Revolta Saladínica: Terror no Brasil
Postado no dia 18 de julho de 2009 por Rogério Saladino em Artigos
Ah Terror, o Terror…
Como não poderia deixar de ser, dois dos estilos literários que eu mais gosto são o Terror e a Ficção. O problema principal de ser fã desses dois gêneros é que eles são consideravelmente menosprezados (especialmente o terror) por produtores, mídia, crítica e… Por todas as pessoas que fazem acontecer os filmes pra cinema, séries pra TV e diversas adaptações para outras mídias.
Claro que, procurando bem, é fácil encontrar coisas bem legais aqui e ali surgindo em canais não convencionais — ou não tão convencionais assim — mas isso não diminui o fato do gêneros ser meio deixado de lado pelos “grandes e famosos”. Afinal de contas, quando foi a última vez que um filme de terror ou suspense teve verdadeiro destaque na mídia cinematográfica mundial? Digo, destaque de verdade, de ter fulano elogiando o filme, os atores, o diretor e etc? Em 1991, O Silêncio dos Inocentes ganhou vários dos grandes prêmios (melhor ator, melhor atriz, melhor diretor e melhor filme), e olha que foi o primeiro terror a ganhar a estatueta de melhor filme (e o prêmio da Academia existe desde 1927, façam as contas).
Isso faz pensar “será que não houve excelentes filmes de terror antes de 1991?”. Claro que sim, mas como são considerados um ramo menor do cinema, muita gente não presta a atenção devida. Pensa logo de cara que todo e qualquer filme considerado de terror acompanha uma trama idiota, pessoas morrendo de forma sangrenta e besta, com efeitos especiais toscos e atuações sofríveis. O que não é exatamente verdade.
Os grandes filmes são sobre grandes histórias, e o terror já gerou histórias que ficaram marcadas profundamente na cultura popular, como Psicose, Pássaros, Alien – O Oitavo Passageiro, O Exorcista, Hellraiser — Renascido do Inferno, Coração Satânico e o próprio Silêncio dos Inocentes. Isso só pra citar alguns dentre muitos, muitos outros.
Hoje em dia, a coisa está um pouco melhor, é verdade. Ainda temos gente que acredita que filmes de terror são um bom filão e que merecem alguma atenção — principalmente por conta do público fiel — mas ainda existe um baita ranço por parte de muita gente.
Pra não dizer que estou falando por falar, vou dar dois exemplos:
Rob Zombie’s “Halloween”
O primeiro filme do gênero slasher (aqueles que tem um maníaco do mal que sai matando um montão de gente), e que é considerado um dos melhores e mais assustadores da história do cinema, ganhou uma refilmagem em 2007, sob a visão de Rob Zombie, que além de músico e diretor, também escreveu excelentes histórias em quadrinhos e está terminando de produzir a animação The Haunted World of El Superbeasto (O Mundo Assombrado de El Superbeasto).
Zombie já tinha acertado a mão com A Casa dos Mil Corpos (The House of Thousand Corpses, de 2003), filme bacana, aflitivo em partes e consideravelmente legal. Tá certo que ele meio que se perdeu em Rejeitados pelo Diabo (Devil’s Reject, de 2005), continuação de A Casa… Decepcionou bastante. Bom, aí convidam o senhor Zombie pra fazer a versão dele de Halloween, que é um filme marcante, conhecido e etc. Saiu o filme. Não ficou lá grandes coisas, tem falhas enormes, mas é um título comercial e com apelo.
Só que não foi lançado por aqui ainda! O filme é de 2007 e vai chegar nos nossos cinemas no dia 27 de julho deste ano, se não tiver nenhum outro adiamento. Até lá, Zombie já estará terminando a pós produção a continuação, Halloween II. O espectador brasileiro vai assistir ao primeiro filme, e depois de pouco mais de trinta dias, a continuação sairá nos cinemas norte-americanos. Chega a ser uma piada esse atraso, já que Transformers 2: A Vingança dos Derrotados foi exibido no Brasil ANTES dos EUA…
O Último Trem
Um dos meus autores favoritos é Clive Barker, que escreveu Raça das Trevas, Trama da Maldade, Jogo da Perdição, Hellraiser e Livros de Sangue. Ele tem um estilo estranho, que mistura escatologia com idéias bizarras e descrições bem viajadas. Depois de ver adaptações sofríveis de seus contos, resolveu ele mesmo adaptar uma história sua, o que resultou num dos filmes mais arrepiantes dos anos 80 (e, obviamente, um dos meus favoritos): Hellraiser.
