Resenha: Livro de Coalizão VII
“Um odor forte e pungente invadiu o nariz de Gabriel. Apesar dele não respirar, o ar ainda invade suas narinas naturalmente. Durante semanas ele vem buscando pistas sobre aqueles que são conhecidos apenas como ‘VII‘. A onda de horror que eles espalharam na cidade é imensa. Mais de três anciões destruÃdos pela fúria incontida e sangüinária dessa seita. A única coisa encontrada foram algarismos romanos pintados nas paredes dos refúgios, vezes com sangue, vezes arranhados em lugares impossÃveis, noutras marcados a ferro no corpo de suas vÃtimas.
Érico ligou essa noite, dizendo que havia encontrado informações valiosas dos homens do ‘Russo‘, o Dragão que caminha nas ‘Terras Ermas‘, o território perdido da cidade. O tom nervoso na voz de Érico revelava mais do que suas palavras. Algo estava errado e foi essa a sensação que acompanhou Gabriel enquanto ele entrava em seu caixão, no porão do lugar que chamava de lar. Um pouco antiquado, como Érico costumava dizer, mas o que Gabriel podia fazer? Ele era um amante dos clássicos e, em sua mente, ecoava uma lembrança dos seus dias de sol. ‘Os clássicos nunca morrem’, como seu velho pai dizia. ‘Realmente’, pensava Gabriel ‘eles nunca morrem’.
O cheiro se tornou mais forte. Mesmo a letargia que dominava seu corpo inerte, não foi suficiente para impedir que Gabriel abrisse a porta do caixão para verificar de onde vinha esse cheiro. O horror foi tamanho que até mesmo o monstro interior de Gabriel não pôde se controlar diante da cena tenebrosa que estava em seu porão.
Érico estava lá. Empalado com a mesma técnica usada antigamente pelos reis da Transilvânia e da Turquia contra seus inimigos. Ele queimava numa pequena fogueira dentro do espaço limitado do porão, a poucos metros do caixão de Gabriel. Os olhos derretendo, a roupa grudando nos músculos queimados, as presas para fora em sinal de terror.
Gabriel rolou para fora do seu local de descanso, desabando no chão e se arrastando até a parede mais próxima. Exibiu instintivamente seu aspecto sobrenatural e se encolheu como uma presa acuada num canto escuro do porão. Uma criança assustada. Nada além disso. Em algum ponto da sua alma, dominada pela besta, ele questionava:
— Como? Como? Quem? No meu refúgio? Como? Quem?
Numa fração de segundo antes de se entregar completamente ao abraço da fera que de debatia no seu interior, ele percebeu um capricho alheio no seu refúgio: sobre a tampa de seu caixão estavam arranhados os mesmos algarismos romanos. ‘VII‘.
O som da porta do porão batendo foi a última coisa que ele escutou, antes de o silêncio recair sobre ele, abaixo da cidade que chamava de lar…”
Olhando para o Abismo…
Lançado em 2005, logo após o livro de coalizão Ordo Dracul, VII talvez tenha sido um dos suplementos mais esperados da nova safra do Mundo das Trevas, uma vez que o mistério gerado no livro básico em torno dessa coalizão se tornou alvo de especulações constantes tanto na internet quanto nos fóruns da White Wolf.
Com 170 páginas divididas em três capÃtulos, a estrutura do livro é a seguinte:
- Introdução
- CapÃtulo 1: PrÃncipes da cidade perdida
- CapÃtulo 2: Os TraÃdos
- CapÃtulo 3: Os Adormecidos
Monstros entre monstros. Amaldiçoados entre os que carregam a marca da noite eterna. Demônios sem alma. Essas são algumas das alcunhas sussurradas ao vento quando o nome “sete” é pronunciado com temor pelos vampiros do Réquiem
Destruir os “Membros”? Dominar os mortais? Transformar o mundo num caos de sangue e dor? Causar mortes sem sentido? Qual o propósito do VII, quais são seus objetivos, planos e motivações?
O tema central desse livro de coalizão é levar o narrador e os jogadores a questionarem esses propósitos e as motivações inerentes dos seus personagens e do cenário de jogo. Somos quem realmente aparentamos ou pensamos ser? Nosso passado nos torna reais? Nossos relacionamentos nos caracterizam? O que realmente nos define: nossas ações ou nossas motivações? A verdade sobre o VII realmente importa mais do que a forma como ela é percebida pelo resto do Mundo das Trevas?
Apesar de ser um livro de coalizão, VII não oferece nenhuma dessas respostas discutidas acima. O tema central é o mistério, e como ele é apresentado aos jogadores. Todos os segredos, dúvidas e, principalmente, o medo da ignorância , são parte da idéia central da coalizão mais imersa nas trevas do Réquiem.
Para manter esse clima de medo e ignorância, o livro foi dividido em três partes. Cada uma contém uma versão diferente sobre as origens e motivações da coalizão. Cabe ao Narrador utilizar a que se encaixe mais no tema proposto pela sua crônica. O motivo disso é dar maior liberdade ao Narrador, assegurando que nada seja imútavel, que os segredos possam ser alterados a qualquer momento e que mais e mais camadas de descrença se juntem ao mito dessa seita até o momento em que as respostas, não necessariamente as únicas, sejam apresentadas aos jogadores.
O clima e a atmosfera criadas envolvendo o VII devem ser sempre sombrias. A trama deve ser tensa e paranóica. A suspeita de que as sombras espreitam em todos os lugares e que a segurança e o descanso são um conforto difÃcil de ser alcançado devem estar presentes o tempo todo, independente da versão escolhida pelo Narrador.
