Shadowrun Brasil – Final

Postado no dia 16 de julho de 2008 por em Shadowrun

Essa é a última parte do cenário adaptado para Shadowrun 3ª Edição. Nada é muito inédito, mas deve ajudar os Mestres que continuam a jogar esse clássico de cyberpunk.

Em breve, teremos um PDF com o material completo e mais artigos sobre universos futuristas e cyberpunks.


A DISSOLUÇÃO DO CONGRESSO

Nos calcanhares dos ataques de guerrilha, e devido ao Poder Legislativo de várias capitais estar nas mãos de suplentes, foram convocadas eleições gerais para 15 de novembro de 2033. Apesar do temor geral, essas transcorreram sem quaisquer tipos de problemas. Os candidatos eleitos e os sucedidos confraternizaram-se pela ‘volta da democracia’. Mas os problemas pareciam perdurar. Três semanas antes da posse, um novo escândalo do orçamento abalou as estruturas de cada senador e deputado federal de Brasília, e todos os meios de comunicação e o público quase fizeram uma prece pela B.R.A.S.I.L.

Talvez, como uma das estranhezas do Sexto Mundo, essa prece malfeita foi atendida. No dia 01 de janeiro de 2033, data da posse dos novos legisladores, enquanto o Presidente Manfredini fazia seu pronunciamento, dezenas de aeronaves leves de pouso vertical cercaram o Congresso Nacional. Os jatos Mirage da FAB pouco puderam fazer para impedir a investida de cerca de cento e cinqüenta homens armados que tomaram a solenidade. Apesar do pânico, o presidente e quatro ministros conseguiram fugir, às custas de sete homens do corpo de segurança.

Após render os membros dos Dragões da Independência presentes, Felipe Carcará subiu ao palanque e, em rede nacional, informou que a B.R.A.S.I.L. tomava, a partir daquele momento, as rédeas da punição daqueles “congressistas vis e corruptos, que impediam o avanço nacional”. Trazendo o presidente da Câmara dos Deputados à frente das lentes da imprensa, Felipe ordenou-lhe confessar sua culpa nos escândalos de verbas e, em seguida, fuzilou-o. O grupamento de choque da polícia militar do Distrito Federal, após duas horas de negociação, decidiu que invadiria o local. Felipe ordenou a morte de um congressista a cada cinco minutos, caso essa ordem não fosse retirada. De alguma forma, todos os passos das autoridades eram previstos e respondidos à altura pelos invasores. No final do ‘Dia de Confraternização Universal’, quase todos os legisladores — sucessores e sucedidos — haviam morrido pelas armas dos Brigadeiros ou pelos disparos da própria PM.

Ao amanhecer do dia 02, quando o 4º Regimento de Cavalaria Blindada invadiu o prédio, restavam poucos invasores, entre eles o próprio Felipe Carcará, que se utilizando de sua magia, num efeito não identificado até hoje pelos catedráticos em magia da USP, derrubou toda a cúpula do Congresso sobre si, seus aliados e seus antagonistas. Os corpos dos quatro brigadeiros identificados pelas câmeras internas de segurança nunca foram encontrados. Houve quatro dias de luto nacional pelos mortos, além de novas eleições convocadas imediatamente.

Viagem Astral

— Nós tínhamos toda a situação sob controle tático. Secretamente, começamos a organizar a invasão. Segundos após a ordem de cortar o fornecimento de energia e água, nossa freqüência de rádio foi invadida por Felipe, dizendo que mataria um senador a cada cinco minutos se fizéssemos isso. Ordenamos silêncio total no rádio, mas mesmo assim eles sabiam EXATAMENTE o que fazíamos e quando. Para tudo eles tinham uma contra-resposta. Semanas depois, quando conseguimos analisar o local do conflito, nossos magos encontraram resquícios de alguma atividade mágica desconhecida no espaço astral do lugar.

— Parece que os terroristas usaram uma técnica muito avançada para superar nossas barreiras, tão avançada que nem os nossos melhores pesquisadores reconheciam! Nem preciso dizer o quanto isso nos deixou preocupados. Quem diabos lhes ensinou isso?

