Guia d3system: Injetando Vida nos Zumbis
Postado no dia 10 de agosto de 2009 por Fabio Sooner em Artigos, Colunas, Guia d3system, Mundo das Trevas
Quem me conhece do finado blog WoDBrasil Scoop, pra não dizer de outras paragens, sabe que eu tenho um zumbilhão de ressalvas quanto ao uso de zumbis no Mundo das Trevas. Espera, volta a fita: o problema não é com os zumbis em si, e sim com a falta de idéias (braaaains!) para revigorar o gênero.Sim, eu sei, mesa de RPG não precisa ser válvula de escape de escritor ou roteirista frustrado; além do mais, isolar os personagens dos jogadores em meio a uma massa de criaturas em decomposição casa bem com a sensação de desesperança inerente ao Mundo das Trevas.
Entretanto, entre os extremos existem muitas possibilidades. Para não dizerem que eu só fico na crítica e não ofereço alternativas, resolvi desencavar algumas anotações e idéias que tive (ou surrupiei, sem pudor) ao discutir em fóruns ou em blogs a previsibilidade da crônica de “apocalipse zumbi”.
“Braaaaaaaaaaaains!”
O ponto de partida para se injetar vida nos zumbis (hein?) é simples: pare de olhar para as criaturas enquanto monstros, e perceba o que elas representam.
Pessoas melhores do que eu já escreveram teses para explicar a fascinação do público com mortos vivos rastejantes formando uma grande massa amorfa, mas em geral, alguns fatores são (quase) sempre mencionados.
Em resumo:
- Zumbis representam o medo de encarar multidões. O ser humano é uma criatura social, e convivência em sociedade gera tensões. Nos filmes de zumbis, o nosso medo de se relacionar está refletido na idéia de ter que encarar massas intermináveis de mortos-vivos.
- Zumbis representam a perda da individualidade. Outro medo comum é de que todo mundo se torne escravo de qualquer padrão uniforme de convivência social que você imaginar: comunismo, reacionarismo, consumismo desenfreado…
- Zumbis representam o abandono da civilização. Ou melhor, o gênero “apocalipse zumbi” representa. Toda história sobre o fim do mundo tem esta conotação, claro, mas ao usar zumbis, este medo deixa de ser algo com causa externa e se torna o medo de que nós mesmos levemos a civilização ao fim.
E isso só para começar: se você pesquisar em um bom ponto de partida, vai encontrar muitos outros paralelos.
O truque para revigorar o gênero é tecer metáforas semelhantes. Os três temas acima são bastante abrangentes; com isso, é relativamente fácil pegar um “nicho” dentro de um deles e extrapolar para uma trama com zumbis. Difícil evitar cair na caricatura, mas com um pouco de bom senso você chega lá.
Mas chega de elucubração e vamos às idéias! Em geral, não vou me dar ao trabalho aqui de criar fichas, poderes, estatísticas ou mesmo roteiros semi-prontos. Além da falta de espaço, números são a parte fácil – principalmente se você tiver em mãos o livro Antagonistas, que tem um capítulo inteiro dedicado a sistemas para todo tipo de mortos-vivos, dos zumbis “clássicos” a fantasmas que possuíram seus corpos novamente.
Caso não tenha o livro, você vai precisar montar seus próprios zumbis em termos de jogo. Neste caso, não se esqueça da verdadeira regra de ouro de uma boa crônica do Mundo das Trevas: as criaturas servem o propósito da história, e não o contrário. Parece óbvio, mas muitas vezes começamos pela ficha da criatura para depois tentar criar uma história/propósito em torno dela, o que é muito mais difícil – mas isso é assunto para outra postagem. Por enquanto, vamos às idéias que vão gerar as histórias e criaturas!
Caso 1: Um Confinamento Diferente
Em geral, somente mudar o cenário de um apocalipse zumbi não resolve o problema da previsibilidade – mas se você tiver um propósito, a mudança pode gerar uma cadeia de idéias. Pense, por exemplo, em 30 Dias de Noite (sim, é um quadrinho/filme de vampiros, mas continue lendo) ou na clássica cena de Despertar dos Mortos (o original, de 1978) em que centenas de zumbis gemem através de uma vitrine de shopping. Em ambos os casos, a mudança de cenário tem propósito: no primeiro, o isolamento tem um componente extra de terror – o sol não nasce – e, no segundo, uma metáfora simples e poderosa: fugir das massas que consomem e pensam da mesma maneira.
Uma idéia bastante diferente de mudança de cenário foi lançada pela série da BBC Dead Set: e se os confinados fossem nada mais, nada menos, do que os participantes do Big Brother? Sim, aquele reality show! Agora, pensem nos milhares de pessoas que assistem ao Big Brother, grudadas na TV, “espiando” por horas a vida de outrem em busca de algum momento “revelador”… Acho que o paralelo está evidente, não?
