Resenha: Ventrue – Lordes Sobre os Amaldiçoados
Postado no dia 11 de junho de 2008 por Vasco em Mundo das Trevas, Resenhas
Lançado no começo de abril, Ventrue – Lordes Sobre os Amaldiçoados é o primeiro de uma série de livros que tratará exclusivamente dos grandes clãs vampíricos que povoam o mundo das trevas.
Assim como seus predecessores, os novos livros de clã trarão informações complementares àquelas apresentadas no módulo básico do Vampiro o Réquiem.
Porém, diferente do formato habitual que a White-Wolf normalmente utiliza para montar seus suplementos, o livro de clã Ventrue utiliza uma proposta totalmente nova e eficaz de mostrar os detalhes escondidos e esquecidos dos Lordes da longa noite.
Com 132 páginas, estruturado como um documento contendo histórias, entrevistas, pesquisas e comentários, Ventrue parece mais um pequeno romance do que um livro de referência. O que chama a atenção à esse fato é a ausência de regras no livro (presentes somente no apêndice, composto de poucas páginas). O segundo fato é a forma como a narrativa é feita, sempre atribuída a V.T, o membro responsável por colher as informações contidas no documento.
Esses fatores, além de uma qualidade belíssima de imagens coloridas (algo novo para leitores acostumados às tonalidades de cinza, característica marcante dos livros da editora) fazem dele um divisor de águas, um marco da qualidade que podemos esperar do novo mundo das trevas.
Com base nisso, os capitulos são compostos por:
- Capitulo 1: A História dos Ventrue
- Capitulo 2: A Cultura dos Lordes
- Apêndice: Lordes e o Jogo
Lordes sobre os amaldiçoados. Essa é a constatação máxima sobre o que significa ser um Ventrue. Possuir sangue nobre correndo nas veias, descendente dos grandes reis e rainhas do mundo antigo. Detentores de um poder atemporal, e de qualidades que os tornam, ao mesmo tempo, heróis e vilões num mundo sombrio e cruel, os Lordes sabem que só existe uma forma de possuirem o poder que lhes é de direito: nunca perder, nunca se dar por derrotados e, acima de tudo, nunca demonstrar misericórdia.
Capítulo 1: A História dos Ventrue
Descendentes dos reis da poderosa Tróia, os Lordes eram conheçidos como “Lares” , considerados espiritos ancestrais e conselheiros das grandes casas do reino. Por séculos essa atribuição era o mais alta honra que tanto os troianos quanto os membros poderiam desejar.
Maior entre os seus era Aeneas, filho de Vênus e considerado por muitos o primeiro grande rei dos Ventrue. Sendo um mortal, abençoado por sua herança entre os deuses, Aeneas se levantou contra os exércitos gregos na batalha de Tróia. Assim como muitas das coisas no mundo antigo, o destino de reinos não estava somente nas mãos de seus governantes, mas nas mãos também dos poderes. Considerando o levante dos troianos e seu rei como uma afronta, Juno, mãe de Aquiles, amaldiçoa Aeneas e seu povo, profetizando não só a queda do reino de Tróia como o expurgo de todos os seus ancestrais e parentes para um futuro de dor e sombra.
Por anos o povo de Tróia vagou enquanto seu reino se esvaia em chamas, mas manteve uma determinação digna de seu sangue: Aeneas e os seus continuaram navegando os mares, apesar da fúria dos deuses, em busca de um novo reino. Eles navegaram por diversas terras, até aportarem no que viria a ser conhecido como a Itália. Lá, eles finalmente acharam um lugar onde estabelecer novamente a glória de Tróia e encontrar o amor. No entanto, os deuses tinham outros planos para o primeiro rei dos Ventrue.
Lavinia, princesa de Latium, se apaixonou por Aeneas no primeiro momento que o viu. Seu pai, manipulado por Juno, promete a jovem para um líder tribal da região. Uma guerra sangrenta é travada por anos, em nome da terra e do amor de Lavinia. Os dois lados sofrem duramente o resultado das batalhas até que o rei dos Ventrue decide que o momento do desfecho se aproxima. Em combate pessoal com o líder da tribo rival e sob a influência dos deuses, Aeneas se consagra vitorioso, mas não sem antes mostrar que os anos o mudaram, e que mesmo com o inimigo implorando por clemência a seus pés, um rei deve ser piedoso e impiedoso na mesma proporção. Ele então crava sua espada no peito do adversário cujo nome foi esquecido pelo tempo e toma Lavinia e seu reino como seu, nascendo então a cidade de Lavinium e a fundação do clã dos Julii, que viriam a reinar sobre a jóia chamada Roma.
Surgidos dos “Lares” que vieram com Aeneas de Tróia e descendentes do filho dele Ascanius e seu neto Brutus, muitos membros decidem deixar Lavinium e seus irmãos Julii, tornando-se renegados. Movidos por vingança e perda por um erro do passado, esses novos malditos auto-intitulados “Ven” iniciam então uma grande peregrinação por toda a Europa, influenciando reis e nobres, mais uma vez como na antiga Tróia, como conselheiros e ancestrais, consolidando um poder que se espalha até as noites atuais.
