Capitalismo e a Arte sublime do RPG II
Postado no dia 5 de novembro de 2009 por Jaime Daniel em Artigos
E continuando o artigo, desta vez escrevendo mais para satisfazer a voracidade dos leitores!
Viver de RPG é um sonho para vários adeptos do hobby, mas ter uma livraria especializada nem tanto! Além de não atrair o glamour que muitos procuram (quero ser autor!), uma livraria especializada em RPG no Brasil não é exatamente a galinha dos ovos de ouro, não pode ser chamado de excelente negócio. Se fosse, provavelmente teríamos muitas mais abertas por aí, pois jogador de RPG gosta de dinheiro como todo mundo, concordam? Mas qual é o problema? É a crise? É o Lula? É a Devir? É a perseguição de ordens misteriosas ao RPG?
Nada disso, o problema é que não há um mercado de grande porte para o produto. Embora muito se discuta por aí qual seria o número de jogadores de RPG no Brasil, enquanto não se divulgar uma pesquisa com parâmetros definidos, só teremos especulações baseadas em opiniões pessoais e, no máximo, relatórios de vendas de uma OU outra editora, o que não adianta muito para uma pesquisa de mercado mais abrangente.
Há poucos dias, publicamos uma pesquisa aqui no d3system com uma amostragem de pouco mais de 400 entrevistados, mas não dá para considerá-la definitiva, pois não há como ter certeza se a amostra é satisfatória diante do fato de que o número de jogadores no Brasil ainda é algo enigmático que todos estimam, mas ninguém conhece!
Já discutimos sobre as tiragens de livros de RPG em outra ocasião. Mas a
exposição na mídia já pode servir para deduzirmos que livros como os da série Crepúsculo, de Stephenie Meyer, da editora Intrínseca, devem ter uma vendagem superior aos da linha Trevas, da Daemon, por exemplo. Ou seja, não é um grande incentivo para qualquer um que esteja pensando em grandes lucros investir vultosas somas em uma livraria especializada.
Mas é tão complicado assim gerenciar uma livraria de RPG?
Não, é relativamente fácil abrir uma livraria. A dificuldade é mantê-la aberta durante muitos anos…
A não ser que essa loja esteja numa capital com tradição e um bom número de jogadores, ela vai depender muito mais de vendas online do que de vendas presenciais. Isso exige um sistema de vendas eficiente e confiável, para evitar fraudes e confusões ( e, mesmo assim, elas ainda acontecem).
Mas, se estamos falando de lojas, temos que falar de suas mercadorias. Comecemos então com as publicações nacionais! Os artigos importados ficam para mais tarde.
Em geral, todas as editoras de RPG nacionais são muito solícitas e atenciosas, facilitando bastante o cumprimento dos compromissos assumidos pelas livrarias especializadas. Depois do cadastro, o cliente (normalmente, mas há deslizes…) recebe um press-release com as próximas publicações, imagem e preço de capa, para facilitar o planejamento das lojas especializadas, que, em 2009, habituaram-se a realizar a pré-venda. Uma livraria pode então fazer dois tipos de negociação com uma editora: Compra ou Consignação.
Compra é quando a loja ou livraria compra X exemplares do livro, provavelmente faturados para 30 dias, ou mais. Embora vários fatores possam influenciar o valor, uma compra tem algo em torno de 35% e 40% de desconto no preço de capa.
Já numa consignação, a loja pede um número Y de livros, podendo, num prazo que varia em média de 30 a 90 dias, devolver os livros que não vendeu, fazendo o acerto apenas da diferença. O problema é que o frete da devolução é pago pela loja, então fica claro que não é interessante para a livraria pedir um número de exemplares que não consiga vender.
Assim como na compra, vários fatores podem influenciar, mas em geral o desconto numa consignação varia de 30% a 35% do valor de capa.

Vamos exemplificar isso e mostrar um outro fato desconhecido por muitos, relacionado com preços de livros. Todo livro tem seu preço estipulado por sua editora, levando em conta a distribuição do mesmo. Vamos supor que meu livro Feitiços e Faniquitos, para me dar uma margem razoável de lucro, depois de descontados todos os custos da produção, precisa ser vendido às livrarias por R$ 20,00. Bem, para as livrarias comprarem esse livro por R$ 20,00, o lucro delas tem que ser de aproximadamente de 40% sobre o preço de venda final. Então o preço de capa do livro terá de ser R$ 20,00 + 40% desse valor final, totalizando então, R$ 33,40.