Uma das coisas mais legais e inovadores no trabalho do Barker, seja em livros como nos filmes, é a estranheza. Aquela sensação que permeava a história inteira de que tinha algo muito errado, mas você não sabe dizer exatamente onde e o quê. Não importa onde a ação se passava, chegava um momento que dava pra sentir que tinha algo errado, que você não estava mais no seu mundo confortável e conhecido, e que algo ruim, muito ruim (e igualmente sangrento e dolorido) estava prestes a acontecer. Isso ficava bem claro nos livros e é um dos pontos altos do estilo do autor. Esse tipo de estranheza era bem difícil de se adaptar pra filmes, e o Barker só conseguiu mesmo no primeiro Hellraiser. Nos outros filmes que dirigiu/escreveu/produziu, não tinha esse elemento tão essencial presente na obra dele, o que é uma pena.
Mas aí, em 2008, um diretor japonês chamado Ryûhei Kitamura fez mais uma adaptação de um conto de Clive Barker. Kitamura tinha chamado a atenção do ocidente em 2000 com o filme Versus, barato, violento, com lutas, zumbis, ficção científica, reencarnação, tiroteio etc., mostrando que o diretor, além de ser meio maluco em conseguir juntar tudo isso, era muito bom e tinha algo que a gente sempre quer encontrar num filme: estilo.
Ele pegou um conto bem estranho, O Trem de Carne da Meia-Noite (The Midnight Meat Train), que figurava em Os Livros de Sangue, e adaptou para um filme de 100 minutos, que aqui ganhou o título de O Último Trem. Foi aí que conseguimos que aquela estranheza assustadora do trabalho do Clive Barker voltasse a aparecer na tela de prata: o filme tem o estilo do diretor estampado em cada cena, o que transforma a versão dele do conto naquilo que toda adaptação deveria ser, uma reinterpretação precisa, uma transposição de mídias que mantém a intenção do original, com elementos da nova mídia, preservando o estilo do autor original.
O filme é pesado, sombrio, frio, com cores depressivas alternadas com seqüências de violência e escatologia que servem pra ficar atirando o espectador de um lado pra outro, de um extremo para o outro. Como no livro. Um tremendo filme de terror, com uma trama estranha e misteriosa, com um assassino que mete medo só de olhar (interpretado genialmente pelo Vinnie Jones, que tem apenas uma fala no filme inteiro).
Aí o leitor pergunta “mas, e aí, Saladino, porque está falando tudo isso desse filme, se o assunto era o desprezo dos grandões pelo terror?”, calma que eu explico. Esse excelente filme de terror, com estilo/visual decente e cativante, foi direto pra DVD aqui no Brasil. Ao mesmo tempo que saiu nos cinemas o péssimo Dia dos Namorados Macabro 3D.
Revolta Xiita?
Para não parecer que eu sou daqueles fãs bestas que só querem defender o que gostam, totalmente alheios à realidade, vou explicar parte da minha revolta: entendo que terror não é um gênero que atrai tanta gente para os cinemas quanto uma comédia romântica ou um filme de ação da moda. Nem estou falando que um filme de terror deveria ter um lançamento como um Harry Potter, uma continuação do Bourne ou algo assim. Só não entendo porque Dia dos Namorados Macabro, que é uma refilmagem ruim de um filme que originalmente já era ruim (e só foi feito no embalo do sucesso de Halloween), foi lançado com uma certa divulgação e até alguma badalação, enquanto o próprio Halloween do Rob Zombie ficou na geladeira por dois anos?!?! Por que promover um e não o outro?
Qual é o critério que faz uma distribuidora colocar nos cinemas um filme de terror fraco, investir em divulgação e etc. e esquecer um outro filme de terror, que é um pouco melhor (não necessariamente uma obra-prima, mas um pouquinho melhor)? Depois as distribuidoras saem dizendo que não compensa investir no terror, o que não é surpresa alguma, já que investiu num filme porcaria, que não ia dar em nada, não importando o investimento!
Ou seja, um pouco de má-vontade, misturada com preconceito e falta de informação (o terrível casal que parece sempre andar junto) e temperada com uma tremenda miopia quanto ao público resultam num grande desprezo ao gênero terror no Brasil. Eu elogio todas as iniciativas em se divulgar os filmes, curtas, livros e similares, assim como aplaudo as poucas tentativas de se lançarem filmes de terror nas salas nacionais e as distribuidoras que fazem um trabalho pesado nessa área. Por favor, não achem que não percebo o esforço de vocês. Eu fico revoltado é com o descaso daqueles que não fazem nada e saem com justificativas prontas e fracas.