A maldição dos deuses foi implacável e o nome dos Julii caiu no esquecimento, assim como o poder de Roma e a famigerada Camarilla. Com o passar dos anos, já estabelecidos nos reinos da Europa, os “Ven” começaram gradativamente a evoluir, até chegar aos Lordes que conheçemos nessas noites. O nome Ventrue só começou a ser utilizado recentemente, devirando tanto dos lares, quanto ven, chegando na forma atual que significa “Aquele que veio através de guerra e do mar de Tróia”.
Capítulo 2: A Cultura dos Lordes
Com base em diversas entrevistas com Lordes de diferentes partes do mundo, a Cultura dos Lordes demonstra a diversidade que compõe o clã. Nessa seção, encontramos exemplos de como os Ventrue se comportam, desde maneirismos (como o costume da mudança de nome), até a apresentação completa do membro, com nome, senhor, familia, domínios de origem e travessia, triunfo, criadores do seu senhor, conquistas pessoais e vitórias.
Apesar dos diversos costumes e práticas descritos nesse capítulo, alguns merecem destaque, como a “Lei da Hospitalidade“, que dita que qualquer Ventrue buscando abrigo deve recebê-lo de um irmão independente da coalizão, e o “Nobre Crime” que explica o porque os Lordes nunca perdem.
Alguns personagens marcantes são mostrados como tutores em determinadas partes do documento, sempre mostrando uma faceta oculta e adicionando um sabor diferente, uma diversidade a mais para ser inserida no cenário, tanto pelo narrador quanto pelos jogadores.
Seguem abaixo, alguns exemplos interessantes:
- O neófito chamado de “Mogul“, que possui influência sobre muitos, mas sabe que controle é somente um meio para se alcançar o verdadeiro poder.
- Principe Sylvain Vioget, ensina sobre subserviência e como punir os tolos que não respeitam status e controle.
- Jenny Raines, uma caçadora de criminosos do sangue e criaturas sobrenaturais é um exemplo de quebra de conceitos pré estabelecidos.
- Dommé Cohen, uma dominadora que treina lordes e vampiros de outros sangues na arte da disciplina Dominação, usando como ferramenta todo o seu repertório como dominatrix.
- Crypteia, um grupo de lordes para missões bélicas que normalmente debandam depois da missão concluída. São sempre secretas e a serviço de algum ancião, como uma caçada de sangue encoberta.

Uma tese sobre a chamada “Malkavia” encerra o documento. Nela somos apresentadas a doença que acomete os Lordes transformando-os em aberrações insandecidas em busca de um propósito no mundo sombrio que é o mundo das trevas. A versão que os membros do clã acreditam é de que a pressão e peso da liderança pode enlouquecer ao ponto de atrair uma outra maldição no sangue, uma quebra no vitae, causando a demência.
A versão do “Codex Malkavia”, uma tese dos próprios infectados, diz que os Ventrue foram tocados pelos deuses, e embora corpo, mente e vitae não suportem esse poder, eles atingiram uma visão de mundo diferente e mais correta do que os membros do sangue sem esse toque especial.
O nome “Malkavia” não surgiu ate o século 18 ou 19, onde antes eles eram chamados somente de aflitos. Devido às suas visões, muitos eram perseguidos pelos santificados criando um clima de tensão que perdura até os dias de hoje. A tese ainda diz que existe uma possibilidade da doença ser transmitida por sangue ou por alimentação, mas nada verdadeiramente comprovado.
Outra história diz que o nome “Malkavia” vem de um aflito russo chamado “Malkav“, que foi recuperado por um “Dragão” e estudado na busca de uma cura. Ele então concluiu que a loucura vinha de uma doença no sangue, um germe que ele batizou com o nome do membro. Não se tem noticias de Malkav.
Apêndice: Os Lordes e o Jogo
A última parte do livro introduz a uma nova linhagem: os “Adestroi”. Eles são ambiciosos e urbanos, não possuem escrúpulos e são detentores de um forte vício de sangue. Explicações mais detalhadas sobre os “Malkavian”, sua disciplina e como criar personagens com essa doença são mostradas nesse último capitulo do livro.
Com base em todo esse material apresentado, podemos concluir que o livro de clã Ventrue cumpre sua promessa. Apresenta a jogadores veteranos e novatos os mais poderosos vampiros do mundo das trevas, traz informações de grande valia de uma forma nova e cativante, e, por fim, mostra que um cenário de RPG pode ser construído com regras simples e uma ambientação rica.
Classificação do Vasco: |
|
| Apresentação do produto: | 10 |
| Ambientação do conteúdo: | 8 |
| Mecânica das regras: | 6 |
| Arte e diagramação: |
10 |
| NOTA FINAL: | 8,5 |
O que faltou pro 10?
Apesar de ser um suplemento belíssimo e apresentar seu conteúdo como um livro de história, se prendendo praticamente a nenhuma regra, o texto acaba se tornando maçante em alguns momentos pela falta de uma quebra de ritmo. Novamente a inserção de uma nova linhagem (algo que está se tornando rotina na nova linha de Vampiro o Réquiem) e a falta de profundidade no apêndice e na descrição dos “Malkavian” fez com que o conceito do livro ficasse abaixo da média, mas ainda assim um suplemento de grande valor.



