NOTA: Sim, é um cálculo simplista que só estamos citando para o melhor entendimento do leitor.
Mas por que o lucro de uma loja tem que ser 40%, se todo o trabalho de produção do livro é da editora? Bem, a livraria tem que pagar impostos, os salários dos funcionários, os custos do imóvel (algumas editoras, como a Devir, não trabalham com livrarias exclusivamente virtuais) e ainda lucrar, sem desconsiderar a possibilidade do livro não vender de imediato, podendo levar meses para ser vendido!
Fora isso, vender um livro como Feitiços e Faniquitos pelo mesmo preço de uma Livraria Cultura, Saraiva ou até da própria editora é pedir para não vender, então praticamente todas as livrarias especializadas oferecem descontos, diminuindo mais ainda seu lucro, mas oferecendo um atrativo aos clientes indecisos entre uma grande rede e uma “loja de RPG”.
Bom, então para a minha loja Dados Espalhados vender o livro Feitiços e Faniquitos da Zombie Dodo Studios, eu vou ter que colocar o preço do livro a R$ 30,00, ou até menos, diminuindo meu lucro, que já é baixo. E, para terem idéia, desde a abertura da d3store, NENHUM de nossos títulos chegou a 100 exemplares vendidos…
Mas e se a editora, que por acaso também é loja, resolvesse vender o livro diretamente ao público consumidor por R$ 20,00?
Perguntaram ao Douglas Reis, um dos sócios da Devir Livraria, em uma das edições do EIRPG por que era mais barato comprar livros nas lojas especializadas do que na própria Terramedia, loja associada à editora dele. Lembro que, espantado com a pergunta, o Douglas respondeu: “Ora, se eu vendesse a um preço mais baixo, seria uma concorrência desleal, pois meu lucro já está calculado no preço final do livro que vai ser vendido à livraria, e eu não vou querer concorrer com meu cliente, pois isso seria estúpido!”.
Sim, porque, se uma editora vendesse um livro para minha loja por um preço
e resolvesse vendê-lo mais barato em seu próprio site no lançamento, eu e todas as livrarias seríamos prejudicados, e isso seria uma grande deslealdade da editora com seus clientes.
Eu iria pensar seriamente em não trabalhar mais com essa empresa…
Ah, mas isso prejudica a loja, não o jogador!
A primeira impressão é essa, porém é necessário enxergar mais longe…
Continuaremos esse papo depois!


































20 Comentários
Daniel Anand
5 de novembro de 2009
Fantástica essa série, Jaime. Vai abrir a cabeça de muita gente por aí, muito obrigado pelo insight!
cochise
5 de novembro de 2009
só lembrando que uma livraria tem um lucro tão alto por produto simplesmente porque vende pouco.. Livros de grande tiragem, (harry porter, Dan Brown, Crepúsculo, etc) tem um “preço por página” menor que livros de mesmo tamanho de desconhecidos porque vendme mais.
A livraria só pode se dar ao luxo de reduzir o lucro de produtos que saiba que vendem.
No dia Que o Players Handbook vender como O Código daVinci as livrarias podem fazer algo
Fabio Moron
5 de novembro de 2009
Interessante… lojas de rpg realmente devem sofrer… Aqui em Sorocaba tem uma só e creio que sobreviva mais de venda de cards de magic e pokemon do que livros de rpg (meu Livro de Nod ficou lá por uns 6 meses até eu finalmente compra-lo)…
Three Beggars
5 de novembro de 2009
Grande Jaime,
O artigo promete ser deveras esclarecedor, estou novamente ansioso e no aguardo da continuação.
A pesquisa que foi publicada aqui anteriormente foi realizada através de questionários enviados por e-mail? em caso negativo essa não seria uma boa ideia?
Shin
5 de novembro de 2009
Realmente é uma coisa a se pensar.
Eu gostaria de abrir uma loja especializada em RPG, mas iria adicionar mais “pimenta” a brincadeira.
Provavelmetne teria locais para se jogar RPG, teria “emprestimos de livros” para se jogar enquanto estiver nas dependencias da loja.
Teria támbém aluguel de miniaturas e mapas de batalha, assim como convenio com pizzarias (afinal RPG sem pizza não é RPG!)
Claro que tudo isso é apenas baseando nas poucas pessoas que jogam RPG aqui na cidade.