• Tenente Marcondes, sobre a frente de combate contra a B.R.A.S.I.L.

NASCE O ESTADO AMAZÔNICO

O conflito começou em 10 de fevereiro de 2034, quando uma frota de quase duzentas aeronaves paramilitares de três médias corporações multinacionais, acompanhadas de três grandes Dragões — Hualpa, uma serpente emplumada, Sirrurg e Laudenzack, dois dragões ocidentais — invadiram o espaço aéreo brasileiro. O SIVAM (Sistema de Vigilância da Amazônia) e as Guarnições de Selva constataram que as naves se dividiram em pelotões de meta-humanos, rumando para três campos de pouso: Zona Franca de Manaus, pistas de pouso ilegais ao norte de Rondônia e áreas improvisadas na reserva kaiapó, localizada ao sudoeste do Pará, descendo então a rodovia BR 158, tomando aeroportos e bases militares — sem fazer prisioneiros ou deixar sobreviventes — até atingirem a Serra dos Xavantes, na BR 153, em 14 de Fevereiro do mesmo ano. Dali, Laudenzack lançou seu ultimato: o governo brasileiro deveria entregar-lhes toda a região amazônica, pois agora eles eram os ‘guardiões da ecosfera’, e os únicos capazes de assegurar sua sobrevivência ante o desmatamento predatório iniciado em 2004. Caso contrário todo o arsenal militar tomado nas bases de Tocantins seria voltado contra o governo brasileiro, num ataque total que reduziria todas as grandes cidades de Goiás, inclusive a Capital, parcialmente vazia em decorrência do incidente de 1º de janeiro anterior, a escombros.

Caso esse poderio não fosse suficiente, as forças mágicas da Terra proclamariam sua vontade, como seria demonstrado na pajelança à ser realizada alguns dias depois, às margens do Rio Araguaia. O governo federal — cético quanto à sua incapacidade de rechaçar uma investida militar desse porte, aparentemente ridículo — decidiu agrupar suas forças em Brasília e aguardar a investida do triunvirato de Dragões e suas hordas de Orks, Elfos e Trolls. Nesse ínterim, as tropas invasoras também receberam seus reforços de Rondônia e da Zona Franca de Manaus, através dos aeroportos tomados. Surpreendentemente, guarnições do Movimento Armado dos Sem Terra dos estados do Nordeste anunciaram sua união às tropas, na esperança de que, com a tomada do poder e seu auxílio, tivessem liberdade para redistribuir os latifúndios daquela região. A legião crescia, mas mesmo assim não intimidava o presidente.

Sem o apoio de uma casa legislativa, dissolvida com a invasão do Congresso Nacional pela B.R.A.S.I.L. — Brigada Revolucionária Armada para Solução da Impunidade Legislativa — no ato de posse em janeiro último, o presidente ordenou o bombardeamento da cidade de Gurupi, base atual dos invasores. Nesse momento, o governo percebeu que a maioria das tribos indígenas e membros do MST da região havia entrado na guerra, assumindo uma postura favorável aos ‘guardiões’; dentre eles, destacaram-se dois índios das tribos panará e tupinambá e dois elfos sertanejos, que iriam se tornar mais tarde membros do Conselho Amazônico. Eles organizaram um ritual, na parte mais larga do Rio Araguaia, próximo à cidade de Santa Terezinha, no qual participaram membros das tribos Tupinambá, Kaiapó, Karajá-Aruanã, Xerentes, Xingu, Apinayê e Cateté, numa pajelança iniciada na noite de 15 de fevereiro.