Existe um Final Feliz para o Terror no Brasil?
Existe um bom mercado. Pode não ser um mercado milionário, mas é um mercado maduro e fiel, que deveria ser aproveitado de uma forma mais inteligente. Produtos de qualidade não faltam, temos até uma ótima (e muito divertida) produção nacional, que não pode ser deixada de lado!
Que tal começarmos um pequeno movimento caseiro pró-Terror? Chegar num cinema que está passando algum filme paia e sair dizendo em voz alta “ah, não está passando Halloween (ou outro filme de terror a sua escolha), vamos para outro cinema, que está passando”. Chegar na locadora e perguntar “Já chegou Alma Perdida? Não? Ah, vou na outra locadora, que lá tem”. Vai que funciona…
Quando a gente ameaça gastar nosso dinheiro no concorrente, as tais certezas de mercado parecem mudar rapidinho.







































9 Comentários
Shin
18 de julho de 2009
Olá Saladino!
Excelente artigo. Me recorda a gravação dos “Zumbis Caseiros” que houve aqui no dZsystem (ou seria d3system?
)
Achei que a ideia é muito interessante e muito bem vinda, acredito que mesmo os filmes “B” são uma coisa interessante, e o que mais me agrada na minha TV a cabo (aqui onde moro não existe canais abertos de qualidade, mal temos a Globo) é um canal onde só passa filmes e coisas “B”.
Particularmente eu não gosto de terror, mas acredito que falta pessoas que gostem e tenham aquele “feeling” que somente um apaixonado por terror tem.
E é algo que você possui, falta apenas uma pessoa nesse estilo entrar no meio de cinema e fazer a coisa acontecer
Para finalizar,
Aqui na universidade da região tem um grupo de pessoas que fazem “pequenas / cutas filmagens” de filmes de terror, inclusive com sangue artificial, moto-serra e efeitos especiais muito bons.
É uma pena não ter uma empresa que consiga colocar isso para o cinema ou mesmo fazer um evento de amostra dessa cultura.
Aquele abraço!
Cya!
Tio Nitro
18 de julho de 2009
Beleza Saladino! Espero ver muitos artigos seus por aqui! Clive Barker é o cara, o mega-mass fodão do terror, sou fascinado com a literatura dele (mas a parte de terrorzão, não os Sacramento da vida, argh!).
G
19 de julho de 2009
Belo artigo, mas faltou lembrar que o Gênero “Terror” virou nos últimos tempos suspense ou ação, como em Jogos Mortais por ex. Sim, não é a mesma coisa, mas é infelizmente a realidade que os produtores produziram.
Aproveitando, Clive Barker tem um livro maravilhoso chamado “O Desfiladeiro do Medo” que reli umas duas vezes e me arrepia a cada vez.
Clayton Mamedes
20 de julho de 2009
Excelente artigo! Creio q tbm vale mencionar a inacreditável onde de remakes (na grande maioria de qualidade duvidosa) que invadiu o cinema de horror nos ultimos tempos…no começo do ano cheguei a ver em cartaz o original espanhol (REC) e o remake americano (Quarentena).
Esse fenomeno é benefico?
LeoXorao
21 de julho de 2009
Depois que eu conheci vampiros que brilham em Crepusculo, comecei a alugar filmes antigos de terror, até palhaços assassinos com suas pipocas sanguessugas é melhor de assistir. A adrenalina é a intensão do genero, mas falta muita criatividade no mercado atual. E quando se tem um bom enredo os efeitos são um lixo.
Leandro R. Fernandes
26 de julho de 2009
Antes do Halloween algo parecido aconteceu com Underworld – Anjos da Noite e os remakes d’O Massacre da Serra Elétrica e de Viagem Maldita. As boas surpresas costumam surgir somente em festivais – Audition, do Takashi Miike, eu vi pela primeira vez na mostra Alta Tensão, do Centro Cultural Banco do Brasil. Torço para que o Terror SP – Festival de Cinema Fantástico se consolide como uma boa opção anual aos fãs do gênero.
