Shadowrun Brasil – Parte I
Postado no dia 10 de março de 2008 por D3 em Shadowrun
Há algumas semanas, me mostraram o novo jogo de XBOX de Shadowrun. Eu nunca gostei de jogos de tiro, e certamente não tenho habilidade suficiente para me divertir com jogos de tiro contra outros jogadores.
Mesmo assim, uma coisa me chamou a atenção nesse novo Shadowrun. Ele se passa no Brasil, especificamente na área do litoral de São Paulo. Isso me lembrou do cenário adaptado que eu havia escrito para Shadowrun 3ª Edição, complementando minha campanha mais antiga de RPG.
Eu utilizei todas as citações que existiam nos livros sobre a América Central e do Sul e gerei um “livro de referência”, por assim dizer, onde jogamos durante algum tempo. O engraçado é que eu só mestrei um arco de aventuras nesse cenário — as demais histórias foram criadas pelos outros Mestres do meu antigo grupo, como o Fábio Novaes e o TiB.
Esse material já foi publicado no antigo site do Bira, o shadowrun.com.br, que se encontra desativado atualmente. Mesmo pertencendo à 3ª Edição, aproveito que “usaram” parte da minha idéia num game para lhes apresentar o mini-suplemento Shadowrun: Livro de Referência Brasil. Esse é um trabalho de fã, então não tem qualquer apelo comercial e pode ser usado, copiado e redistribuído por qualquer pessoa, contanto que citem a fonte e indiquem que os direitos autorais de Shadowrun pertencem à Fantasy Productions.
Lembrem-se de poupar munição e nunca confiar num dragão!
D3
I.TERRA MORTA
“Bem vindo ao meu pesadelo. É por ele que eu ando quando estou acordado. Portanto, não tenha medo”.
— Joana D’Arcos, shadowrunner de Cubatão, de uma música do Camisa de Vênus.
Neko Tsumetai aproximou-se do prédio de quatro andares, cinza avermelhado, com as marcas do tempo e do descuido subindo pelas paredes frontais. O tempo havia passado, mas São Paulo ainda era como se lembrava. O metroplexo agora se estendia quase até São Roque e Jundiaí, com dezenas de cidades aglutinadas ao ‘Enorme ABC’. A grande São Paulo era, realmente, grande.
Entretanto, o xamã urbano Gato se sentia em casa. A nuvem densa de poluição que começava a assentar com o cair da noite e a garoa fina, símbolo do que já chamara de lar, sugeria-lhe um toque de nostalgia.
Era hora de trabalhar. Dando mais alguns passos na direção da Portaria, Neko enfiou a mão dentro de seu sobretudo, certificando-se que sua Predador II ainda estava lá, retirando um saco de ervas secas. Ao passar pelos quatro membros de gangue, que gritavam entre si num linguajar das ruas quase hispânico, jogando cartas sentados no chão, ele esfarelou as ervas e recitou uma pequena canção, alterando suas feições para algo mais ocidental.
— Boa tarde — disse ao porteiro, num português arrastado — Vim ver um amigo. Peter Vasquez. Apartamento 301.
— Boa tarde. O Sr. Vasquevics está viajando. Deve retornar em quinze dias. Quer deixar algum recado?
— Diga-lhe que Neko esteve aqui. Até logo.
— Neko? Seu nome é Neko, hã… Tsumetai? Há um pacote para o senhor. Mas o Peter me disse que o senhor era japonês.
— Peter e sua discrição, pensou Tsumetai. Será que também falou que eu era um shadowrunner? Esticando sua mão para pegar o pacote e o envelope nele grudado, Gato quase não percebeu os dois mulatos se aproximando dele. Deixando o pacote sobre o balcão, Neko girou rapidamente, assumindo uma posição quase imperceptível de combate. O primeiro homem, passando casualmente a mão esquerda pela têmpora, afastou um dreadlock marrom, deixando transparecer uma neuroconexão e pressionado algum tipo de botão logo atrás dela. O segundo homem se aproximou, estendendo um dedo inquisitivo para Neko, balançando uma série de apetrechos — mágicos aparentemente — pendurados no braço de sua jaqueta preto azulada.
— Eu sou Jamir e tu num pode trazer sua bunda magra de fora e vim fazê truquizinho na nossa área, malaco. — O idioma das ruas era quase ininteligível para o xamã — Isso aqui tá protegido miliano, então vai lascando fora esse disfarce, ou o Mancha na Calçada aqui atrás vai mostrar porque tem esse nome.
— Que disfarce, babuíno? Tu tem noção de onde você tá e qualé tua tendência, seu pedra? — Infelizmente, além de difícil, o idioma das ruas também era um bocado ofensivo — Eu nem quero encrenca, mas o bicho pega se tu não largar mão dessa palha, sacou?