O perigo, aqui, é transformar a sua crônica em terrir; mesmo assim, se esta for a sua, surrupiar esta idéia é um bom ponto de partida para bom humor – aquele que sublinha algo de ridículo na sociedade.
Caso 2: Mortos-Vivos da Vida Real
E já que estamos falando de comparar zumbis com pessoas “mortificadas” pela rotina, porque não ir mais além? E se esses nossos zumbis fossem pessoas aparentemente normais, mas que no fundo estão (literalmente) mortas e parasitam ou se alimentam (literalmente ou não) dos indivíduos à sua volta?
Os puristas reclamam dos zumbis “corredores” de filmes mais recentes – como Eu Sou a Lenda e Extermínio – mas o fato é que depois de ver milhares de zumbis se arrastando em dezenas de filmes, ficou mais difícil usar a própria imagem clássica dos zumbis como ponto de partida para alguma coisa diferente.
Ao criar zumbis usando o paralelo “zumbis da vida real”, precisaríamos enfatizar – ou usar com mais sutileza que o usual – outras formas de reconhecer um zumbi “clássico”, como canibalismo, certo desleixo com a higiene, dificuldade de raciocínio lógico e transmissão de doenças, por exemplo.
Talvez um funcionário público não tenha capacidade intelectual suficiente para fazer nada além da rotina de seu cargo… E depois apanhe prostitutas na rua para levar para casa e comê-las (agora, literalmente!). Ou uma tia solteirona se entupa de maquiagem branca em pleno verão e vá “caçar” pretendentes na noite, usando roupas apertadas e surradas, inconscientemente tentando passar adiante via sexo uma doença sobrenatural que corrói o cérebro e aos poucos deixa apenas os instintos animais intactos.
O ponto de uma crônica de “zumbis da vida real” é demonstrar o quanto se entregar à rotina, ao previsível, ao confortável e ao banal pode roubar vigor de uma pessoa. A dificuldade nesse caso é não acabar atribuindo a capacidade humana de se acomodar a uma influência geral externa, “roubando” assim a força da trama.
Nesse sentido, mesmo que você use influência espiritual como origem para estes “zumbis”, ou algo como A Fome (mais uma vez, descrita em Antagonistas), certifique-se de que as vítimas sejam especialmente apropriadas para qualquer que seja a influência externa que você inventar. Por exemplo, use pessoas que sempre foram gulosas como vítimas d’A Fome, ou alguém que sempre se conformou com as expectativas da família como alvo de possessão.
Caso 3: As Verdadeiras Pestes
Indo para o lado da convivência social, tente imaginar que outros tipos de relações podem servir de base para uma história diferente com zumbis. Nos casos anteriores, relações de trabalho e sexo/amor serviram de inspiração… O que nos deixa com as relações mais básicas de todas: as familiares. Entre elas, uma chama a atenção: a relação entre pais e filhos.
A depender do interlocutor, crianças podem ser anjos ou pestes, malvadas ou inocentes, puras ou maculadas – e tudo isso serve como combustível para uma história com crianças-zumbis, seja pelo horror da perversão da inocência infantil, seja pela exacerbação da falta de centro moral estabelecido em uma criança muito nova.
Esse assunto vai mexer com qualquer um que jogar a sua crônica, desde que você tome cuidado, mais uma vez, para não tornar a coisa toda caricata.

Para deixar tudo ainda mais acachapante e os seus jogadores sem ação, você pode aproveitar para bagunçar o modus operandi usual dos zumbis: e se as crianças-zumbis só comessem cérebros adultos?
Imagine crianças-zumbis tentando cooptar outras crianças para a “caça aos adultos” usando alguma outra forma de infecção que não o canibalismo! Além de aumentar para o volume 11 o horror dos adultos frente à criatividade infantil (ou à rebeldia dos adolescentes, se você quiser usá-los), você introduz já de cara um mistério a ser resolvido. E, como cereja no bolo, você pode usar a idéia em uma crônica de WoD: Innocents (essa idéia nasceu como crônica de Innocents, na verdade).
E a noite termina
Essas são apenas algumas poucas idéias soltas, conceitos para pôr o cérebro (hmmmm… *fome*) para funcionar. É claro que nem todo mundo vai querer partir do tipo de raciocínio usado nelas, mas espero que pelo menos estes casos sirvam de exemplo de como surpreender com uma das criaturas mais manjadas de filmes de terror.
Se você tem alguma idéia do gênero, deixe um comentário! Quem sabe, se houver interesse o suficiente, eu não possa desenvolver alguma – ou todas – estas idéias na forma de um esqueleto de crônica em uma postagem anterior. Não prometo nada, mas em algum ponto é provável que o faça de qualquer maneira, então não custa nada compartilhar aqui. Fique ligado! (… ou esperto, que lá vem a horda?)




