No caso de filmes de terror mais gore, os distribuidores costumam alegar que a censura 18 anos afasta público. Mas fazendo uma rápida pesquisa você acha que o próprio Dia dos Namorados Macabros 3D teve tal censura e foi lançado…Em locadoras ainda é pior, dado que chegam aqueles filmes ubber trash de animais gigantes (Tobe Hooper fazendo Crocodilo! Aonde vamos parar?) e ótimos filmes sobre os quais você lê em sites epecializados não dão nem sinal de vida na região inteira, ou quando dão aparece com títulos grotescos – Tale of Two Sisters vira…Medo.
Em relação ao destaque na mídia, você não acha que A Bruxa de Blair, Sexto Sentido e talvez Extermínio tiveram alguma repercussão mais ampla? Não em termos de premiação, mas algum rebuliço na divulgação, matérias sobre diretor (a construção do nome Shyamalan, a sua “marca” nos finais suspresa e certas comparações com Hitchcock; Boyle ressuscitando e atualizando filmes de “zumbi”), ator (Bruce Willis) e filme (o hype virtual sobre a Bruxa de Blair)?
Ana
27 de julho de 2009
Apesar de ser uma grande medrosa, adoro o gênero de terror (o que é uma contradição). Especialmente o RPG de Terror, volte e meia escrevo sobre isso no blog.
Mas faltam fãs, com certeza. E faltam filmes de qualidade no nosso parco mercado nacional.
Rogerio Saladino
29 de julho de 2009
Opa, demorei mas cheguei.
Vamos por partes:
Shin e Nitro: muito obrigado pela força!
G: o Terror não virou Suspense (que é outra coisa), mas tem gente que usa o segundo termo pra escapar do preconceito besta ou de outros rótulos. Tem muito filme que só é chamado de suspense para parecer mais inteligente, o que é uma besteira de marketing sem tamanho.
Clayton: a onda de remakes é e não é um benefício. Alguns remakes ficaram bem legais, e conseguem levar a história para um público novo, mais acostumado com a narrativa atual do cinema. Outros são deploráveis e absolutamente desnecessários.
Vale notar que a “onda” de remakes não é exatamente nova, muitos filmes da década de 50 e 60 são remakes!!! Alguns ficaram até clássicos.
LeoXorao: a coisa não é tão ruim assim. Pra começo de conversa, Crepúsculo não é terror e nunca foi pensado pra ser. É romance que, por acidente, tem vampiros bonitinhos. Tem coisa muito, muito boa saindo recentemente, quer ver só? Assista 30 Dias de Noite, um excelente filme de vampiro, baseado em quadrinhos, com uma ótima direção.
(os outros dois comentários eu respondo em outro comentário
)
Rogerio Saladino
29 de julho de 2009
Here we go again!
Leandro: Pois é, esse descaso me deixa besta de como ainda se tem esse tipo de atitude, baseada totalmente em achômetro. O próprio sucesso dos festivais e eventos mostra que essa estratégia é bem burrinha.
Em locadoras a coisa piora ainda mais e não é por culpa do pessoal das locadoras. Um dia escrevo aqui pra falar a respeito.
Os filmes que você citou tiveram sim algum destaque, mas não foi lá grande coisa se comparado com outros, da mesma época e de outros gêneros. A Bruxa de Blair ficou famosa pela campanha viral, que não era nada inédita. Se os críticos e a mídia acharam genial, bem, eles não conhecem direito do que falam, porque outros filmes já tinham feito o mesmo tipo de campanha… vinte anos antes (no caso do hediondo Canibal Holocausto). Sexto Sentido é um ótimo filme, mas apesar de ter sobrenatural é, essencialmente um suspense. Extermínio teve um excelente retorno comercial, mas também foi tratado como filme menor por aqui (apesar do sucesso lá fora).
A questão dos títulos é igualmente complicada. por vezes eu compreendo, outras não dá nem pra começar a entender a escolha estranha de nomes…
Ana: Não acho que faltem fãs. E o cinema nacional está caminhando pra ter boas produções. Somos o país de onde saiu o Zé do Caixão, nome que é admirado e estudado pelo mundo todo, e aqui é consideravelmente desprezado.
Uma vez vi uma matéria com o Zé do Caixão no centro de SP. A quantidade de pessoas que paravam ele pra conversar, pedir autógrafo, perguntar coisas, ou só aplaudir, era impressionante.
Tem bastante fã sim! Solta DVD oficial barato na mão do povo pra ver se não vende! Na Virada Cultural teve um ciclo só de filmes de terror e estava lotado. Precisa é ter mais coisa pra gente ver e a preço acessível, isso sim!
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