Sabendo que o conflito era inevitável, os conselheiros das tribos invocaram as forças da mãe natureza, ‘O Grande Espírito Das Águas’, que se personificou numa cheia de enormes proporções, destruindo a barragem de Sete Quedas, aumentando o nível das águas dos rios Amazonas, Xingu, Iriri, Araguaia e seus afluentes, num raio de mais de seiscentos quilômetros, em menos de uma hora. Quando os jatos da Força Aérea Brasileira aproximavam-se de Serra Dourada, o céu tornou-se escuro, com nuvens negras cobrindo toda a região. Na pior tempestade tropical já registrada, as descargas eletromagnéticas danificaram todos os instrumentos das aeronaves, que se perderam em meio as matas, caindo ou sendo obrigadas a pousos de emergência no Parque Nacional do Araguaia. A violência da tormenta derrubou cabos de transmissão de luz e comunicação, provocando um blecaute em toda a região. O apelo tinha funcionado melhor do que se esperava, mas a natureza cobrara seu preço. À exceção dos pajés panarás, tupinambás, kaiapós e dos elfos sertanejos, nunca mais se teve notícia dos outros participantes dessa investida mágica. A cheia dos rios Xingu e Iriri nunca mais foi desfeita, tendo o leito dos rios aumentado permanentemente, criando uma barreira natural difícil de ser transposta.

Tendo perdido este embate, que fora chamado de “O Levante de Sete Quedas”, o governo brasileiro se viu obrigado a medidas drásticas. Infelizmente, as forças da OTAN e os aliados europeus não poderiam, face as Euroguerras, fornecer apoio ou auxílio militar. Tampouco as antigas potências norte-americanas, recém divididas entre o C.A.S. e a UNECAM, poderiam suprir nosso país com aquilo que não possuíam.

Numa tentativa desesperada de manter a coesão da República, o Presidente Manfredini decretou estado de sítio, convocando todas as tropas dos estados da região sul e sudeste para uma investida final a ser realizada no dia 18 do mesmo mês, Sábado de aleluia, contra os invasores. Na esperança de ganhar tempo, foi convocada uma reunião entre os líderes do autoproclamado Estado Amazônico e o governo brasileiro, para a manhã de 16 de fevereiro, na Esplanada dos Ministérios. Compareceram a essa reunião o Presidente e seus generais; pelos invasores, João Alberto da Silva, elfo sertanejo e um dos líderes do MAST; o pajé Wendigo Kaxinawá, da tribo antropofágica tupinambá; Hualpa, a serpente emplumada hispânica; Sirrurg, o Dragão Ocidental ameríndio e Laudenzack, o Dragão Ocidental brasileiro, visto pela primeira vez na ilha de Fernando de Noronha. Esperava-se que desta reunião fosse elaborado um tratado, a exemplo do ocorrido anteriormente em Denver – EUA , mas os generais tupiniquins acharam que com a eliminação dos líderes da invasão, o restante das tropas seria facilmente reprimido. O ataque do primeiro Grupamento das Agulhas Negras de Minas Gerais e do Pelotão dos Dragões da Independência — as duas tropas de elite nacionais — foi um massacre contra elas mesmas. O poderio mágico e físico dos cinco membros rebeldes mostrou-se mais eficaz e letal que os fuzis FAU de ambas as companhias, e em pouco mais de 45 minutos de combate os membros do conselho Amazônico alçaram vôo, deixando atrás de si mais de 50 mortos — entre eles o Presidente — e também uma frustrada unidade de infantaria antiaérea.

O novo comandante-em-chefe do Estado Brasileiro, Henrique Gomes Bachelard, rechaçou publicamente o ultimato da força amazônica, ordenando imediatamente uma retaliação total de todas as tropas disponíveis às cidades de Gurupi, Manaus e Porto Velho — além de quaisquer outras bases identificadas do inimigo. Mas Laudenzack e suas forças tinham outra idéia, iniciando naquela mesma noite uma marcha para Brasília, através da BR 153, impedindo o avanço dessas mesmas tropas. Em vista do estado de sítio, da ausência de um governante legalmente instituído, e temendo que caso saíssem vencedores, ver-se-iam novamente sob o jugo de uma ditadura militar, os governadores dos estados de RS, SC, PR, SP, RJ e ES amotinaram-se, ordenando que as tropas reunidas guardassem única e exclusivamente suas fronteiras.

