Resenha: Lobisomem os Destituídos
Postado no dia 2 de julho de 2008 por Vasco em Mundo das Trevas, Resenhas

Escrito por Vasco Sagramor
Revisão e comentários por Douglas 3
Com a aproximação do XVI Encontro Internacional de RPG, diversos lançamentos serão apresentados incluindo o tão aguardado Lobisomem os Destituídos, outro dos livros básicos em português da linha Mundo das Trevas, original da editora White-Wolf, traduzido e lançado aqui no Brasil pela Devir.
A resenha a seguir foi realizada com base no livro em inglês. Qualquer termo batizado de forma diferente do texto de Lobisomem: Os Destituídos deve ser desconsiderado.
Publicado em 2005, com 320 páginas e uma rica arte interna em tons de verniz e cinza, o livro ambienta e prepara os jogadores para o mundo dos Uratha, destituídos de um paraíso perdido do qual eles mesmos causaram a ruína em nome dos seus instintos e orgulho.
O livro é dividido em:
- Prólogo: Carne Fresca
- Introdução
- Capítulo 1: O mundo dos Destituídos
- Capítulo 2: Personagem
- Capítulo 3: Regras e sistemas especiais
- Capítulo 4: Narrativa e antagonistas
- Apêndice 1: O mundo espiritual
- Apêndice 2: As Rochosas
- Epílogo: Formas
Lua Cheia…
Pulsação acelerada. O calor percorrendo o corpo enquanto músculos se relaxam e contraem. Emoção e instintos dominando razão e percepção. O cheiro da presa no ar. Caçar ou ser caçado?
Ethan Skemp, desenvolvedor da linha, apresenta essa premissa básica para Lobisomem os Destituídos. Atormentados por uma escolha do passado, perseguidos por seu próprio sangue e portadores de uma fúria sem limite, os Uratha devem encontrar um meio de equilíbrio entre a selvageria em seus corações e a razão em suas mentes e ideais. Esse choque é coroado com um sentimento de abandono por aqueles que descobrem essa herança — aqueles que sabem que nada será como antes e que tudo o que era conhecido e seguro deverá ser deixado para trás — familia, amores, carreira ou moralidade são o toque final no conceito do que é ser um Destituído.

Tomando esse conceito como base, a caçada se torna o tema básico nesse cenário. Pela sua natureza selvagem, os Lobisomens são invariavelmente levados por seus instintos a demonstrarem sua superioridade; seu lado predatório é incontrolável.
Para tanto, caçar se torna mais que um simples prazer e sim uma necessidade — em busca de territórios, inimigos ou espíritos renegados do Reino das Sombras. Contudo, muitas vezes os “Destituídos” se tornam a caça ao invés de caçadores, ameaçando até mesmo aqueles que deveriam proteger. Nas noites do Mundo das Trevas existem outros predadores além de Lobisomens, e o horror das sombras e do desconhecido pode fazer até o mais letal dos monstros se encolher na escuridão.
Ao contrário de Vampiro: o Réquiem, seu antecessor, Lobisomem: os Destituídos apresenta uma versão um pouco mais consistente da história dos Uratha. Apesar de haver muita especulação e a tradição oral ser a única forma da passagem da lenda dos Destituídos, é possível se ter uma base confiável sobre os principais fatos da história de Pangéia e o Pai Lobo.
A Lenda dos Lobisomens
“Essa história é verdadeira.
Pangéia tinha vários nomes, mas assim ela era conheçida no começo. Espiritos e homens andavam livremente em seu território, compartilhando-o com outras criaturas enquanto a lua, Luna, brilhava no céu. Dentre os espiritos existiu o maior caçador dentre os caçadores, Pai Lobo. Sua missão era guardar as fronteiras entre Pangéia e o Reino das Sombras que eram praticamente um no inicio. E quando Luna e Pai Lobo se apaixonaram, desse amor surgiram os primeiros Uratha, feitos de espíritos e carne, senhores dos dois mundos. Durante incontáveis séculos, os primeiros caminharam com Pai Lobo e aprenderam muitos de seus segredos. Mas os anos finalmente começaram a alcançar o mais poderoso caçador. E sua força deixou se ser a mesma, inimigos antes derrotados facilmente agora demoravam demais ou fugiam para os cantos mais escuros do Reino das Sombras. Sob os olhares dos primeiros, o Pai Lobo definhava. Entreolhando-se então eles silenciosamente sabiam o que deveria ser feito.
