Resenha: Livro de Coalizão Invictus
Postado no dia 13 de novembro de 2007 por Vasco em Mundo das Trevas, Resenhas
Precedendo o lançamento da Devir do Vampiro o Réquiem em português, o d3system decidiu trazer aos nossos leitores ávidos por informações sobre o Novo Mundo das Trevas (o cenário dos amaldiçoados), uma série de resenhas sobre os livros das coalizões — as sociedades dentro da própria sociedade dos vampiros. Apesar das informações já contidas no módulo básico á respeito delas, as coalizões ainda eram um grande mistério para os jogadores, como a forma de aprendizado da Ordo Dracu, os dogmas e divisões do Lancea Sanctum e a forma de governo igualitário dos Carthianos. Com base nessa necessidade, a White Wolf preparou o lançamento desses livros para somar elementos nas crônicas, personagens e cenário, além de sanar algumas lacunas que não tiveram lugar no livro básico.
Lançado no ano de 2005, o “Invictus” foi o terceiro livro de coalizão a ser produzido, logo após do Ordo Dracu e o Lancea Sanctum, na ordem cronológica da editora. Com 235 páginas, o livro foi estruturado utilizando o formado já caracteristico dos livros produzidos pela WW:
- Capítulo 1: A História da Coalizão
- Capítulo 2: O Pós-vida no Invictus
- Capítulo 3: A Dança Macabra
- Capítulo 4: Facções e Linhagens
- Capítulo 5: Juramentos de Sangue e Disciplinas
- Apêndice: Aliados e Antagonistas
O Invictus é poder, e o propósito do poder é somente o poder. É com base nessa linha de pensamento que o chamado “Primeiro Estado” dos amaldiçoados se mantém noite após noite através da eternidade como os Senhores da Escuridão. A coalizão se considera formada por aristocratas, nobres, cavaleiros e reis da sociedade dos mortos-vivos. Composta daqueles que nasceram e cresceram para dar ordens, os Inconquistáveis acreditam que somente eles podem liderar, seja pelo poder de seu intelecto, força bruta ou influência. Em uma coalizão onde somente os mais “preparados” devem sobreviver, a ferocidade de suas atitudes sempre será legitimada pelos fins que justificam os meios.
Sendo essa a idéia central do livro da coalizão, o tema mais marcante apresentado é a busca pelo poder e os preço a se pagar por ele. Enquanto as outras coalizões reclamam sobre a grande influência do Invictus na sociedade amaldiçoada, o Invictus rebate que não existe ninguém mais capaz de possui-lá. Os anciões devem liderar as massas não somente pelo seu poder, mas pelas suas décadas de experiência, provando suas capacidades de sobrevivência noite após noite aos horrores do Réquiem. Deixem que os mais novos mostrem o devido respeito e sejam recompensados, mesmo que ligeiramente, por suas posturas. Deixem que os mais experientes mostrem seu valor, degladiando-se entre si pelos espólios dos mais velhos. Somente assim, o poder do “Primeiro Estado” pode ser mantido forte. Contudo, não será esse um preço muito alto a troca de recompensas muito escassas? O que pode ser considerado justo de ser sacrificado em nome desse poder?
Com base nisso, o clima que o livro transmite quando se trata dos Inconquistados é o de realeza, na expressão total da palavra — desde as roupas com as quais os anciões se vestem (como nobres da idade das trevas), até a descendência dos membros saídos da corte inglesa do século XVIII ou da Rússia do século XV. Todos os costumes, etiquetas, maneirismos estão presentes, desde que demonstrem a realeza dos membros presentes. Eles são uma constante no ambiente dominado pelo Invictus.
Um ponto interessante a ser ressaltado é que na concepção do clima, o mundo moderno não deve ser totalmente esquecido, mas utilizado como contraste ao anacronismo e ao ciclo anti-natural que envolve a existência dos amaldiçoados, sobretudo á respeito daqueles que seguem o Primeiro Estado — uma limousine para à frente de um teatro de arquitetura gótica, no meio de uma cidade de prédios e luzes foscas; dela desce um homem vestido com botas e calça de montaria, um robe de seda vermelho cobrindo seu dorso nú, com homens armados trajando ternos pretos e comunicadores de ouvido ao seu redor. É o choque entre o velho e o novo — o vivo e o morto. Todavia, não é só a parte “nobre” da realeza que transmite o clima dessa coalizão: também há a parte mesquinha, invejosa e prepotente. Ocorrem punições severas pela menor falta de etiqueta, banquetes de sangue em catacumbas cheirando a morte antiga, combates até a morte pela honra ferida e demonstrações bestiais de poder sobrenatural até o limite de uma quebra de máscara. Todos esses são pontos preponderantes na coalizão dos Senhores Malditos dos Mortos-Vivos.