Neko pensou em erguer uma barreira, ou aumentar seus reflexos magicamente, mas decidiu aguardar até saber as reais intenções do suposto mago à sua frente.
— Seguinte, ratazana, magias hostis são proibidas nesse bairro. Nós tem patrulha pra garantir a parada, manja? E TODA magia que não pertence ao tronco é hostil. Se tu pretende fincar as patas aqui, japa, aconselho baixar o crânio e visitar o tronco. Essa noite. Falou sangue!
— Mas — Neko ficou confuso por alguns segundos; era fato que o Sexto Mundo tinha muitas coisas estranhas, mas isso era um absurdo — Que tronco, véio? E de que magia tu tá gorfando aí?
— Essa mascarazinha pra esconder tua cara japonesa de escritório não grudou, ratazana. O tronco fica na entrada da represa, beleza? Esteja lá, ou teja longe daqui.
— Estarei. Mas ratazana é a velha verde da tua mãe. Eu sou Gato.
O mago cuspiu no chão, deu um sorriso de escárnio e virou-se para ir, entendendo que seu recado havia sido dado. Mancha retornou para seus colegas, sentando-se no chão e reclamando sobre suas três cartas.
Uma bela recepção, imaginou Neko. Na certa, Vasquez guardara-lhe mais um ou dois pares de surpresas. Pegando de volta o pacote, o xamã abriu-o com pouca paciência, deixando cair seu disfarce mágico enquanto fazia isso. Dentro do pacote havia um pequeno gato de pelúcia com um chapéu de guaxinim, vestido como um cossaco russo, segurando uma chave e uma plaqueta dizendo ‘Leia a carta’ nas mãos cinzas.
Abrindo o envelope, Neko começou a ler:
“Caro Neko,
Sinto tê-lo tirado de teu refúgio em seu amado Japão, mas realmente necessito de sua ajuda. Nesse momento, estou severamente ocupado, vasculhando a rede em busca de uma cura para males que afligem outros amigos meus. Sei que tuas preocupações e responsabilidades são grandes, mas entre as dezenas de shadowrunners que conheço, nenhum aceitaria a missão que tenho de forma mais altruística que você, meu amigo.
Tenho urgência em recuperar determinados espécimes, únicos, de para-criaturas da empresa Votorantim Biochemicals Internacional e entregá-los à Corporação Laudenzack no Estado Amazônico. É fato que eu não deveria saber quem me contratou para tal, mas considerando o pagamento e a situação que o ensejou, tornou-se fácil fazer a Matriz localizá-los.
Deixe-me explicar mais detalhadamente. Na última corrida que participei, tive um aliado valioso de codinome Rad, indivíduo dotado de extrema velocidade e grandes aptidões físicas. Suspeito de emanações mágicas, apesar de não tê-lo visto soltar nenhum feitiço – pelo menos ao modo que você os faz. Esse indivíduo contraiu uma virose violenta, cujo antídoto só nos será fornecido mediante a entrega dos espécimes em questão.
Encontre-me, às 22:00 h de Quinta-feira, no Bar Ganhas. O endereço consta da lista.
Peter Vasquevics
P.S: A partir de agora meu sobrenome mudou, por motivo de segurança. O velho Vasquez tornou-se Vasquevics. Detalhe: não utilize seus dons mágicos no bairro. Os moradores não gostam.”
Qualquer possibilidade de irritação dissipou-se do espírito do xamã Gato ao abrir o presente e ler a carta. Vasquez, quer dizer, Vasquevics, tinha-lhe dado poucas informações, mas o pedido de um amigo sempre seria capaz de tirá-lo de seu lar. Ele guardou o gato russo de volta na caixa, pegou a chave, abriu o portão e entrou no apartamento de seu amigo, sob o atento olhar do porteiro e dos membros de gangue.
Às 21:50 horas, Neko chegou ao Bar Ganhas. Sentou-se no balcão e esperou. Às 22:15, Peter Vasquevics entrou correndo, com seus 1,75 m, sobretudo cinza escuro, suas conexões e espaços para chips brilhando na luz esparsa do ambiente. O bar estava cheio para um dia de semana, mas aquele era — deveria ser, pelo menos — um bar de runners, já que quase todos estavam armados e falavam baixo. Neko levantou-se para ir à direção do amigo. Quando o viu, Peter esticou o braço, no que parecia um cumprimento. Gato ergueu seu braço, mão e sorriso abertos. Vasquevics pegou-o pelo punho, instantaneamente arrastando-o para fora do bar, onde um furgão com um negro de músculos artificialmente bem-definidos aguardava no volante:
— Oi, Neko. Desculpe o atraso. Temos trabalho. Está armado?
