DZSYSTEM: Dentro do caos!
Postado no dia 21 de janeiro de 2009 por D3 em dZsystem

Como disse no relato anterior, eu tinha ligado para algumas pessoas e decidi convencer outras pessoalmente. As descrições a seguir podem dar a entender que tudo aconteceu com tranquilidade e planejamento, mas na verdade as soluções foram surgindo conforme as horas passavam. É engraçado como escrever sobre uma situação tensa não revela adequadamente as emoções e os temores que acompanham o processo. Mas vamos aos acontecimentos.
4º Dia – Madrugada de 08/01/2009
Assim que o Johnny entrou no Metrô na direção sul, eu peguei um táxi para encontrar meus últimos afilhados de casamento. Um deles é policial, então foi mais fácil convencê-lo a sair da cidade por precaução. Na manhã seguinte, ele me deixou uma pistola prateada (não sei o calibre) e um pente de balas, números de telefone e um rádio capaz de operar em ondas curtas. Logo depois, pegou o carro e foi buscar a mãe e o irmão em Santo André. Não tive mais notícias deles. Espero que estejam bem no interior, mas é difícil acreditar nisso, pois recebi um arquivo de texto de um tal Giuliano, de Bauru, avisando que o interior tem áreas seguras, mas ainda assim já vem sofrendo com a infecção.
5º Dia – 09/01/2009
Trânsito e Cansaço
Quase às 09:00 da manhã, consegui apanhar um ônibus em direção à minha casa. Conforme o veículo avançava, os pontos pareciam cada vez mais cheios. Alguns passageiros citavam uma greve do Metrô, outros falavam de um grande acidente na Rodovia Anhanguera. Antes de entrar na Avenida dos Bandeirantes, era possível perceber que a cidade estava um caos.
Abençoados sejam os ignorantes, que não sabiam o que lhes esperava. Desci do ônibus e caminhei até a Ricardo Jafet. Os carros das ruas e vias de acesso percorriam o asfalto mais lentamente do que eu caminhava. O congestionamento era bizarro. Às 11:00, cheguei em casa. Cansado como estava, desmaiei de sono. Se o arrependimento pudesse matar…
Acordei por volta das 21:00, com várias chamadas não atendidas no celular e diversas mensagens de texto. Quase todas eram das pessoas que eu tinha contatado na quinta-feira, mas duas eram especialmente importantes:
D3, a desgraça é muito pior do que vc pensa. Manda um ponto de encontro. Vou te pegar pra gente sair de SP. Jacu
Porta, tô preso em Mairiporã. A estrada tá lacrada. Acha minha mina, avisa minha mãe. Tá cheio de zumbi aqui! É sério! Vaza daí. Cobbi
Muito bem, eu podia dar uma de herói e dizer que eu me preparei e reagi prontamente ao perigo. Mas seria mentira. Fiquei muito tempo no chuveiro, tentando me convencer que eu tinha bebido demais e estava alucinando. As buzinas e o barulho do trânsito na avenida não me deixavam em paz. Quando sentei no computador e comecei a ler as notícias nos sites dos jornais de Sampa, fiquei abalado. Mentira de novo. Fiquei com medo!
Lembrei que o Johnny tinha me avisado que voltaria para minha casa com a namorada dele. Abri meu celular e contei as mensagens das pessoas que diziam a mesma coisa. E fiquei pensando “Porque aqui? Porque as pessoas acham que eu tenho algum plano?“.
Então, analisando os relatos dos tumultos no Rio de Janeiro, percebi que a infecção tinha se espalhado muito rapidamente em outros locais. Segundo um relato de um amigo, a Cidade Maravilhosa estava praticamente perdida.
É possível que a praga tenha demorado mais para aniquilar São Paulo, por diversos motivos: a cidade é grande pra caralho; a central da ROTA fica na Zona Norte, mais próxima da fronteira com Guarulhos; tem muita gente para ser infectada; as pessoas ficaram diversas horas presas no trânsito, sem contato com os focos de infecção; os paulistanos são naturalmente paranóicos e desconfiados.
Não sei o motivo, mas posso afirmar que até o começo da madrugada de 09/01 para 10/01, nem sequer metade da cidade tinha sido afetada. Pelo menos, não a metade onde eu estava.
Caos, Resistência e Saques
Isso não impediu que o caos se alastrasse. Quando os carros abandonados nas laterais e calçadas das Avenidas Jafet, Dom Pedro e do Estado pararam de ecoar suas buzinas estridentes, outros sons começaram a tomar as ruas. Da janela, eu assisti a dezenas de pessoas descerem dos vários hospitais do Ipiranga, correndo desordenadamente.