As informações contidas nos capítulos do livro são o pilar fundamental para a compreensão do que é ser um membro do Primeiro Estado, seja por iniciação ou afiliação à coalizão. A história do Invictus é extremamente bem trabalhada, levando em conta que, no cenário do Vampiro O Réquiem, os membros não possuem mais toda a memória de suas não-vidas intactas, uma vez que o “Torpor”, ou “pequena morte” é recheado de sonhos e pesadelos que fragmentam as mentes dos mortos-vivos. Utilizando esse artifício, os autores criaram uma espinha dorsal para a historia mantendo diversos mistérios, tanto para os jogadores, quanto para os narradores. Como exemplo disso, posso citar a enorme teoria de conspiração do Invictus para se auto-proclamarem senhores da noite. Desde as noites da época da queda do Império Romano eles vem espalhando artefatos, livros e pergaminhos que comprovam o direito do Primeiro Estado para governar. Além disso, utilizam das memórias fragmentadas dos membros de outras coalizões e até mesmo de membros do Invictus para não serem contestados, já que esses documentos realmente vieram de épocas antigas (mas sem nenhuma testemunha de verdade). Trata-se de uma manipulação — uma mentira tão perfeita, que até mesmo os próprios Inconquistados acreditaram nos anos posteriores ao descobrimento dessas relíquias.
Um outro ótimo momento dos autores, foi a inclusão de membros de destaque na história da coalizão (como Quintus de Alexandria, Palladius da Irlanda e Valea de Byzantium), exemplificando as várias vertentes presentes dentro do Invictus — manipuladores, guerreiros e aristocratas — demonstrando que o Primeiro Estado não se resume somente a reis e senhores, sentados em seus tronos, comandando vastas hordas de proles e servos. São personagens cheios conteúdo que fogem do estereótipo da coalizão, sem perder a identidade nem a idéia central proposta pelo sistema.
No que toca a história do Invictus, um último ponto a ser levado em consideração, é a inclusão de um personagem que claramente é uma referência ao antigo cenário e ao modo como ele se difere do atual. Esse personagem é conhecido somente como Imperador. Eleito pelo voto dos anciões do Primeiro Estado, o Imperador deveria levar o Invictus adiante em sua missão de provar a superioridade da coalizão sobre todos os amaldiçoados do mundo. Durante algum tempo essa missão foi levada adiante e muitas das regras de convivência que perduram até hoje foram criadas nesse período. Pela sua estrutura de abrangência quase “global” o Primeiro Estado esteve às portas de uma guerra civil que o destruiria por completo. Tudo isso devido a uma disputa entre duas “Guildas” da época e seus líderes que, por inveja mútua, conspiravam uns contra os outros e arrebatavam seguidores em todas as posições possíveis entre os membros da coalizão. Vendo que nada poderia ser feito para prevenir essa guerra, os anciões foram até o Imperador para uma solução. Naquela noite, os lideres das Guildas foram mortos misteriosamente por um assassino desconhecido. Naquela noite, o Imperador renunciou ao seu cargo e os anciões voltaram a seus territórios para lembrar que devem exercer seu domínio sobre seus próprios reinos, demonstrando que um poder unificado pode ser facilmente corrompido, mas um poder independente com um objetivo em comum é a base de uma torre poderosa.