E então, os primeiros mataram Pai Lobo.
Com seu último sopro de vida, ele então soltou um uivo tão forte e terrível que todas as criaturas se encolheram de terror, pois o maior dos caçadores havia tombado. E como se para refletir esse horror, o mundo da carne e espírito se dividiu, separando-se completamente. Por isso nós somos Uratha, filhos do Reino das Sombras e Destituídos de espírito. Nós destruímos a melhor coisa que tivemos porque tinha que ser feito. Somente a Mãe Luna e nossos totens permanecem conosco, mas isso é suficiente. Nós somos o Povo. Nós somos Uratha. Nós somos os lobos que caçam em dois mundos”.
Além da lenda dos Lobisomens, o primeiro capítulo do livro também traz informações essenciais no que diz respeito ao mundo em que eles vivem. Após a Primeira Transformação (que é o nome dado ao momento de descoberta da herança Uratha pelo mortal) nada será como antes. Informações sobre as tribos que eles formaram, as Alcatéias (grupos de lobisomens unidos por laços mais fortes que sangue e família), seus inimigos espirituais e de sangue como os Puros (descendentes da primeira alcatéia que não se juntaram aos assassinos do Pai Lobo e que caçam constantemente os Destituídos), seus territórios e políticas são mostrados de uma forma linear e concisa.
Lobos de Lua
Um ponto interessante a ser mostrado porém são os Augúrios, fases da lua atribuídas aos Uratha no momento de sua Primeira Transformação, definindo assim uma das várias responsabilidades do Pai Lobo a seus descendentes, uma vez que recai sobre eles agora a responsabilidade de manter o mundo espiritual e o da carne controlado. São eles:
- Rahu (Lua Cheia): guerreiro
- Cahalith (Lua Gibosa): visionário
- Elodoth (Meia-Lua): andarilho diviso
- Ithaeur (Lua Crescente): mestre de espíritos
- Irraka (Lua Nova): espreitador
Apesar de ser explicado em maiores detalhes no capítulo de regras e sistemas especiais, uma característica de destaque a ser citada é o Renome. Os Lobisomens, apesar do lado selvagem inerente da herança da primeira alcatéia, precisam de uma forma de reconhecimento além do instintivo. Isso está atrelado às características ligadas aos augúrios:
- Rahu: Pureza
- Cahalith: Glória
- Elodoth: Honra
- Ithaeur: Sabedoria
- Irraka: Sagacidade
A cada vez que um Uratha aumenta seu renome, mais respeito ele recebe dos seus irmãos de alcatéia e dos espíritos do Reino das Sombras. Apesar de não ser uma garantia de obrigação do Lobisomem, esse renome mostra que, apesar de ser Destituído, ele ainda carrega o fardo do Pai Lobo consigo e se orgulha disso.
Outro ponto a ser ressaltado nesse livro é a importância do território. Além de remontar ao instinto de lobo do Uratha, a relevância sobre manter um lugar seguro e confiável excede esse fato. Esses territórios ficam nos Loci, que são os lugares onde a barreira entre os mundos é fraca e permite a travessia entre eles. A proteção desses locais é algo fundamental naquilo que significa ser um Destituído.
Personagens
Além de ótimos conceitos e idéias, são apresentadas novas características, como o Instinto Primitivo (a ligação do Lobisomem com sua herança bestial), o Essência (energia espiritual que o Uratha pode canalizar do Reino das Sombras) e a Harmonia (o equilíbrio a ser mantido entre a selvageria e a razão) ajudam a dar vida nova aos Destituídos que iremos interpretar.