Um ponto muito interessante do livro são as dicas e pontos de vista dos próprios autores das versões do VII — Greg Stolze, Christopher Kobar e Chuck Wendig escrevem como eles mesmos vêem e utilizam a coalizão em seus jogos, falam sobre os temas apresentados no livro e o que os levou a criarem esses elementos em seus pensamentos e adicioná-los ao Mundo das Trevas de Vampiro: o Réquiem.
Mantendo o Clima
Diferente da minha resenha anterior sobre o livro de coalizão Invictus, vou apresentar um resumo. O motivo? Salvaguardar os mistérios propostos no livro uma vez que, além de ser o tema principal do suplemento, isso mantém o suspense até que a presença do VII em sua crônica seja necessária. Isso também dá aos Narradores que lerão essa matéria a opção de mudar essas informações e as do livro em favor do jogo e da diversão de todos.
O primeiro capÃtulo mostra uma origem de proporções épicas onde o VII é criado na fatÃdica cidade bÃblica de Gomorra como herdeiros de uma cidade de pecado, sendo prole de feiticeiros pagãos e demônios. Esses monstros lutam uma verdadeira cruzada, uma jyhad contra os outros malditos devido a perda de sua cidade sagrada, linhagem e , conseqüentemente, de suas almas. O livro deixa claro que eles pretendem retomar essas coisas independente do que isso custe. Nesse capÃtulo, somos apresentados aos Ahranites, a linhagem que persiste até hoje como os inimigos mais fervorosos dos membros.
“TraÃdos” conta a origem da seita na forma de um acordo quebrado entre um rei do dia e um senhor da noite, e a vingança que se seguiu. Nessa versão, os membros do VII são vingadores, lutando uma batalha nas sombras contra os monstros que os traÃram e condenaram os sete membros mais amados da corte do rei do dia. A ironia é que eles também estão lentamente se tornando monstros. Nesse contexto, somos apresentados mais uma vez a uma grande gama de linhagens, as chamadas “Sete Casas”, sendo que somente seis permanecem ativas nas noites atuais. São elas:
- Casa Petrovnavich
- Casa Semeonovic
- Casa Alexander
- Casa Grigorovich
- Casa Iranavici
- Casa Marisovich
O último capÃtulo do livro, “Adormecidos”, descreve um experimento clandestino ocorrido há mais de cem anos. Mesclando ciência e ocultismo, foi criado um programa de assassinos errantes e agentes ocultos que, gradualmente tornou-se incontrolável devido à corrupção causada pelos pecados cometidos e pela luta por predomÃnio. A missão original foi deturpada a ponto de atingir o descontrole, uma vez que eles nem sabem que servem secretamente a essa organização chamada de “Sétimo dia”. Sendo, ao mesmo tempo, protagonistas e vÃtimas desesperadas, o VII é mantido como refém por uma psicose hipnótica em seu sangue. Como antagonistas, eles são um exército escondido entre os malditos — soldados de brinquedo que sofreram lavagem cerebral e foram liberados como juÃzes e carrascos num mundo de monstros.
Falar Sobre sem Falar Tudo
VII é um livro que leva a cabo sua proposta de mostrar vários pontos de vista sobre uma seita de mistérios sem desvendá-los. Essas versões concedem uma idéia clara das possibilidades que podem ser trabalhadas nessa coalizão, assim como as maneiras pelas quais o Narrador pode modificar, descartar ou até mesmo criar suas próprias versões sobre os mitos dessa coalizão. As ferramentas descritas na introdução do livro são fenomenais no que diz respeito às abordagens e formas de integrar o VII numa crônica e as opiniões dos autores são um ótimo diferencial para o suplemento.
Classificação do Vasco: |
|
| Apresentação do produto: | 6 |
| Ambientação do conteúdo: | 7 |
| Mecânica das regras: | 7 |
| Arte e diagramação: |
6 |
| NOTA FINAL: | 6,5 |
O que faltou pro 10?
Apesar de tudo, julgo que esse é um dos livros de coalizão mais pobres no que diz respeito a originalidade. Embora a versão dos “Principes da Cidade Perdida” comece bem, ela logo perde o foco: o tema da vingança eterna acaba se tornando algo tedioso e batido, piorando ainda mais com a inclusão de “pactos com demônios” no contexto — fica forçado mesmo diante da explicação com o fanatismo religioso. Ao meu ver, faltou um trabalho mais apurado de desenvolvimento desta história. Cuidado com os detalhes faz toda a diferença.
“Os TraÃdos” é a versão mais fraca; a inclusão de “novas casas” para sustentar o nome da seita parece uma explicação feita à s pressas. A última versão foi uma verdadeira surpresa. Quando li a introdução de “Os Adormecidos“, imaginei que seria a mais sem pé nem cabeça, mas, para a minha surpresa, acabou sendo a que mais gostei. A explicação sobre um experimento vitoriano se encaixa muito bem em qualquer cidade que tenha membros da “Ordo Dracul”, possibilitando uma interação maior entre os jogadores, além dos integrantes da coalizão não terem certeza (e as vezes nem mesmo a consciência) se eles mesmo são ou não os próprios assassinos que procuram, enriquecendo os personagens como um todo. Realmente, uma surpresa agradável.
Concluindo, o livro de coalizão VII foi um livro supervalorizado. Devido à expectativa criada antes do lançamento, eu esperava mais. Mesmo assim, ele apresenta algumas surpresas agradáveis aos leitores fiéis.