O segundo capítulo demonstra o cotidiano do Primeiro Estado. A etiqueta, protocolo e a forma correta de tratar uns aos outros, desde o mais baixo neófito ao mais glorioso ancião são exemplos da importância que os Inconquistados dão ao tratamento dado e recebido. Muitos se perguntam porque tamanha importância para algo tão banal quanto protocolo, mas os membros da coalizão tem o conhecimento do real motivo de tanta cobrança. Primeiro, devido a posição do Invictus perante as outras coalizões, demonstrando seu preparo e sofisticação, sua forma polida e coerente de resolver disputas, evitando ao máximo um derramamento desnecessário de sangue. Em segundo lugar, e ainda mais importante, para conter a besta. Como etiqueta e protocolo podem conter a besta dos amaldiçoados? Simples: ela mantém o aspecto da humanidade e defende uma postura que relembra o motivo pelo qual a besta não deve dominar. Ela lembra que mesmo nos horrores dos anos do Réquiem, alguém totalmente desprovido de empatia e emoções pode demonstrar sentimentos há muito esquecidos e, mesmo que em algum momento isso venha a falhar, a culpa recai sobre o protocolo e não sobre o membro.
Outro ponto citado nesse capítulo é a filosofia Invictus, explicada mais detalhadamente do que aquela já mostrada no Vampiro o Réquiem, exaltando e se aprofundando na maneira como o Primeiro Estado aplica esse dogma nas cidades sob o seu julgo. Talvez o ponto mais importante da filosofia seja o sistema de patronagem que eles utilizam como moeda de troca em tudo que diz respeito a coalizão e seus membros. No sistema, se alguém se torna cliente de um membro do Primeiro Estado receberá em troca tudo o que estiver ao seu alcance. Em troca, o membro cobra favores ou pagamentos do vassalo, assim fazendo com que ele avance em suas ambições e, conseqüentemente, se torne mais dependente de seu suserano — um círculo vicioso apoiado por todos da coalizão, em especial os anciões que sabem o valor de um acordo bem feito, tanto pela disposição do cliente em pagar sua divida, quando pelo senhor que faz tudo ao seu alcance para ajudar seus criados no que lhe foi solicitado. Esse item foi especialmente frisado: a palavra, uma vez dada, deve que ser cumprida. No final, somente honra e respeito sobram como prova de caráter para um membro do Invictus e uma quebra não será somente punida por um membro, mas sim por todos, em especial pelos anciões como um todo.
As casas e guildas são outras formas de interação entre os membros da coalizão, sendo a primeira uma forma de dinastia (ou junção) de anciões (ou ancilla) e de seus recursos para um bem em comum. Nelas, existe uma rotatividade de domínio (muito parecida com aquela apresentada nos filmes da série “Anjos da Noite”) e as guildas são pólos de conhecimentos, especializadas em um tipo específico de ação (como oratória, espionagem, manipulação ou guerra) dotadas de renome entre os membros. A forma como a coalizão trata seus rituais (como a monomancia), Grandes Elysiums, jogos sociais e até mesmo a forma de vestir (com cores para determinados clãs) também são apresentadas nesse capítulo, assim como o famigerado “Circulo Interno”, suas agendas e integrantes, além de como se juntar e sobreviver entre eles.
O terceiro capítulo explica a iniciação dos membros abraçados na coalizão e define a maneira como são tratados aqueles que se juntam ao Invictus posteriormente. Desde a busca por membros da aristocracia da época, até os intrincados rituais de libertação da prole recém criada para os neófitos. Tudo é explicado em detalhes riquíssimos pelos autores. Os tipos de guildas existentes e a forma como o aprendizado é organizado também é explicado nesse livro, assim como as guerras entre as guildas e as proporções que elas podem tomar.
A propaganda que o Invictus usa para atrair membros e o modo como ele interage com as outras coalizões (e as usa para seus fins de dominação) são novamente um ponto á parte do livro. As novas formas (oriundas dos livros do antigo cenário) são fenomenais, ao ponto de haver uma propagação de outras coalizões que serão assimiladas futuramente pelo Primeiro Estado — algo inusitado em um cenário tão duro e direcionado.
A aquisição de poder normalmente se torna um fator difícil para os membros do Invictus, tanto do ponto de vista do jogo, quando pela criatividade e possibilidades que podem ser exploradas pelos jogadores. Porém, na dança macabra, investimentos são apresentados, recursos direcionados e influências espalhadas coordenadamente — algo perfeito para aqueles que tem dúvidas sobre como se programar a longo prazo para conseguir o tão almejado poder dos Inconquistados.
