Oferecendo a outra face
Ao que te ferir numa face, oferece-lhe também a outra;
e ao que te houver tirado a capa, nem a túnica recuses;
— Lucas 6:29
Essa semana o Brasil atingiu a marca de cinco alegações que tentam limpar a barra dos seus respectivos réus justificando patologias psiquiátricas ou violência gratuita e criminosa através do nosso passatempo preferido, o RPG.
Se você não sabe do que estou falando, peço que vá até o site da Daemon e leia a carta aberta à mÃdia que descreve os três primeiros (e mais famosos) acontecimentos desse tipo, desde o caso de Teresópolis, sete anos atrás. Esse texto é de uso público e contém dados sobre as conclusões desses casos. O problema é que ele é meio tendencioso pro lado do RPG e as justificativas utilizadas geraram muitas controvérsias, mas se você souber filtrar a coisa e tirar suas próprias conclusões, ambos os links (o da carta e esse das controvérsias) servem bem para tomar conhecimento de causa e saber o que responder quando famÃlia, amigos, colegas e professores de escola e faculdade perguntam “o que raios foi aquele crime relacionado com esse jogo de doidos?”.
O quarto caso aconteceu no começo do mês com o circense “Vampiro de Presidente Prudente”. Se você não ouviu falar dele, esteve em outro planeta. Só o site de notÃcias Último Segundo recebeu mais de 3.000 registros relacionados com isso. Faça uma busca pelas palavras “vampiro presidente prudente” e entenda o que eu vou dizer a seguir.
Se você não sabe do que eu estou falando de novo, ignore. Basta saber que foi mais uma tentativa infrutÃfera de jogar a culpa por crimes ou acusações de pessoas suspeitas sobre o RPG. Só citei isso pois vai servir para embasar a reflexão principal que quero provocar com esse artigo.
O último caso aconteceu terça-feira passada (pois é… Ontem…). Tem até um vÃdeo com a reportagem rolando pela internet que explica como o suspeito (desconfiado de estar sendo traÃdo), tentou matar a namorada dele com seis tiros. Felizmente o cara era um tremendo de um azarado e todos os disparos do .32 falharam. Logo que foi enquadrado pela polÃcia, o réu tentou justificar dizendo que era uma “tarefa do jogo de RPG que ele freqüentava”. Nem no jargão do jogo o cara acertou.
Não estou divulgando o link para o vÃdeo no corpo do texto pois quero que você leia esse artigo até o final antes de decidir se quer ou não clicar nele e aumentar a audiência/visitação que esse tipo de notÃcia sensacionalista pretende obter à s nossas custas.
Sim, eles querem exatamente isso.
Vamos pensar: porque será que as apurações mais barulhentas sobre os crimes só acontecem em Minas Gerais? Será que é justamente porque esse é o estado responsável pela portaria que censurou o RPG? Portaria essa que veio do mesmo lugar que aquela que proibiu Carmagedom e Doom além de, é claro, censurar os nossos livros (não engulo que Forgotten foi classificado como inadequado para menores de 18 anos e Ravenloft era 16; os caras não leram, não é possÃvel!). E no EspÃrito Santo? Será que, por acaso, é onde grande parte dos polÃticos e religiosos apóiam essa decisão?
Agora pensem: aconteceram logo dois casos relacionados ao RPG justamente no mês de lançamento do Vampiro: O Réquiem. Justamente no mês em que diversos de blogs e sites (incluindo o governo estadual de São Paulo, através do site da Fundação Pró-Sangue, e o UOL através do portal OhaYO!) estão apoiando uma campanha de doação de sangue promovida pelo público do RPG através da internet. Justamente quando temos eventos acontecendo à s pilhas pra todo lado (São Paulo, Rio de Janeiro, Araraquara, Viçosa, BrasÃlia).
Coincidência? Paranóia? Teoria da conspiração?
Em todo caso, sabe porque eles pegam no nosso pé? Porque a comunidade reage fazendo barulho. Envia centenas de e-mails pra televisão e rádio, se revolta (e divulga no caminho), procura tomar conhecimento e demonstrar repúdio (e gera acessos e visitação)! Se a gente não desse bola, eles desistiam. Você vêem eles reclamando da pornografia? E dos prostÃbulos?
Pois é… Muitos de nós RPGistas, assim como eu, já arrumaram encrenca quando éramos mais jovens por termos sido apelidados ou humilhados pelos brutamentes da escola. O conselho dos mais velhos era sempre o mesmo: “não dê trela, seja você mesmo e pronto”. Dito e feito. Muitos usaram isso pra aprender e se tornaram especialistas em lidar com gente aproveitadora, outros nunca aprendem e continuam só abrindo o berreiro sem fazer nada á respeito. Amo cada vez mais a minha avó por conta desse tipo de pérola de sabedoria que eu carrego comigo e me serve até hoje.
Assistindo à reportagem, fica bem claro que o tal “matador” nem sabe o que é RPG (”tarefas” ou “missões” de RPG? “frequentar” o jogo? Quem é que fala assim? Na minha mesa, nós participamos de aventuras e de sessões de jogo). Tudo muito parecido com o caso de Guarapari — quando perguntaram ao acusado qual era a do jogo e como a coisa funcionava, ele simplesmente não soube responder. Seria engraçado se não fosse patético, mas os brutamontes e sua patota não fizeram muita questão de desculparem publicamente nem de divulgarem essa parte da história.
Felizmente, grande parte do nosso público é composta por livres pensadores que já perceberam o quanto a mÃdia é manipulada hoje em dia. São poucas as pessoas afim de fazer jornalismo de verdade e o d3system defende outro tipo de reação: fale menos e faça mais. Sem fazer muito barulho, sem rebeldia e sem estardalhaço pois é isso que eles querem. Tome uma atitude!
Quando nos rebelamos fica meio aquele lance deles olharem pro nosso “panelaço” e falarem pro povo “viram como esse bando de satanistas assassinos enrustidos se dóem quando a gente desmascara eles!” e bater de frente passa a confirmar cada vez mais as acusações deles. Tudo bem que somos grandes na internet, mas os caras têm TV, rádio e a polÃtica nas mãos. É mÃdia de massa. Os caras têm PVs demais pra usar Trespassar. A CA é alta demais pra usar Ataque Poderoso. É preciso mudar a estratégia.
É óbvio que temos que reagir, mas não é falando e sim fazendo. Sem rebeldia barulhenta. Tome iniciativas que contrariem essa visão sensacionalista, como apoiar a nossa campanha de doação de sangue, por exemplo, ou a decisão de algumas editoras brasileiras de RPG (como pessoas jurÃdicas, por favor: nada de chamarem seus advogados pessoais) de se moverem judicialmente com pleno conhecimento de causa e argumentos eficazes contra esse tipo de sensacionalismo barato.
Eu sei que dói tomar a pancada. Na hora que lemos coisas como essa, o sangue sobe. Entretanto, como todo mundo viu na batalha de Termópilas, lutar contra um exército muito grande e barulhento contando apenas com um modesto batalhão exige uma estratégia elaborada e um contingente bem preparado. Não é de hoje que o nosso saudoso avatar do Arcanjo São Miguel (que no D&D teria Sabedoria 50, no mÃnimo) nos ensinou que a melhor resposta para um ataque direto e público é oferecer a outra face e mostrar serviço em prol da comunidade.
Se mesmo depois de ler tudo isso, você ainda quiser dar ouvidos pra eles…