A bateria de frases torpedeadas por Peter confundiu Neko, e quando percebeu, o furgão estava em movimento.
— Estou armado, sim, Peter. É um prazer revê-lo também. Pode me explicar porquê a pressa?
— Os FMP estão a poucos quilômetros da gente. Temos de correr. Esse no volante é Rad. Aquele sentado no fundo é Nio.
Rad não apresentava nenhum tipo de marcas bioeletrônicas no corpo, nenhum metal, nada aparente. Era de se esperar algo estranho num shadowrunner, mas não havia nada. Nio, no entanto, era a coisa mais estranha que se podia ver num ser humano, ou quase humano. Era um anão de coturnos brancos, desgastados, calça de moletom azul e sobretudo verde limão, barba por fazer, e o asseio aparente de quem mora nas ruas há anos.
— Quem são os FMP? E temos de correr para onde?
— São a Força Militar Policial…
— Os Ferrados e Mal Pagos, isso é que são — interrompeu o anão, com sua voz rouca, gargalhando em seguida.
— Vamos para o litoral — continuou Vasquevics — Até o complexo Votorantin, em Cubatão. É lá que estão os espécimes.
— E a minha vacina – resmungou Rad do volante.
— Você sabe que o litoral não é minha área — disse Neko em japonês — meu lugar é entre os prédios e telhados.
— Cubatão não é necessariamente litoral. É apenas uma forma de dizer. É a área mais poluída da Confederação Independente Brasileira. Todos o tipos de experimentos genéticos proibidos são realizados lá. Inclusive bioengenharia humana.
— Não parece um lugar muito bom para se viver — completou Neko.
— Eu sempre acreditei que as pessoas más, quando morriam, iam para o inferno. Agora sei que os patifes mortos em Cubatão acabam indo para um lugar melhor do que quando estavam vivos.
— Companhia — gritou Rad, mudando imediatamente de direção.
— Nio, cuide deles. Neko, guarda as costas do anão. Eu vou desorientar aquela libélula metálica. — Peter gritava, fazendo sua voz ecoar desagradavelmente dentro do ambiente fechado do furgão.
Duas viaturas da FMP os perseguia na entrada para a cidade. Neko ergueu uma proteção mágica e, imediatamente depois, Nio abriu a porta traseira do furgão, descarregando sua Ingram Valiant nos pneus dos policiais.
Vasquevics, por sua vez, encontrava-se numa espécie de transe, dois cabos pendendo de suas conexões enquanto seus dedos se moviam freneticamente no neuroterminal Sony CTY-360. O som do drone teleguiado foi se distanciando.
— Precisamos correr — concordou Neko — Vou nos manter protegidos.
— Votorratos a cinco minutos — avisou Rad, estacionando no acostamento. O Complexo Industrial de Cubatão era um amontoado de chaminés, derramando fumaça e fogo incessantemente, mas três grandes construções se destacavam naquela paisagem negra: A Laudenzack Componentes, A Petroquímica-Biogene Internacional, e a Votorantim-Biochemicals S/A. Certamente, deveria haver muita segurança naqueles complexos, apesar das ruas desertas que cercavam os portões.

Peter, Nio e Rad avançaram na direção da cerca, provavelmente eletrificada, e passaram a cortá-la com as ferramentas da mochila de Peter. Neko mantinha-se a cem metros deles; quando recebeu o sinal para entrarem, ele achou melhor tornar-se imperceptível para olhos curiosos.
Mas não pôde.
De alguma forma, aquela terra tinha sido tão castigada, anos seguidos, pela poluição despejada pelo homem, que a mãe Terra se recusava a permitir que os fios do maná passassem por ali. Neko agora era um mago sem magia. Que Gato o ajudasse.
Entrando pelo duto de elevador externo, Peter acionou seus olhos modificados, percebendo um rastro de calor no galpão, na saída do fosso onde desceram.Saindo cuidadosamente, não conseguiu definir para onde se dirigia esse rastro. Gesticulando com as mãos, ordenou à equipe que rapidamente se separasse, cobrindo a parte central do galpão, escondendo-se nas caixas de materiais eletrônicos amontoadas sem qualquer ordem.
Rad encontrava-se mais à frente, Ares Predador em punho, quando uma respiração profunda chamou-lhe a atenção. Era uma criatura quadrúpede, que se ergueu em duas patas, assemelhando-se a um tamanduá, com garras do tamanho de um punho, uma língua bifurcada e espinhosa brotando de seu focinho. Não houve tempo para ver muito mais que isso. Um baque surdo o arremessou a quatro metros da criatura e dois metros de sua arma. Imediatamente, Neko subiu numa das caixas, as duas katanas em punho, desferindo um golpe certeiro no dorso do animal. Rad, movendo-se mais rápido que o xamã pôde ver, acertou a criatura mais duas vezes, arremessando-a sobre os ombros à frente de Nio.