Mas claro, isso pode ir mais longe do que penso.
Abraços
Chico
5 de novembro de 2009
Gostei muito do post. É incrível como esses posts sobre o mercado de rpg me parecem tão interessantes.
Só uma observação. Não sou um expert em vendas, mas vender um livro de R$ 20,00 a R$ 28,00 gera um lucro de 40% sobre o preço de custo. Porém, se tratando de um lucro de 40% sobre o preço de venda do livro significa revendê-lo ao consumidor por R$ 33,50.
Até!
Vinicius Zóio
5 de novembro de 2009
Esta séria está muito boa! ^^
Sempre bom poder discutir sobre o mercado!
Jaime Daniel
5 de novembro de 2009
Salve!
Anand: Como diria aquele filósofo amigo nosso, É NÓIS!!!
Cochise: SE esse dia chegasse, era tudo frete grátis!!!
Fabio: Eu tenho livro famoso na loja que nunca vendeu UM exemplar. Aliás, bem mais de um…
Three Beggars: Não participei da pesquisa, então não sei dar esclarecimentos sobre ela, quem deve saber um pouco mais é o d3.
Shin: São as boas idéias que fazem o diferencial. Se precisar de qualquer coisa…
Chico: Vixe, não é que vc tá certo? Obrigado, já arrumei os dados!
Vinicius: Nosso objetivo é falar a respeito para esclarecer dúvidas e inverdades. Discutir o mercado TAMBÉM ajuda a divulgar o hobby!
Obrigado pela participação!
Arquimago
6 de novembro de 2009
Muito interessante, como disseram, continuarei acompanhando para ter minhas duvidas exclarecidas e curiosidades saciadas!
Fabio Moron
6 de novembro de 2009
Shin,
Já pensei nisso também. Um lugar com varias salas para a galera marcar sessões, snack bar, xerox para fichas, biblioteca VIP. São coisas que dariam certo.
Jaime Daniel
6 de novembro de 2009
Salve!
Mais para frente eu planejo falar sobre clubes e associações de RPG, que acho que também será um assunto interessante!
Continuarei acompanhando os comentários e esclarecendo dúvidas que eu saiba responder.
Riketz
6 de novembro de 2009
Shin e Fabio Moron,
em minha cidade (Taboão da Serra) houve a realização deste sonho, uma livraria especializada em RPG com mesas para jogar, calendário de mesas, agendamento de aventuras, cadastr de mestres e jogadores, aluguel de livros e acessórios, só não tinha o convênio com pizzaria..
porém infelizmente o negócio não deu certo e “o Santuário”, que rar o nome da livraria fechou em alguns meses..
a AJOIP (associação de jogos de interpretação de papéis) está novamente com as atividades encerradas (mas na promessa de ser reativada em 2010) por conta de instabilidade financeira.. desta forma, não só estabelecimentos de RPG, como de qualquer ramo, demanda um estudo de mercado para verificar as possibilidades de sucesso, mas nada é garantia
O Trapaceiro
6 de novembro de 2009
Hola galera!
Então, esse esquema de ter mesas na loja de RPG é uma ótima idéia.
Na loja da Jambô aqui em Porto Alegre, eu ia direto com o meu grupo para jogar nas Sextas-Feiras, a gente tinha que ir com o pensamento assim “Hoje, não irei gastar nada, hoje não irei gastar …”
porque SEMPRE que a gente ia jogar, acabávamos levando alguma coisa da loja.
Tem um amigo meu que chegou a tirar o dinheiro da carteira antes de ir jogar para evitar o vício de comprar algo depois da partida nas mesas da Jambô, mas (in)felizmente ele tinha esquecido de tirar o cartão de crédito…
Me lembro que neste dia ele comprou um Dragão de R$170 cruéis!
A idéia que outros falaram de alugar miniaturas também é uma ótica sacada.
Abraços.
Túlio d Bard
7 de novembro de 2009
Aguardando o próximo artigo!
@cochise – Já estou até imaginando uma daquelas promoções da Submarino tipo conjunto de Livros Básicos D&D 4e por R$49,90.
Fabio Moron
7 de novembro de 2009
Riketz
Pois é… eu desisti da ideia ao levar mais a fundo a chance de esse sonho realmente virar realidade… Eu mesmo jogava Rpg no Hipermercado Extra, na praça de alimentação. E mesmo quando não iamos lá, era na casa de um dos jogadores.
