Oferecendo a outra face

Postado no dia 28 de novembro de 2007 por Cobbi em Artigos

Ao que te ferir numa face, oferece-lhe também a outra;
e ao que te houver tirado a capa, nem a túnica recuses;

— Lucas 6:29

Essa semana o Brasil atingiu a marca de cinco alegações que tentam limpar a barra dos seus respectivos réus justificando patologias psiquiátricas ou violência gratuita e criminosa através do nosso passatempo preferido, o RPG.

Se você não sabe do que estou falando, peço que vá até o site da Daemon e leia a carta aberta à mídia (ou o cache dela no Google) que descreve os três primeiros (e mais famosos) acontecimentos desse tipo, desde o caso de Teresópolis, sete anos atrás. Esse texto é de uso público e contém dados sobre as conclusões desses casos. O problema é que ele é meio tendencioso pro lado do RPG e as justificativas utilizadas geraram muitas controvérsias, mas se você souber filtrar a coisa e tirar suas próprias conclusões, ambos os links (o da carta e esse das controvérsias) servem bem para tomar conhecimento de causa e saber o que responder quando família, amigos, colegas e professores de escola e faculdade perguntam “o que raios foi aquele crime relacionado com esse jogo de doidos?”.

O quarto caso aconteceu no começo do mês com o circense “Vampiro de Presidente Prudente”. Se você não ouviu falar dele, esteve em outro planeta. Só o site de notícias Último Segundo recebeu mais de 3.000 registros relacionados com isso. Faça uma busca pelas palavras “vampiro presidente prudente” e entenda o que eu vou dizer a seguir.

Se você não sabe do que eu estou falando de novo, ignore. Basta saber que foi mais uma tentativa infrutífera de jogar a culpa por crimes ou acusações de pessoas suspeitas sobre o RPG. Só citei isso pois vai servir para embasar a reflexão principal que quero provocar com esse artigo.

O último caso aconteceu terça-feira passada (pois é… Ontem…). Tem até um vídeo com a reportagem rolando pela internet que explica como o suspeito (desconfiado de estar sendo traído), tentou matar a namorada dele com seis tiros. Felizmente o cara era um tremendo de um azarado e todos os disparos do .32 falharam. Logo que foi enquadrado pela polícia, o réu tentou justificar dizendo que era uma “tarefa do jogo de RPG que ele freqüentava”. Nem no jargão do jogo o cara acertou.

Não estou divulgando o link para o vídeo no corpo do texto pois quero que você leia esse artigo até o final antes de decidir se quer ou não clicar nele e aumentar a audiência/visitação que esse tipo de notícia sensacionalista pretende obter às nossas custas.

Sim, eles querem exatamente isso.

Vamos pensar: porque será que as apurações mais barulhentas sobre os crimes só acontecem em Minas Gerais? Será que é justamente porque esse é o estado responsável pela portaria que censurou o RPG? Portaria essa que veio do mesmo lugar que aquela que proibiu Carmagedom e Doom além de, é claro, censurar os nossos livros (não engulo que Forgotten foi classificado como inadequado para menores de 18 anos e Ravenloft era 16; os caras não leram, não é possível!). E no Espírito Santo? Será que, por acaso, é onde grande parte dos políticos e religiosos apóiam essa decisão?

Agora pensem: aconteceram logo dois casos relacionados ao RPG justamente no mês de lançamento do Vampiro: O Réquiem. Justamente no mês em que diversos de blogs e sites (incluindo o governo estadual de São Paulo, através do site da Fundação Pró-Sangue, e o UOL através do portal OhaYO!) estão apoiando uma campanha de doação de sangue promovida pelo público do RPG através da internet. Justamente quando temos eventos acontecendo às pilhas pra todo lado (São Paulo, Rio de Janeiro, Araraquara, Viçosa, Brasília).

Coincidência? Paranóia? Teoria da conspiração?

Em todo caso, sabe porque eles pegam no nosso pé? Porque a comunidade reage fazendo barulho. Envia centenas de e-mails pra televisão e rádio, se revolta (e divulga no caminho), procura tomar conhecimento e demonstrar repúdio (e gera acessos e visitação)! Se a gente não desse bola, eles desistiam. Você vêem eles reclamando da pornografia? E dos prostíbulos?

Pois é… Muitos de nós RPGistas, assim como eu, já arrumaram encrenca quando éramos mais jovens por termos sido apelidados ou humilhados pelos brutamentes da escola. O conselho dos mais velhos era sempre o mesmo: “não dê trela, seja você mesmo e pronto”. Dito e feito. Muitos usaram isso pra aprender e se tornaram especialistas em lidar com gente aproveitadora, outros nunca aprendem e continuam só abrindo o berreiro sem fazer nada á respeito. Amo cada vez mais a minha avó por conta desse tipo de pérola de sabedoria que eu carrego comigo e me serve até hoje.

Assistindo à reportagem, fica bem claro que o tal “matador” nem sabe o que é RPG (“tarefas” ou “missões” de RPG? “frequentar” o jogo? Quem é que fala assim? Na minha mesa, nós participamos de aventuras e de sessões de jogo). Tudo muito parecido com o caso de Guarapari — quando perguntaram ao acusado qual era a do jogo e como a coisa funcionava, ele simplesmente não soube responder. Seria engraçado se não fosse patético, mas os brutamontes e sua patota não fizeram muita questão de desculparem publicamente nem de divulgarem essa parte da história.

Felizmente, grande parte do nosso público é composta por livres pensadores que já perceberam o quanto a mídia é manipulada hoje em dia. São poucas as pessoas afim de fazer jornalismo de verdade e o d3system defende outro tipo de reação: fale menos e faça mais. Sem fazer muito barulho, sem rebeldia e sem estardalhaço pois é isso que eles querem. Tome uma atitude!

Quando nos rebelamos fica meio aquele lance deles olharem pro nosso “panelaço” e falarem pro povo “viram como esse bando de satanistas assassinos enrustidos se dóem quando a gente desmascara eles!” e bater de frente passa a confirmar cada vez mais as acusações deles. Tudo bem que somos grandes na internet, mas os caras têm TV, rádio e a política nas mãos. É mídia de massa. Os caras têm PVs demais pra usar Trespassar. A CA é alta demais pra usar Ataque Poderoso. É preciso mudar a estratégia.

É óbvio que temos que reagir, mas não é falando e sim fazendo. Sem rebeldia barulhenta. Tome iniciativas que contrariem essa visão sensacionalista, como apoiar a nossa campanha de doação de sangue, por exemplo, ou a decisão de algumas editoras brasileiras de RPG (como pessoas jurídicas, por favor: nada de chamarem seus advogados pessoais) de se moverem judicialmente com pleno conhecimento de causa e argumentos eficazes contra esse tipo de sensacionalismo barato.

Eu sei que dói tomar a pancada. Na hora que lemos coisas como essa, o sangue sobe. Entretanto, como todo mundo viu na batalha de Termópilas, lutar contra um exército muito grande e barulhento contando apenas com um modesto batalhão exige uma estratégia elaborada e um contingente bem preparado. Não é de hoje que o nosso saudoso avatar do Arcanjo São Miguel (que no D&D teria Sabedoria 50, no mínimo) nos ensinou que a melhor resposta para um ataque direto e público é oferecer a outra face e mostrar serviço em prol da comunidade.

Se mesmo depois de ler tudo isso, você ainda quiser dar ouvidos pra eles…

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