Além de Dons (poderes exclusivos dos Lobisomens) e rituais, encontramos descrições completas das cinco grandes tribos do Povo:
- Garras de Sangue: Os guerreiros mais agressivos entre os Destituídos, seguidores de Fenris, o Lobo Destrutor, guerreiro e devorador;
- Sombras Descarnadas: Seguidores da Loba da Morte, juraram buscar o conhecimento secreto do Reino das Sombras e seus mistérios;
- Aqueles que caçam nas trevas: Não gostam muito dos seres humanos e seguem a Loba Negra, a mais primitiva dentre os primeiros filhos de Pai Lobo;
- Mestres do Ferro: Vivem nas cidades e são filhos do Lobo Vermelho; também são os mais adaptáveis e versáteis dentre as Tribos da Lua;
- Senhores das Tempestades: Descendentes do Lobo Invernal, eles dominam a política dos Destituídos;
- Lobos Fantasmas: Párias entre os Uratha, não seguem nenhum totem tribal, mas podem fazer parte de alcatéias.
Mecânica
Regras e sistemas especiais são literalmente o pilar no que diz respeito às características sobrenaturais dos Destituídos. Encontramos desde as muitas formas que um Uratha pode adquirir (Hishu, que é o Ser Humano; Dalu, o Quase-Humano; Gauru, o Homem-Lobo; Urshul, Quase-Lobo; Urhan, Lobo) quanto regras detalhadas para regeneração, renome, o Aluamento (loucura provocada pela visão de um Lobisomem por um mortal) e Totens (espíritos aliados de uma alcatéia), entre muitas outras.
Digno de nota é a forma Gauru não poder ser mantida indefinidamente. Apesar de isso ser um obstáculo, adiciona uma tensão no jogo e uma expectativa elevando novamente o conceito do jogo a algo totalmente inesperado.
Desafios
Assim como em seu antecessor, a narrativa e os antagonistas são um elemento extremamente bem trabalhada no livro. Utilizando uma linguagem simples para apresentar informações riquíssimas, ele mostra as diversas nuances do mundo dos Destituídos, desde a interação entre tribos até as maneiras como conduzir e montar uma alcatéia.
As questões espirituais (e até mesmo sensitivas) são tão interessantes que qualquer narrador eventualmente pode se sentir tentado a adicionar elementos demais em sua crônica para não perder a oportunidade de utilizar todo o material apresentado.
O primeiro apêndice nos traz informações referentes a Histil, o Reino das Sombras. Os espíritos que habitam esse reflexo sombrio do mundo e os modos como os Uratha interagem com eles para conduzirem suas obrigações são descritos de uma forma incrível, em especial pela forma de narrativa com que muitas partes do capítulo são conduzidas.
Cenário
O segundo apêndice traz um território do estado americano do Colorado, recentemente recuperado pelo Povo depois de uma Guerra das Sombras, equivalendo-se à Nova Orleans dos vampiros e colocando-se como o cenário oficial de Lobisomem os Destituídos.
Concluindo, assim como em Vampiro o Réquiem, o amadurecimento da equipe de criação da White-Wolf continua a se evidenciar. Com temáticas cada vez mais adultas e apresentando dilemas de maior complexidade e criatividade, os jogadores ficarão cada vez mais cativados e fiéis a seus cenários.
Classificação do Vasco: |
|
| Apresentação do produto: | 8 |
| Ambientação do conteúdo: | 8 |
| Mecânica das regras: | 10 |
| Arte e diagramação: |
9 |
| NOTA FINAL: | 8.75 |
O que faltou pro 10?
Apesar da qualidade do livro, alguns itens incomodaram pela ausência. Primeiramente, a arte do livro. Mesmo contando com diversos artistas renomados, a escolha das cores não conseguiu me passar a fúria selvagem inerente que tanto se frisou. O conteúdo, apesar de bem escrito e conciso, em alguns momentos deixou um pouco a desejar — o conceito de caça é altamente viável e compreensível, mas em certos momentos os autores dão ênfase demais ao lado selvagem, deixando de lado o ponto de vista humano, que é parte integral do conceito de monstruosidade e deveria estar igualmente presente no cenário.
Por último, a diagramação e a disposição de diversas imagens não fizeram sentido. Em especial no capítulo de regras e sistemas especiais. Mesmo com essas falhas, ainda é um livro que vale a pena ler e assimilar as informações em crônicas ambientadas no Mundo das Trevas.




