O capítulo Facções e Linhagens demonstra as divisões internas no Primeiro Estado. Nesse capítulo são apresentados os “sabores” da coalizão, os diferenciais para fugir um pouco dos estereótipos já apresentado no livro básico e adicionar um toque pessoal aos personagens tanto dos narradores quanto dos jogadores. Existem dentro o Invictus cinco facções:
- “Os Cherubim”, artistas e apreciadores de arte;
- “A mais nobre sociedade de Artemis”, exímios caçadores;
- “Octopus”, manipuladores políticos;
- “A mais honrada ordem da coroa de espinhos”, cavaleiros para a proteção do Invictus
- “Die Nachteulen”, investigadores e desmistificadores de mistérios.
As facções são apresentadas com todos os seus costumes, rituais e informações tanto para afiliações (algo inovador, como por exemplo a necessidade de certas habilidades ou méritos para a afiliações) e exemplos de uso para as crônicas criadas pelos narradores.
Além das facções, as linhagens dos Inconquistados também são apresentadas nesse capítulo. São elas:
- Annunaku, vampiros territorialistas ao extremo;
- Kallisti, desligados emocionalmente e manipuladores sádicos;
- Lynx, uma linhagem Mekhet envolvida em redes de informações e obcecada por segredos;
- Malocusians, amaldiçoados presos em seus próprios refúgios com medo do mundo das trevas;
- Sotoha, derivados de uma linhagem Ventrue de costumes japoneses;
- Spina, herdeiros do fundador da ordem da coroa de espinhos.
Explicadas da forma já conhecida, as linhagens são um adicional ao Invictus, mas como os autores ressaltaram, são mais baseadas em vassalagem e influência do que em variações drásticas da maldição, como as linhagens são normalmente tratadas.
Finalmente, no último capítulo do livro, somos apresentados à forma de controle utilizada pelo Primeiro Estado em última estância: os juramentos de sangue, que são os votos que os vassalos prestam aos seus Senhores da Escuridão. Os juramentos podem variar desde simples palavras proferidas até poderosas maldições passadas pelos mais velhos para assegurar a obediência dos mais novos. Mesmo não se tratando de uma coalizão mística, os autores explicam que os juramentos são uma forma da maldição dos Inconquistados a ser levada adiante, mesmo que eles não percebam dessa forma.

Após toda essa explicação, o que podemos concluir sobre o Livro de Coalizão Invictus? Primeiramente é um livro belíssimo de se ter. A arte de Mark Nelson continua fenomenal, mostrando os vampiros em toda a sua glória sombria e entristecida, o trabalho de desenvolvimento de David Chart e Ray Fawkes é profundo e complexo, mostrando as diversas facetas de algo que a primeira vista pode parecer bidimensional, mas que olhando com outros olhos se torna tridimensional, como em trabalhos excepcionais já produzidos pela dupla como o antigo Transilvania By Night e Transilvania Cronicles.
Apesar de extenso, toda a informação contida no livro é extremamente útil, tanto para jogadores veteranos quanto novatos. As informações que passariam despercebidas receberam o mínimo de atenção, senão como capítulos inteiros, ao menos como caixas laterais no decorrer do livro.
Classificação do Vasco: |
|
| Apresentação do produto: | 9 |
| Ambientação do conteúdo: | 9 |
| Mecânica das regras: | 9 |
| Arte e diagramação: |
10 |
| NOTA FINAL: | 9,5 |
O que faltou pro 10?
A única ressalva a ser feita nesse ótimo trabalho ainda fica em torno das linhagens. Ao meu ver, embora as linhagens somem diversidade, elas podem ser a porta de entrada para problemas relacionados à perda da identidade no jogo (como em certo momento aconteceu com o cenário do Vampiro a Máscara). A inclusão de linhagens para o Invictus, aos meus olhos, foi extremamente desnecessária, sobretudo com algumas que claramente não tem nada à acrescentar para a coalizão.
No saldo geral, o Livro de Coalizão Invictus é um livro fenomenal. Ele demonstra bem os motivos pelos quais foi publicado, ou seja: apresentar com todos os detalhes o Primeiro Estado aos jogadores e narradores. O suplemento ganha pontos preciosos demonstrando detalhes que normalmente se perdem no decorrer do jogo, os transformando em formas de enriquecer qualquer crônica. Sem dúvida nenhuma é um livro indispensável para qualquer jogador de Vampiro o Réquiem.

