Infelizmente uma loja/clube é inviavel pq as pessoas parecem não querer mais esse tipo de local (um lugar especifico).
Um dos jogadores matou a ideia com uma simples resposta: Vc pagaria pra jogar num lugar fechado, ou iria num lugar mais aberto, mas de graça?
Pois é =/
O Trapaceiro
7 de novembro de 2009
Mas o canal seria deixar os jogadores jogarem de graça no ambiente e deixar como bônus o aluguel de miniaturas e livros por exemplo.
Na Jambô as mesas ficam gratuitamente a disposição dos jogadores.
Abraços!
Fabio "Sooner" Macedo
23 de novembro de 2009
Bom ver esse tipo de informação divulgada em um site com a audiência do d3system, Jaime; cansa ficar repetindo estas coisas para (quase) todo mundo que encontro – agora é só apontar para a sua série de artigos
Mas sinceramente, estou cada vez mais convencido de que o modelo tiragem -> distribuidora -> lojista está fadado a virar história, especialmente em produtos de nicho, que vivem de baixas tiragens.
Há a questão do livro eletrônico e dos leitores (e-readers) quando estes ficarem mais baratos e sofisticados, mas antes mesmo disso se estabelecer (deve demorar muitos anos ainda), o negócio de impressão sob demanda (POD) já deve mudar um pouco as coisas.
Hoje em dia já tem serviços de POD razoáveis, inclusive no Brasil. Por enquanto, ainda funcionam voltados para o público de autores que querem publicar os seus trabalhos por conta própria, mas em breve vai ser muito interessante para as editoras lançar coisas via POD do que em tiragens que podem demorar anos para vender e dar lucro. Se é para ter lucro baixo, pelo menos que se poupe custos de armazenagem e afins, o que o POD permite.
E lojas… Cada vez mais estou convencido de que as lojas de RPG como as conhecemos hoje não vão durar. As que resistirão serão aquelas que se transformarem em centros de jogo – e não estou falando apenas de oferecer mesas e espaço, mas de promover eventos, ter capacidade de fazer pedidos de material na hora (online, via POD ou não) se maneira segura, e assim por diante.
Porque bem ou mal, pode até demorar, mas uma hora a grande maioria terá acesso à Internet e meios para comprar online. E não tem jeito, comprar online é muito, muito cômodo. Por mais que eu goste de chegar na loja/livraria e escolher, com a pulverização de material de todo tipo sendo lançado, não tem como nenhuma livraria ou loja ser realmente abrangente a ponto de superar a comodidade de pedir algo online.
Estava inclusive vendo as palestras na convenção anual do Camarilla Club (procurem no YouTube pelo canal whitewolf) e ficou bem implícito que eles estão trabalhando sim com a possibilidade das lojas físicas sumirem em pouco tempo. Os dados que divulgaram lá são de arrepiar: nos anos 90, estimava-se que haviam mais de 2 mil lojas nos EUA/Canadá; em 2000, quando foi feito o primeiro “censo”, o número era de cerca de 1000; no ano passado, era menos de 500. Por fim, eles reiteraram que continuarão apoiando as lojas físicas… “enquanto elas durarem”. Enquanto isso, o novo contrato de POD deles está avançando e deve sair em breve.
Não duvido nada se em 10 anos todas as editoras, inclusive a Wizards, passarem a lançar apenas os livros básicos em tiragens normais, com todo o resto saindo em formato eletrônico e em impressão sob demanda (a cópia do livro só é impressa quando o consumidor faz o pedido dela).
É esperar pra ver. /futurologia
Tek
14 de dezembro de 2009
Complementando o Shin, eu colocaria no mesmo local (em ambientes separados) também uma lan house com acesso á Internet, que provavelmente ajudaria a segurar os lucros.
André
17 de fevereiro de 2010
Eu estava com projeto de montar uma loja de rpg/card games, mas agora fiquei em dúvida. Foi muito esclarecedor.
Quem tiver experiência sobre negócios naarea de card games como Magic, yu-gio-oh, e RPG’s poderiam adicionar no msn para conversarmos?
andre_dkm@hotmail.com
se puder adicionar Jaime, tenho algumas dúvidas, agradeceria muito! =)
Jaime Daniel
26 de fevereiro de 2010
Olá André, somente agora vi seu comentário…
Olha, eu dificilmente entro no MSN, é mais fácil me achar no skype (d3store@d3system.com.br), twitter @jaimedaniel ou por e-mail mesmo…
abçs
Deixe seu Comentário