O anão de coturnos brancos pensou em disparar na criatura, mas foi atingido fortemente nas pernas pelo que parecia um chicote. Uma sombra cresceu atrás dele, erguendo-o do chão, e duas mãos enormes começaram a apertá-lo. Nio apontou sua metralhadora para o peito da criatura e afundou o dedo no gatilho, generosamente descarregando seu pente estendido de balas. Seguido do estrondo dos disparos veio o grito do anão, quase esmagado pela força do braço da criatura.
Vasquevics começou a destrancar a porta, esperando que seus companheiros dessem conta da ameaça, quando ele mesmo foi surpreendido por outra para-criatura, um Tetramandua tetradactylas, que o golpeou impiedosamente, arrancando suas neuroconexões literalmente na unha, deixando-o à beira da inconsciência.
— F%$#* da P*%$! Peter! — gritou Neko, arremessando-se na direção da criatura.
Enquanto Rad soltava Nio das garras moribundas da segunda criatura, Neko atravessou as costas do monstro com uma das espadas. Devido a esse espaço de tempo, Peter pôde se recuperar e disparar sua Ruger Super Warhawnk na cabeça do animal, liqüidando-o de vez.
Depois de ajudá-lo a levantar, Neko perguntou ao tecnauta:
— O que era aquilo? — disse, ofegante.
— Um símbolo nacional — respondeu Peter enquanto terminava de abrir a porta.
Um corredor branco se estendia até uma porta de vidro, com símbolos de perigo biológico gravados na porta.
— É aqui. Fiquem preparados!
Nio havia se recuperado o suficiente para ficar na retaguarda, enquanto Neko e Rad esperavam a abertura dessa nova barreira. O barulho de gás e a porta rangendo ao entrar na parede traziam promessas de encrenca. Dentro da sala havia quatro pequenas jaulas com seres parecidos com jacarés, menores e com membros proeminentes, aparentemente adormecidos. Peter destravou a primeira das jaulas e uma luz avermelhada e uma sirene irritante começou a soar na sala aquecida.
Correndo para os elevadores com uma das jaulas, eles utilizaram os cabos para subir, na esperança de não haver qualquer força antagônica esperando-os na saída. Sua esperança foi em vão. Próximo à grade estava um homem, desarmado, à espera deles. Ele puxou uma pequena haste de sua têmpora, dizendo uma frase ininteligível nela, assumindo posição de combate.
— Esse é meu — disse Rad.
— Pode ser perigoso. Já temos o que viemos buscar. — gritou Peter, apontado sua pistola automática para o funcionário da Votorantin.
— Não. Ele é meu — insistiu Rad, abaixando a arma do tecnauta. — Encontro vocês no carro.
Aceitando a oferta do inimigo, Rad passou a desferir golpes e acrobacias de caratê quase tão rápido quanto o funcionário podia bloqueá-los. O resto do grupo correu para o Furgão; com Peter sentado ao volante, eles aguardaram alguns minutos.
Pouco antes de decidir partir, deixando Rad para trás, este surgiu pela ravina, aparentemente ferido, seu braço esquerdo pendendo rente ao corpo, caminhando com dificuldade. Mal entrou na parte traseira do furgão, Peter disparou, seguindo na direção da Capital.
— O Sr. Laudenzack agradece seus préstimos — o Sr. Empresa à frente deles se comportava de forma indiferente ao desespero do tecnauta. Mesmo após ter entregado o espécime, Peter relutava em contrariar a empresa do Dragão ocidental, temendo não conseguir a cura para o mal de Rad. Afinal, foi em missão dentro duma empresa do próprio Laudenzack — a serviço do tecnauta — que o samurai urbano havia contraído esse vírus. A única forma de conseguir a vacina era fazer essa incursão que acabava agora. Mas a vontade dos dois shadowrunners era estourar aquele engravatado e terminar com isso. Recebendo a ampola com o líquido azulado, imediatamente Rad aplicou-a em seu braço, sentindo-se melhor. Teve o cuidado de guardar uma pequena dose para fazer novas injeções caso fosse preciso. Aquele médico das ruas alemão poderia cuidar disso.
E que o Dragão esperasse vingança.
Continua na Parte II




































Deixe seu Comentário