Recomendação Saladínica: Arrasta-me para o Inferno

Postado no dia 22 de agosto de 2009 por Rogério Saladino em Artigos, Colunas

Terror de novo… desta vez um lançamento, filme bacana e meio que badalado, que pode ser facilmente encontrado nos cinemas, inclusive aqueles do shopping, do lado da praça de alimentação: Arrasta-me para o Inferno (Drag me to Hell).

Mas o que esse filme tem de tão especial assim?

Bom, antes de responder isso, vou ter que voltar um pouco no tempo e contar uma historinha sobre videocassetes, filmes, videolocadoras, violência e sangue.

Videocassetes, locadoras e apenas três filmes

vhs80Finalzinho dos anos 80, devia ser 1989 ou por aí.
Pode parecer muito estranho hoje em dia, mas naquela época, ter um aparelho de videocassete em casa não era exatamente comum. Era meio caro, um daqueles luxos que todo mundo queria ter antes que o vizinho, pra evitar que ele viesse contar vantagem. E foi nesse ano (se não me falha a memória) que meu pai conseguiu comprar um VCR pra gente.
Lembrem-se: estamos falando de uma época pré-MTV Brasil, pré-TV a cabo em praticamente todas as casas! Se você queria ver um filme, ia no cinema e olhe lá. Ser capaz de assistir “os grandes sucessos” na sua própria casa era uma baita novidade, coisa de primeiro mundo. O século XX chegando na sua sala.

Bom, nós tínhamos o videocassete, legal. E agora, o que passaríamos nele? Sim, porque as videolocadoras também eram novidade, e meio complicadas de se encontrar. Tinha uma divulgação quase boca-a-boca de qual era boa, qual tinha filmes legais e preços bons. Para minha sorte, um grande amigo já possuía um videocassete antes de predadormim, e quando soube que minha família tinha comprado um, me deu de presente uma fita com três filmes gravados nela, que ele tinha conseguido copiar da locadora (o que também, na época, era um feito e tanto).
E quais eram os tais filmes? Tango & Cash (que vimos uma vez só), Predador e Uma Noite Alucinante. Esses dois últimos eram os favoritos meus e do meu irmão mais novo. Vimos (sem exagero) umas dezesseis vezes cada um. Eu sabia até as mudanças de câmera e da música. Sabíamos que não eram obras-primas, que não ganhariam fileiras de Oscars, nem que o Rubens Ewald Filho recomendaria, mas eram os nossos primeiros filmes e adorávamos vê-los de novo e de novo.

Dali pra frente, acabamos pegando um enorme carinho pelos dois filmes. Não sabíamos na época, mas eles acabaram se tornando marcos da nossa infância, dois filmes que assistíamos e curtíamos juntos.
Do filme com o Arnold Schwarzenegger apanhando do alienígena de dreadlocks eu até posso escrever depois, pois essa volta toda que eu fiz foi pra falar de Uma Noite Alucinante (Evil Dead II: Dead by Dawn), o primeiro filme que vi do diretor Sam Raimi.

Mortos ao Amanhecer! Mortos ao Amanhecer!

O filme era uma mistura insana de terror e comédia, com momentos que eu não sabia se tinha que rir ou ficar assustado (meu irmão não tinha essa dúvida, ele ria de tudo mesmo). E quando via pela segunda vez (e terceira, quarta, décima-primeira…) ficava notando detalhes ainda mais engraçados.
Tudo se passava em uma só noite, o roteiro era simples, praticamente uma desculpa pra mostrar uma série de cenas bizarras e estranhas, e também mostrar um dos caras mais durões do cinema: Ash Williams, interpretado pelo amigo de infância de Raimi, o canastrão mais gente boa da sétima arte, Bruce Campbell. No filme, Ash teve que matar a namorada possuída com uma pá, enterrá-la, vê-la ressuscitar com um zumbi-demônio do mal, matá-la (de novo) com uma motosserra… só pra depois ter que fazer o mesmo com a sua própria mão. Sim, uma mão zumbi possuída por espíritos malignos. Diz aí — não é o máximo?
O principal disso tudo é que me interessei pelo trabalho de Sam Raimi. Descobri que ele tinha feito um outro filme com a mesma história, chamado apenas Evil Dead (bom, o “II” no nome ajudou a fazer essa genial descoberta), e que aqui no Brasil foi chamado de “A Morte do Demônio”. Esse primeiro filme surpreendeu porque foi feito com pouquíssimo dinheiro, que Raimi arrecadou com seus amigos e familiares, mas já servia para mostrar que o diretor tinha um estilo único e uma segurança ao levar a história (por mais inverossímil que ela possa ser) que faz inveja a muita gente famosa. Ele sabe lidar com efeitos especiais, conduzir atores e cuidar de todo tipo de detalhes.
Raimi ainda fez um terceiro Evil Dead (aqui no Brasil, Uma Noite Alucinante 3), com mais ação, humor e fantasia, com o badass Ash Williams enfrentando os zumbis possuídos na Idade Média.
Uma curiosidade sobre a confusão que se fez com os títulos nacionais: Evil Dead virou A Morte do Demônio, enquanto Evil Dead II ficou Uma Noite Alucinante. Agora o terceiro filme (Evil Dead III: Army of Darkness no original) ficou como Uma Noite Alucinante 3. Ou seja, o título nacional pulou do um pro três sem a menor explicação…