Desprovidos desses reforços indispensáveis, o General Bachelard e suas tropas seriam facilmente derrotados pelo exército conjunto do inimigo, das hordas indígenas e dos milhares de sertanejos do MAST. Na manhã do dia 17, as tropas de Laudenzack invadiram e se estabeleceram em Brasília e nas cidades satélites, encontrando pouca ou nenhuma resistência. Batalhões da Bahia e sul do Maranhão e Piauí iniciaram suas decidas até as bases do inimigo, enquanto o restante da força aérea nordestina era dizimada pelas aeronaves e pelos próprios Dragões em vôo. Prevendo o desfecho iminente da guerra, o conselho do Estado Amazônico ordenou, no mesmo dia, que os habitantes da cidade evacuassem toda a capital e suas cidades vizinhas, tarefa coordenada pacificamente pelas tropas meta-humanas. Ao amanhecer do dia 18, o exército brasileiro iniciou o cerco à Brasília, sendo que 75% da população local havia sido retirada.

Houve uma nova tentativa, por parte de João Alberto da Silva, de entregar os protocolos do acordo firmado — ou quase — no dia 16. Quando, munido de uma bandeira de trégua, o líder do MAST e dois soldados se aproximaram das tendas da inteligência brasileira, foram alvejados por franco atiradores situados nas barricadas formadas na ponte Presidente Médici. Às 11:00h as barricadas do Estado Amazônico terminaram seu ajuntamento nas áreas das pontes de acesso às Avenidas L4-sul, das Nações e a área à margem do Palácio da Alvorada e da Lagoa do Jaburu. Às 11:15h, no acampamento da área da torre de TV, os comandantes receberam a notícia de que o líder do MAST era prisioneiro da força inimiga. A ordem foi imediata. A linha de frente das tropas meta-humanas passou a disparar morteiros nas tropas do exército, além de explodir as pontes de acesso. Dado o primeiro movimento, a invasão através de hovercrafts foi iniciada em massa, com uma perda de homens semelhante à ocorrida um século antes na Normandia. Mais de quatro mil homens, incluindo civis, perderam a vida neste dia, sem conseguir entretanto levar a cabo a retomada de Brasília. Impossibilitado de perpetuar uma guerra inútil, o General Bachelard foi “induzido” pelo que restou da Assembléia Legislativa a assinar o Tratado Separatista da Amazônia, que cedia a área à leste do rio Xingu e os Estados do Amapá, Roraima, Amazonas, Acre e a parte norte de Rondônia ao novo Estado Amazônico. Brasília — o Plano Piloto — ficou totalmente devastada com o combate, tornando-se inabitada até os dias atuais. O governo brasileiro caiu, sendo substituído por uma Junta Militar Provisória.

Os estados do sul amotinados, em vista da desestrutura da força militar do nordeste, e claramente possuindo 70% do PIB do país que se desfazia, declararam sua independência algumas semanas depois, formando a Confederação Independente Brasileira — CIB. Nos 18 meses subseqüentes, novas investidas por parte do Brasil, visando as duas novas nações, foram levadas adiante, com maior ou menor grau de sucesso. Essas investidas, aliadas à própria pressão interna dos movimentos civis, paramilitares e empresariais, acabaram por exaurir a capacidade combativa do país. Em março de 2036, o governo do Estado Amazônico e as Corporações Laudenzack reivindicaram, a exemplo do ocorrido na América do Norte, direito de exploração sobre as jazidas da Serra dos Carajás, e outras jazidas localizadas no Maranhão, Tocantins e Piauí, inclusive seus recursos hídricos e usinas hidrelétricas, num programa de ‘extração sustentada’ com o aval dos representantes indígenas, agora integrantes do Conselho Amazônico. Como parte do acordo proposto, a Laudenzack se comprometia a auxiliar o governo brasileiro a erguer novamente sua economia, desenvolvendo pesquisa em paracriaturas e melhorias biogenéticas num trabalho conjunto. Essa proposta foi inicialmente negada, mas com a eleição de 2037, ela foi retomada com novo fôlego, e acabou por ser aceita.

Análise de fitas trazidas a público anos depois demonstram que o então Presidente eleito, Willian Ferraz, fora financeiramente induzido a aceitar a proposta, convencendo inclusive outros membros do alto escalão do governo. Nenhuma dessas hipóteses podia ser confirmada com certeza, mas o fato é que o Presidente não se empenhou em desfazer os “boatos” que haviam sido lançados.

