dada por perdida, apenas um navio retornou, tripulado por 18 homens, sem seu comandante, esquálidos e moribundos.
E isto em um mundo onde dragões, sereias e monstros faziam parte somente da imaginação, bem diferente dos cenários do RPG.

Guerra As viagens marítimas devem ser bem planejadas para que se possa obter o maior lucro possível. Desta forma, todo o tempo e dinheiro empregado precisam se fazer valer. Apesar de todos os problemas e das dificuldades enfrentadas por Cabral, por exemplo, graças às especiarias obtidas na Índia, a expedição deu lucro superior a 200%.
Seja atrás de tesouros perdidos, terras distantes ou monstros lendários, uma tripulação confiável, um bom comandante e uma embarcação segura são tudo que um aventureiro precisa para desbravar os oceanos da fantasia.

14 Comentários

Sr. da Toca

18 de agosto de 2009

Post memorável! Parabéns.

Cristiano Lagame

19 de agosto de 2009

Meu mestre Rodrigo é o melhor! Jogo com ele uma campanha que já dura trocentos anos e se continuar assim até minha filha vai fazer uma ficha… :P

Joepalada

19 de agosto de 2009

Olá, allef! João-aragorn da Spell, lembra-se?
Grande artigo, cara.
Lembrei que te devo um resumo das atividades da RPGCon, certo?
Devo te mandar na semana que vem, andei com uma vida BEM corrida.
Enfim, quem melhor que o Capitaõ Allef pata explicar sobre naus?

Ivan Prado

19 de agosto de 2009

Uau, bem interessante o post!

E se meu mago de 3.X estivesse a fim de criar uma NAU VOADORA? Qual nível você acha que ele deveria estar? Quanto de grana e tempo seria gasto, (e XP também)?
Seria com certeza uma ótima fonte de renda, se ele a tratasse como um “navio turístico voador” com shows e eventos (estilo Roberto Carlos!) para a alta sociedade!

Abraços!

Pablo Urpia

19 de agosto de 2009

Caramba, muito bom!
Outra coisa também que foge um pouco de um mundo medieval comum são as alimentações dos personagens. Poucos mestres consideram a região, a disponibilidade de produtos pro tipo de estalagem e por ai vai.

Cristiano Lagame

19 de agosto de 2009

Ivan Prado… acho que primeiro ele deveria ser um elfo mago de 9º que tenha estudado Alta Magia Élfica por 10 anos, só assim ele terá poder suficiente para dar conta dum navio desses em níveis mais baixos…

Túlio d Bard

19 de agosto de 2009

Isso ajuda bastante! Só acho que nos mundos mágicos do RPG, o tempo necessário para esse tipo de trabalho acaba sendo drasticamente reduzido. Magia rulez!

Danielfo

26 de agosto de 2009

Adora estes posts históricos e com informações matemáticas mais detalhadas.
O interessante é em D&D, geralmente, não se usa pólvora e há canhões na época das caravelas, um detalhe que desconsideramos quando mesclamos estes grandes barcos em campanhas medievais.

Parabéns pelo artigo.

Allef

6 de setembro de 2009

Olá a todos,

Obrigado aos amigos e visitantes que comentaram e me escreveram.

Estarei contribuindo regularmente com o D3.

Abraços a todos,

enderson (lobao)

21 de julho de 2010

aonde acho um mapa com o deswenho do barco pretendo mestrar uma campanha no mar , misturando os mares de forgotten e dragonlance =D
preciso pea miniaturas

renata

12 de agosto de 2011

eu adorei ameii ameeii ameii ai bi

kaique

12 de agosto de 2011

eu gostei do barco

ellen

12 de fevereiro de 2012

chatisse

pinho

27 de julho de 2012

gostei muito da materia. se possivel alguem mandar-me foto do tronco onde se assentavam os canhoes em naus ou caravelas, ficarei agradecido. um abraço.

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