xena Mas Raimi não era apenas um diretor de filmes de terror, e fez questão de mostrar isso, fazendo suspense policial, drama e faroeste, isso sem falar em séries de televisão como As Lendárias Viagens de Hércules (com outro canastrão gente-boa, Kevin Sorbo) e Xena, a Princesa Guerreira. Pessoalmente, eu adoro uma série curtinha que ele produziu para televisão, chamada Gótico Americano (American Gothic, no original), um suspense de primeiríssima, em 22 episódios.
O cara entende de cinema. Sabe o que o espectador quer ver, como fazer e como gerar as reações desejadas em quem está assistindo suas produções. Sempre que possível, costuma trabalhar com as mesmas pessoas que está acostumado, como seus amigos de infância Robert Tapert e Bruce Campbell, seu irmão mais velho Ivan Raimi e volta e meia arranja um papel pro seu irmão ator, Ted Raimi.
A prova definitiva, ou melhor, o reconhecimento definitivo, veio com Homem-Aranha. Por muito tempo, esse era considerado o filme que jamais seria feito, que não tinha como se produzir um filme do Aranha e agradar os fãs do herói mais querido da Marvel. Bom, o cara foi, fez o filme e conseguiu arrecadar (cerca de) 800 milhões. E repetiu o feito (e a mesma arrecadação, aproximadamente) com as outras duas continuações (apesar da última não ter ficado láááá essas coisas…). Quantos diretores em Hollywood conseguem fazer um filme e duas seqüências e manter a mesma arrecadação (não vale citar o Peter Jackson)?

Voltando ao Terror!

O cara mostrou que podia fazer qualquer tipo de filme, qualquer tipo de história, que ficava bom. Então o que ele faria em seguida, depois de render mais de dois bilhões para os estúdios (bilheteria mundial) com os filmes do Escalador de Paredes? Basicamente, o que ele quisesse! Fala sério, se você fosse um executivo de um grande estúdio de Hollywood, você recusaria qualquer projeto desse cara?

poster
E não foi surpresa nenhuma quando se anunciou que o próximo filme dele seria de terror: Arrasta-me para o Inferno (Drag Me to Hell), “a volta de Sam Raimi ao gênero que o consagrou”, era o que a mídia dizia. A surpresa veio mesmo com a badalada exibição do seu novo filme no festival de Cannes, neste ano. Um filme de terror sendo exibido no maior e mais respeitado festival de cinema do mundo!

Agora voltamos para aquela pergunta do começo, “o que esse filme tem de tão especial assim?” (— Caramba, Saladino, como você enrola! – D3).

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O filme é genial em sua simplicidade (sempre quis usar essa frase…). Uma história simples, mais uma desculpa para mostrar uma série de situações bizarras e estranhas, com uma direção firme e segura. Tudo está certinho, redondinho, muito bem cuidado, feito com carinho e uma atenção aos detalhes impecável.

Raimi entende muito bem de timing, sabe quanto tempo o espectador vai ficar rindo da cena engraçada, quanto tempo vai ficar desprevenido para o próximo susto. E sabe também como montar o cenário para fazer o susto, como deixar tudo para o espectador pensar “ah, o susto virá daquele ponto” (para o susto vir do outro lado).

drag_me_to_hellQuem conhece um pouquinho de filmes de terror sabe o que vai acontecer, não precisa pensar muito ou ser um grande gênio pra sacar isso, mas mesmo assim, toma um susto atrás do outro, finca as unhas nos braços da cadeira esperando alguma coisa terrivelmente assustadora aparecer. E o melhor — não se decepciona.

A melhor forma de descrever o filme é compará-lo a um Trem Fantasma. Você sabe que vai ter um monte de sustinhos bestas, umas coisas toscas, mas que te assustam quando aparecem de repente. O segredo é justamente esse “de repente”, que Raimi sabe como usar com genialidade.

O cara é tão bom, que assusta o espectador com… nada. Mudança de câmera, som, sombrinha aqui, ventinho ali, cortinha acolá… mas em Arrasta-me para o Inferno esses elementos metem mais medo que as caras mais assustadoras do Jack Nicholson.

O ritmo é alucinante e frenético, com pouquíssimos momentos calmos e tranqüilos. Quando o espectador não está tomando susto, ele está rindo de uma cena engraçada ou nojenta, colocada ali para dar um certo alívio, uma pausa para se relaxar e… tomar outro susto.

drag-me-to-hell1

É claro que tem momentos que qualquer mente sã vai encontrar inconsistências ou verdadeiras impossibilidades (só vou dizer “bigorna”, quem assistir vai entender), mas estão ali por algum motivo, nem que seja apenas para compor uma cena ou situação muito divertida.