Corporações Laudenzack

As Corporações Laudenzack produzem uma infinidade de produtos, diversos deles através de fábricas assimiladas pelo Estado Amazônico quando da tomada da Zona Franca de Manaus. Desde veículos até o controle de hidrelétricas e extrativismo vegetal e mineral, passando pela pesquisa e controle de paraespécies, fabricação de remédios, computadores, eletro-eletrônicos e siderurgia.

Nessa área, em especial, destaca-se a produção do metal mágico e raro Orichalcum, resultante da fusão de ouro, prata, cobre e mercúrio, mantidos coesos através da magia. Apesar do empenho da Corporação em produzir esse item em grande escala, inclusive com a tomada da Jazida dos Carajás, o total de orichalcum vendido pela empresa ainda é pequeno.

A despeito de outras áreas industriais, a Zona Franca de Manaus e outras regiões industriais do Estado Amazônico pertencem unicamente a Laudenzack.

Após o término dos conflitos em grande escala, e a nova delineação de fronteiras brasileiras, amazonenses e da CIB, um novo embate aguardava as tropas meta-humanas estabelecidas em Manaus. Aproveitando-se do golpe de estado, na situação agora de total independência, a antiga Guiana Francesa tentou se apoderar das reservas minerais — principalmente ouro e diamante — do antigo estado do Amapá. Num conflito que durou vários meses, com batalhas esporádicas, até 2040 a questão não havia se resolvido definitivamente. Apesar da extensão temporal do conflito, o número de mortos e feridos não atingiu índices muito altos. Irritados com essa audácia, os membros do Conselho decidiram, em reunião no Teatro de Manaus, sede do Governo, que anexaria — nos próximos cinco anos — toda a área de floresta amazônica existente, assimilando ambas as Guianas, o Suriname e partes da Venezuela, Colômbia, Peru e Bolívia. Acordos foram firmados entre Aztlan e o estado inca-maia Quetzocuatal, forçando Peru e Bolívia a abdicarem, quase pacificamente, de partes de suas terras no ano seguinte (2038).

Venezuela e Colômbia não cederam tão facilmente, no entanto. Após enfrentamentos armados que duraram cerca de 3 anos (também até 2040), os países hispânicos, exauridos pelas guerras externa e interna, consentiram em ‘arrendar’ territórios, contanto que houvesse permissão para exploração comercial — mesmo que sob fortes impostos. Suriname e Guiana se uniram num único país, exigindo uma cadeira no Conselho Amazônico, ao invés de serem esmagados pelo poderio mágico-militar das três nações, e foram prontamente atendidos.

Em meio à deflagração internacional pela posse total da Amazônia, um dos principais membros do Conselho Amazônico abdicou. Boatos que Sirrurg estava descontente com a política de Laudenzack começaram a correr no final de 2038. Numa entrevista à revista Veja, anos mais tarde, um conselheiro yanomami não identificado afirma que ambos os dragões travaram inclusive combate físico e mágico para resolver suas desavenças. Nenhum desses boatos nunca foi confirmado — ou negado. O fato é que, após os tumultos raciais contra meta-humanos que varreram a América do Norte e os principais metroplexos da América do Sul, entre eles os grandes centros da CIB e do Brasil, culminando naquilo chamado de “A Noite da Fúria”, o dragão norte americano abandonou suas obrigações em fevereiro de 2039, nunca mais sendo visto. Eram notórias suas manifestações de desagrado ao tratamento que os meta-humanos vinham recebendo nos países surgidos das cinzas dos EUA e Canadá. Suspeita-se que Sirrurg seja o responsável pela derrubada do vôo 329 da Euroair, dois anos depois.