9 Comentários
Túlio d Bard
10 de agosto de 2009
Sem contar quando você se dá conta que aquelas criaturas que estão te atacando um dia já foram seus conhecidos, pessoas que você tanto estimou e amou.
Muito bom o artigo. ^^
Paladino San
11 de agosto de 2009
Primeiro parabéns pelo artigo.
Segundo, a todos recomendo a leitura de “Ensaio sobre a Cegueira” de José Saramago que pode ser tomado como uma “releitura” do mundo zumbi, afinal todos são cegos, incapazes de lidar com si próprios e completamente voltados para os instintos mais básicos. Nesse ponto seria interessante a criação de uma “doença-zumbi” e de que pessoas com alguma deficiência mental – desde psicológica até intelectual – fossem os não infectados, criando assim a trama: como um grupo de pessoas desajustadas poderia sobreviver ao caos? por que eles não são infectados?
O estilo de paranóia que sempre vem junto com os zumbis me remete aos filmes “O Cubo” onde o perigo ronda de qualquer lugar e ninguém é o que aparenta.
Outro livro interessante sobre mundos apocalípticos e vidas destruídas é “Admirável Mundo Novo”.
Ficam aqui as dicas.
Álvaro Guedes
11 de agosto de 2009
Bom artigo Sooner, como sempre.
E que tal uma perspectiva religiosa do “apocalípse zombie”? Um culto que vê os “mortos-que-andam” como as crias de uma entidade acestral (Tiamat ou Dagon) que deseja ascender novamente ao panteão dos deuses cósmicos e, para isso, absorve a energia necrótica do festim de alimentação dos zumbis.
Joepalada
11 de agosto de 2009
Unn, a minah tese sobre filmes/games/RPGs de zumbi sempre explorou um lado um tanto sádico da coisa. Percebam, tudo que foi dito é bastante relevante, ams já pararam para pensar noq auntos satisfaria nossos instintos de violênia, ter massas acéfalas que DEVEM ser destruídas avançando em nossa direção? Exlica em parte a graça de jogos como RE.
Em tempo:
1-Ótimo artigo, meus parabéns
2-Vale a pena ler o livro Eu Sou a LEnda, as diferenças são bem grandes em relação ao filme , e eu acho que o horror psicológico de estar sozinho num mundo de mortos é muitíssimo bem trablahdo, extremamente apavorante.
Abraço
Arquimago
11 de agosto de 2009
Muito bom! O primeiro tema não me pareceu novo, acho que já li em outro lugar talvez de sua autoria mesmo…
O Segundo me pareceu muito bom.
Mas o terceiro! Fodastico!!!
A sugestão do Álvaro Guedes me pareceu interessante também, e serve também para fantasia, mas em clima moderno poderia também envolver a descrença com o misticismo.
Flavio spider_neo
11 de agosto de 2009
Sensacional, Sooner!
O Paladino San tb fez bem em lembrar Ensaio sobre a Cegueira. Achei interessante (embroa um pouco freak d+) os zumbis do livro Celular, do Stephen King. ………. Depois do caos e frenesi iniciais (quando ocorre a transformação massiva), os zumbis começam a adotar comportamento coletivo semelhante a bandos de pássaros. Até aí, normal. Depois de um tempo, os bandos desenvolvem uma mente una e inteligente, com direito a poderes mentais e tudo, mas sempre guiados pelo propósito de se espalhar. A infecção é, na verdade, algo mental. ……………..
Outra coisa que rola em “apocalipses zumbis” é a formação de gangues de pessoas comuns, mesmo. Sempre tem aquele grupo mal-encarado, paranóico ou simplesmente oportunista, defendendo um território ou lutando para tomar o (pouco) que é dos outros.
R.G.Caetano
11 de agosto de 2009
Parabéns e congratulações pelo artigo, Sooner.
Acho interessante essa nova reformulação do gênero, onde mostra zumbis ”corredores” (Principalmente os mostrados nos filmes Madrugada dos Mortos (Refilmagem) e Extermínio1/2).
O grau de dificuldade em relação à sobrevivência aumenta nesses cenários, o que proporciona um aumento de organização, cooperação e planejamento entre os jogadores.
R.G Caetano
11 de agosto de 2009
Outra perpectiva diferenciada é a de zumbis provenientes de doenças ou criaturas alienígenas, usando-se da velha e boa Ficção Científica.
Poderia-se usar alguns elementos da mitologia lovecraftiana para explicar esses conceitos também.
leandropug
14 de agosto de 2009
Melhor matéria do mundo!
ADORO ZUMBIS!!!!!
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