O que mais marca no filme todo é um ar de remake, de recontar uma história de terror bem velha, um jeitão que remete a filmes antigos de terror, mas com um visual moderno, com as possibilidades que as técnicas atuais do cinema oferecem. Não há grandes novidades numa garota que é amaldiçoada por uma cigana, e que sofre horrores com essa maldição. Não é uma história nova, de forma alguma. A genialidade está na forma que é mostrada. Na forma que o diretor utiliza essa simples narrativa para assustar o espectador.

No geral, Raimi dá uma aula de como se fazer um bom e pavoroso filme de terror. Facilmente, um dos melhores filmes de terror que chegou aos cinemas recentemente.

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Para mim, foi uma experiência ainda melhor. Era como se eu estivesse de volta ao final dos anos 80, vendo um filme de terror novo, no videocassete novo da casa dos meus pais, tomando os mesmos sustos e rindo do mesmo jeito que eu fiz com Uma Noite Alucinante. Foi surpreendente ter essa sensação vinte anos depois, com um filme do mesmo diretor!

E o mais legal é que tive a oportunidade de ver minha esposa fechar os olhos em várias cenas, morrendo de medo de um susto que ela tinha certeza que ia aparecer.

Melhor prova do sucesso de um filme, impossível.

12 Comentários

Filipi

22 de agosto de 2009

Cara, Sam Raimi é foda! Mas o ultimo Homem Aranha foi deploravel, um cocozão!
Se tudo der certo vejo o filme amanhã.
Adorei a resenha!

Fabio Moron

23 de agosto de 2009

Hum… chamou a atenção hein =D

Só tenho que esperar o 5º dia útil lol

Fernanda Ribeiro

23 de agosto de 2009

ADORO esse estilo de filme. Remete tb a minha pré-adolescência e a experiência de assistir filmes no vídeo cassete! O_o

BWAHAHAHAAHAHA sério que a Ge ficou com medinho? Quero detalhes!

Snake

24 de agosto de 2009

Estava em dúvida se ia, ams depois da resenha, vou dar um jeito de ir essa semana, fiquei curioso! xD

E cara, Uma Noite Alucinante foi minha infância. hauhauahau

Tio Nitro

24 de agosto de 2009

Já tô na cola desse filme faz tempo, legal que o Sam conseguiu mandar ver. Estou com um pouco de medo do tal novo Evil Dead, tem rumores que vai ser um remake (o que acho desnecessário, pois o Evil Dead 2 já é meio um remake do 1, e todos os dois foram ducaray!).

O lance da história simples + cenas assustadoras também pode ser aplicado em aventuras de RPG de horror. Não é necessário criar uma trama complexa (o que muitas vezes confunde mais os jogadores e diminui o suspense e o horror do jogo), com uma trama simples mas cenas bem boladas de terror, você consegue uma sessão inesquecível.

Em RPGs de horror, o alvo principal do mestre deveria ser os próprios jogadores, ele tem que fazer medo é nos jogadores, usando os personagens deles como um meio! :)

Sam Raimi ruleia demais! E sou Xenita total (apesar de achar o Hércules meio chato!).

Augusto

24 de agosto de 2009

No aguardo. Parece ser bom mesmo o filme. A velhinha é uma boa NPC para amaldiçoar personagem de jogador chato rs.

Achando o link no emule eu posto aqui também rss.

Riketz

25 de agosto de 2009

este parece ser bem legal..

to na espera do filme “the box” que parece que vai ser show de bola tb..

Clayton Mamedes

26 de agosto de 2009

Sam Raimi rules! Fiquei mto emocionado com o relato do videocassete, pois qdo compramos uma aq em casa, meu pai alugou (el uma locadora beeem longe – a unica da região): Predador, O Vingador do Futoro e Uma Noite Alucinante!

O Raimi ainda tem uma produtora para fomentar filmes de terror, a Ghosthouse pictures.

Excelente matéria!

Mand

1 de setembro de 2009

Estou bem ansiosa para ver se o Remake do “Drag Me To Hell” ficou realmente bom.

A primeira diferença que percebi em relação ao filme original, é que a personagem principal está loira, e no filme anterior ela é morena, mas enfim, vou ver do mesmo jeito x3

[spoiler] Alguns amigos me disseram que no filme novo o “Lamia” não aparece na janela para dar um susto na mocinha! T__T

Rogerio Saladino

2 de setembro de 2009

Oi Mand…

Engraçado, pelo que eu pude pesquisar, Drag me to Hell não é um remake. É um roteiro original do Sam Raimi e do irmão dele, o Ivan Raimi.
Não é exatamente original e pode ter bastante similaridades com outros filmes antigos, mas não é um remake.
Qual seria o filme original?

Tio Lipe

3 de setembro de 2009

Olá!
Eu sabia que este filme poderia valer a pena ser assistido, mas só agora tenho certeza que posso ir vê-lo. Não é muito o meu estilo de filme, mas sempre é bom saber que você pode esperar “algo” de um filme assim.

Até and Bye…

Danyaell

7 de outubro de 2009

Também tive uma ótima sensação, pensando que era assim que as pessoas que viram Evil Dead no cinema deveriam ter se sentido na época!

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