CONFLITO INTERNO

— Quando o bate-boca deixou de ser apenas isso, e os ânimos se exaltaram, com os Dragões ganhando os céus de Manaus, começando a se engalfinhar, a noite se iluminou em clarões escarlates, com o fogo partindo de ambos os combatentes.
— Trovões ribombaram das nuvens tropicais em direção ao campo aéreo de combate, aparentemente se estilhaçando nas defesas dos Dragões. Após alguns minutos de confronto mágico, com seus feitiços causando mais dano à cidade que ao oponente, ambos partiram para uma investida física, com garras do meu tamanho rasgando peles grossas como pedras.
— Pouco depois, eles caíram como uma estrela cadente na direção da catedral de Manaus, destruindo uma de suas torres e abrindo um buraco de vários metros no chão.
— A próxima coisa que vi foi o Dragão brasileiro alçar vôo, seguido por Sirrurg. Eles ficaram no ar durante alguns minutos, voando em círculos. Pareciam estar discutindo.
— Então, talvez lembrando que eram – ou foram, ao menos – aliados, Sirrurg partiu, nunca mais voltando.
— Quando Laudenzack pousou, quase dava para sentir seu desagrado e tristeza. Depois daquele dia, o Conselho ficou em recesso por duas semanas.

• extraído da revista Veja, traduzido de uma entrevista concedida por uma testemunha yanomami não identificada.

Após a resolução dos conflitos pela selva amazônica, em meados de 2041, e por desaprovar a manutenção da megacorporação de Laudenzack, que já colhia frutos de bioengenharia juntamente com o governo brasileiro, a serpente emplumada Hualpa retirou-se com suas tropas para a planície Iucatã, no que restara do México, permanecendo como um soberano revolucionário e anticorporações naquela região. Quando, em 2044, Aztlan nacionalizou todas as empresas de capital estrangeiro, sob forte pressão da empresa Aztecnológica, houve um início de confronto armado com empresas que tentaram manter suas propriedades. Usando essa confusão como cobertura, Aztlan anexou a maior parte do México, com exceção de Iucatã, onde as forças despertadas de Hualpa, auxiliadas pelas de Laudenzack e Quetzocuatal frustraram toda e qualquer tentativa de posse.

O CONSELHO

Os membros do conselho são o dragão Laudenzack, dono da corporação Laudenzack; Rapina, uma pajé da tribo panará, que participou do “Levante de Sete Quedas”; João Alberto da Silva, um elfo sertanejo ex-líder do MAST, que também guiou o espírito para aumentar o fluxo das águas do rio Xingu; o Wendigo Kaxinawá, membro da tribo tupinambá, conhecidos por sua grande força física e suas atitudes canibalescas; o representante da Guiana-Suriname, o yanomami-tumucumaque Waimiri e Claudomiro Veiga, babalorixá piauiense, antes pertencente ao Brasil, representante da comunidade mineradora de Carajás. Como membros beneméritos, de cadeira reservada, encontram-se Hualpa e Sirrurg, ausentes por motivos pessoais.

O NOVO BRASIL

“Sempre me disseram que o sertão ia virar mar. Eu nunca acreditei. Até que eu vi.”
— Maria das Graças Almeida, moradora do sertão pernambucano.

O Brasil perdeu boa parte de seu território, e agora é composto pelos estados do Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Bahia, Goiás, Sergipe e a parte norte de Minas Gerais, sudeste de Tocantins, e Mato Grosso do Sul.

Apesar de nominalmente o Mato Grosso e a área de pantanal do Mato Grosso do Sul pertencerem ao Brasil, essas terras se tornaram inabitáveis devido às violentas tempestades fluviais e de maná. Em estudos realizados com o Estado Amazônico, constatou-se dois fatores: as tempestades maná são semelhantes à aurora boreal, com um fluxo incontrolável de energia partindo da terra e das águas lamacentas, despedaçando qualquer objeto ou ser vivo inapto à magia; segundo, provavelmente face essas tempestades, uma enorme quantidade de paracriaturas se desenvolveu naquela região, com características de absorção de maná.

Algumas raças de meta-humanos se arriscam em meio a essas anomalias, tentando permanecer intactos e em segurança, estabelecendo-se como nômades, aproveitando ao máximo tudo que aquela terra restrita pode oferecer. A grande maioria desses ‘colonos’ são homens e mulheres despertadas que terminam por desenvolver maiores poderes mágicos, em consonância com o desequilíbrio místico daquela região. Entretanto, é sabido, mediante testes efetuados na Academia de Magia de Boa Vista, que tais ‘aumentos mágicos’ advém da região e não do indivíduo, como uma forma de equilíbrio para se enfrentar as agruras do pantanal.