Não muito depois, ouvi os vidros dos dois mercados 24 horas que ficam bem próximos sendo estilhaçados. Muitos gritos de raiva, disparos, sons de brigas, palavras de ordem e barulhos de rodas de plástico sendo arrastadas no asfalto. Homens e mulheres com carrinhos lotados de mantimentos passavam apressados nos arredores. Isso durou umas duas horas, mas parou da mesma forma que começou: repentinamente.
Era o suficiente para mim. Tinha passado as últimas horas enviando e-mails para meus amigos; deixando mensagens em caixas postais; implorando para que os sortudos que me atendiam saíssem da cidade. Estava na hora de cuidar de mim. Esperei amanhecer.
6º Dia – 10/01/2009
Refúgio e Sorte
Não me lembro do horário, mas assim que o sol estava firme, decidi sair. O bairro não tinha mais energia. Copiei todas as minhas informações na HD portátil que ganhei do Tanaka (abençoados sejam os Terabytes e a USB!). Tomei um banho frio, apanhei meu carrinho de compras e me preparei.
Ruas silenciosas. Lixo espalhado. Mantimentos largados no chão. Muitos carros parados nas calçadas e ruas laterais. Nenhuma pessoa nas proximidades. Irreal. Eu moro num dos bairros mais populosos da capital. Inacreditável.
Observando a Mário Vicente, a rua que conecta a avenida em frente de casa ao Parque da Independência (e a área dos hospitais), consegui distinguir uma barreira de veículos — pelo menos um caminhão de bombeiros, muitas viaturas e algumas ambulâncias. Havia vultos se movendo, outros parados com armas apoiadas sobre os automóveis. Minha intuição me dizia para não me juntar a eles. Sempre me fodo quando ignoro esses avisos. Dessa vez a ouvi e segui com meu plano.
Caminhei três quadras e entrei no estacionamento do hiper-mercado. Na parte norte, ele tem uma daquelas lojas verdes, com nome meio francês, que vendem coisas para a casa. A entrada principal estava arrebentada, assim como parte dos vidros. Havia luz no prédio, talvez de algum gerador, mas nunca descobri. A rampa externa, que conduz ao espaço de carga e descarga, tem um pequeno elevador, pois o depósito de materiais pesados (tintas, material de construção, pisos) fica no teto do prédio.
Acionei o elevador, cheguei ao depósito e… levei quase 20 minutos pra arrombar a porra da porta! E achei que um simples pontapé ia colocar a desgraçada abaixo. Saco!
Desci, entrei na loja, peguei lanternas e pilhas (ou pilhas de lanternas), pacotes de fósforos, colchas e cobertores, um abridor de latas, dois cadeados, uma corrente e uma furadeira.
Depois, me arrisquei e entrei no hiper-mercado. Ainda havia muitos enlatados, grande parte dos frios e congelados, e quase todos os alimentos que exigem um fogão e um mínimo de paciência. Na minha segunda viagem, avistei de longe um grupo de umas seis pessoas. Elas me evitaram, e eu não me aproximei. Na saída, peguei umas garrafas de uísque e vodca, que ninguém é de ferro.
Abri um buraco em cada lado da porta arrombada, grande o bastante para a corrente. Como sou um exímio operador de ferramentas, levei praticamente o resto do dia para terminar. Foi quando começaram os gemidos.
Do teto do prédio, eu via os cadáveres mortos dos defuntos falecidos andando a esmo. A barricada do hospital estava em chamas. Entrei, acorrentei a porta, coloquei estantes para barrá-la e desliguei as luzes. Devia ter pego um notebook. Imbecil!
Então o telefone apitou, avisando que eu tinha uma mensagem de voz:
Ouça ou clique aqui com o botão direito para salvar o arquivo
Essa é uma obra de ficção. É um desafio que começou em outros blogs de RPG do Brasil, citados nesse artigo, e continuará a ser atualizado nos artigos “mortos-vivos” do D3System. Você identificará as atualizações pelo logo zumbi do blog.



































5 Comentários
Djeison
22 de janeiro de 2009
Muito legal, mas onde eu pego o começo dessa história toda de apocalipse z?
Phil Souza
22 de janeiro de 2009
Estou preso dentro de uma base militar, minha familia está presa do outro lado do Rio de Janeiro, desespero total….
Léo-kun
22 de janeiro de 2009
Caraca, cada dia melhor… AihAUIhAUIhA
Jaime Daniel
23 de janeiro de 2009
D3 não esqueça dos amigos!!!!
Vive la resistance!!!!
Tsu
25 de janeiro de 2009
Pow, vcs estão levando o “professor” para o abrigo? Ele dá muita dor de cabeça no dia seguinte. Espero que seja só para desinfetar as feridas ou pra montar cocktail molotov.
Deixe seu Comentário