O congresso nacional, destruído na revolta armada de 01 de janeiro de 2034, foi refeito na forma de um parlamento em 2038, após o ‘impeachment’ de William Ferraz, sob acusações de corrupção. O primeiro ministro indicado, Marcelo Gritti Neto, tem governado desde então.

Nos sertões onde outrora se encontrava a caatinga e os horrores da seca, hoje há uma região com mais vida vegetal e animal que antes, em vista de investimentos em irrigação e talvez outro fator determinante: alguns atribuem o fato à tecnologia empregada depois de 2038, mas as lendas populares falam de uma grande magia responsável pela mudança, parecida com a pajelança ocorrida em Novembro de 1998, quando um enorme incêndio devastou a região do então estado de Rondônia, obrigando os membros das reservas indígenas locais a invocar o poder da mãe Terra, muito antes da magia Despertar, para apagá-lo. O fato, noticiado com veemência e descrença na época, gerou histórias transmitidas pela tradição oral. Apesar dos cientistas afirmarem ser apenas uma coincidência, horas depois da dança ter terminado, uma chuva torrencial se precipitou sobre o incêndio.

Houve, no primeiro semestre de 2038, uma grande romaria em direção a Juazeiro e a barragem de Sobradinho, o mesmo ocorrendo para a Barragem de Itaparica, o Açude Boqueirão — na nascente do Rio Paraíba — e o Rio São Francisco, próximo à cidade de Piranhas. Esses romeiros e pagadores de promessas eram guiados por conselheiros e ‘padres’, com forte convicção teológica e (especula-se) tendência à magia hermética. Discute-se até hoje nos centros de antropologia do país se, ao menos alguns deles, não eram despertados. Reunindo-se em seus destinos, esses fiéis passaram dias em vigília, rezando e orando, enquanto seus guias se uniram numa corrente à margem das barragens quase secas e ao Rio São Francisco. Suspeita-se que todos os oradores mantiveram algum contato astral, já que simultaneamente – em todos os lugares de reunião – começou a chover torrencialmente. Esse fato, isoladamente, não causaria nenhum distúrbio no ecossistema árido comum àquela parte do globo. A diferença dessa chuva, segundo alegam os fiéis, seria a ‘vontade de Deus’. Daquele período em diante, todos os rios temporários do Nordeste, em maior ou menor grau, aumentaram seu fluxo, diminuindo — mas não cessando — a estiagem, poupando em parte o povo sertanejo.

Essa alteração climática, atribuída pelos especialistas ao fenômeno El Niño, trouxe muitos investimentos privados para a agricultura, enriquecimento dos grandes latifundiários e um aumento do PIB brasileiro. Entretanto, determinados problemas crônicos, como a distribuição de renda e a falta de saúde e saneamento básicos, ainda assolam o país. Com a perda da maioria de suas vias de escoamento da produção, devido à criação da Confederação Independente Brasileira, as exportações diminuíram para o cone sul, aumentando, entrementes, para a Europa devastada.

Com o aumento das lavouras — o Brasil hoje é um dos maiores produtores de alimento mundiais — o trabalho infantil quadruplicou, com a educação sendo negligenciada pelo governo e pela própria família.

A partir de 2041, num esforço conjunto de grandes corporações e o governo brasileiro, centenas de paraespécies não catalogadas foram reveladas ao mundo. As utilizações militares, para a saúde e outros fins de todas elas ainda vêm sendo estudadas, mas avanços importantes foram conseguidos na última década.

Estudos de bioengenharia têm sido realizados pelas universidades das três nações emergentes da antiga República Federativa do Brasil, com a CIB notadamente muito na dianteira.

Os anos que se seguiram a 2050 testemunharam o desenvolvimento do neuroterminal de sétima geração, agora do tamanho de um teclado. A bioeletrônica e a biotecnologia continuam a avançar, à medida que uma parcela significativa da humanidade tem escolhido se distanciar das falhas do corpo natural.

Embora algumas fronteiras ainda precisem ser definidas, e as ameaças de guerra ainda fervilhem, a situação encontra-se num estado relativamente calmo. Mas, num mundo Despertado, quanto tempo isso pode durar?

Leia também a Parte I, a Parte II e a Parte III.

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