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Shadowrun Brasil — Parte II

1. Foi Assim…

“Quando a miséria supera a capacidade de resignação de um povo, as portas estão abertas para a revolta armadaâ€.

— Felipe Albuquerque de Sousa, Líder da B.R.A.S.I.L., morto em combate.

O Mundo de hoje, em 2060, é radicalmente diverso daquele de nossos tataravós. No planeta antes dominado por nações poderosas — que ameaçavam umas às outras com a aniquilação nuclear súbita — existem muitas nações autônomas bem menores e a autoridade das superpotências, antes imensa, foi assumida pelas empresas. Também nossa ciência e tecnologia nos distingue, seu nível atual faz os avanços anteriores parecerem experimentos infantis de feiras de ciências.

Mas não é apenas isso que divide, de forma irreversível, nosso período do passado. A magia emergiu novamente na Terra; vivemos num mundo Despertado.

1. Ascensão das Mega-Empresas

Tudo começou no final da década de 1990, quando se intensificaram os distúrbios civis que marcaram o fim do milênio. Alarmadas com a situação social e política, as empresas — em todas as partes do mundo — temiam confiar a segurança de seus bens a governos indiferentes ou, a seus olhos, incompetentes. Começando por suas filiais nos países do Terceiro Mundo, Brasil inclusive, onde se sentiam mais imediatamente ameaçadas, as empresas passaram a armar suas equipes de segurança com os equipamentos mais avançados existentes e a contratar mercenários profissionais em acordos de curto e longo prazo. Quando foi iniciada a onda de desobediência civil e violência urbana que engolfou cada nação do globo, as empresas começaram a transferir seus recursos paramilitares para onde estes se fizessem necessários. O cenário estava montado.

O início dos tumultos por comida na cidade Nova York, em 1999, foi a fagulha que acendeu o estopim. O povo tomou as ruas, desesperado e revoltado com a greve dos caminhoneiros, que interrompera por três meses a entrega de alimentos frescos. Centenas foram mortos e milhares ficaram feridos à medida que a violência se espalhava pela cidade e pelo mundo.

a) A União dos Oprimidos

Nesse ano, nos estados da Paraíba e Piauí, os diversos Movimentos dos Sem Terra - MST - até então descentralizados através do país, uniram-se sob o comando de Denis Albuquerque, um filho de posseiros, tenente reformado do exército brasileiro. Os movimentos do interior do Pará, Bahia, Pernambuco, Ceará, Alagoas e Rio Grande do Norte logo aderiram ao comando do tenente Albuquerque, inventariando armas, treinando ‘soldados’ e transformando os assentamentos em áreas militarmente organizadas. Alguns confrontos isolados, mas de grandes proporções, começaram a alastrar-se pelo interior do país.

Na cidade de Anhembi, à 325km de SP, cerca de vinte mil pessoas - inclusive mulheres e crianças - iniciaram uma marcha em direção à Campinas, em 19 de outubro de 1999, como protesto à impunidade dos assassinos de 19 sem terra mortos em Eldorado dos Carajás, 3 anos e meio antes. Não tendo suas reivindicações atendidas em Campinas, partiram então para a capital, São Paulo, para uma audiência com o então governador Mário Covas. Impedidos, em 27 de outubro, de entrar no palácio dos Bandeirantes, sua frustração eclodiu num tremendo confronto com a Polícia Militar do estado, que resultou na morte de 800 pessoas entre os baleados e pisoteados no tumulto.

Determinado a impedir novas tragédias deste porte, o Governo Federal decretou ilegal qualquer tipo de associação com o intuito de pressão à reforma agrária. Como retaliação, e também para impedir abusos das forças militares de ‘dissociação’, o tenente Albuquerque ordenou uso de força letal para proteger os assentamentos existentes e as fazendas invadidas. Quase quatro mil pessoas morreram nos confrontos dos meses seguintes.

Paralelamente, a decisão Shiawase de 2001, na Suprema Corte Americana, que estabeleceu a extraterritorialidade das empresas multinacionais, foi reconhecida como convenção pelo governo brasileiro, sob pretexto de atração de investimentos estrangeiros, levando as grandes empresas nacionais - em especial as financeiras - a armarem seus corpos de segurança.

Nos estados da região Nordeste, onde os próprios latifundiários conhecidos como ‘coronéis’, mantinham unidades de ‘jagunços’ — capangas armados para manter as divisas de suas fazendas — essa nova situação tornou-se uma forma de legitimar suas milícias. Transferindo, apenas nominalmente, a posse das terras para empresas com sedes no Paraguai e outros países do Mercosul — tecnicamente multinacionais — eles conseguiam autorização federal para efetuar a manutenção dessas forças paramilitares. Pode-se dizer que este foi um dos fatores que contribuiu para o enorme número de mortes ocorrido entre o MST nesse período.

Com o novo status possuído pelas empresas, iniciou-se uma onda de pressões sobre o governo brasileiro para permissão de exploração incondicional dos recursos minerais do país, o que acabou sendo permitido, causando um desmatamento ‘controlado’ em grande escala, mesmo para as selvas amazônica e de mata atlântica, tão duramente castigadas por anos.

Apesar da onda de privatizações continuar, todas as empresas extrativistas mantinham algum grau de ligação e/ou dependência com o governo federal, diferente do ocorrido no período de 2002 a 2009 na América do Norte, que acabaria culminando com o atentado terrorista do grupo MOSIA, responsável pelo lançamento de um míssil nuclear americano sobre a Comunidade dos Países Independentes, em 05 de maio de 2009.

Entretanto, apesar dos esforços do presidente eleito em 2002 e reeleito em 2006, a onda de invasões e conflitos com o Movimento dos Sem Terra perdurou por anos a fio, ceifando a vida de policiais, oficiais do exército, forças paramilitares e dos próprios sem terra. A própria organização era acusada de envolvimento com o tráfico de drogas e reconhecida pela opinião pública e mundial como um movimento terrorista.

Adversidades

Os embates, prestes a explodir numa guerra civil, foram abafados pela infecção virótica do VITAS (Virally Induced Toxic Allergy Syndrome / Síndrome da Alergia Tóxica Viroticamente Induzida), que varreu o globo a partir do início de 2010. O primeiro caso foi identificado em Nova Deli, mas em poucas semanas foram registrados casos no mundo todo. Em face da precariedade do atendimento médico, e da falta de saneamento básico das cidades mais remotas do país, o Brasil foi duramente castigado pelo vírus, com uma porcentagem significativa de sua população tendo morrido ao final de 2010.

Por mais trágica que tenha sido, a VITAS foi apenas o início de um caos sem precedentes. Começando com a violenta dissolução do governo mexicano em 2011, mais governos caíram nos cinco anos seguintes do que em qualquer período de tempo de extensão aproximada na história. A fome tomou o mundo, aumentando o já enorme número de mortos. Protestos civis de grandes proporções resultaram em ataques a usinas nucleares na Europa, três das quais sofreram fusões nucleares. Houve precipitações radioativas longas e prejudiciais.

Nos calcanhares do VITAS, veio o fenômeno assustador que mais tarde seria chamado de Expressão Genética Obscura, ou EGO. No mundo inteiro, pais ‘normais’ começaram a gerar crianças mutantes e deformadas. A Newsweek batizou essas crianças de ‘elfos e anões’. Parecia que o Apocalipse afinal chegara. O ano 2011 é hoje lembrado como ‘O Ano do Caos’.

Com milagres e calamidades sendo registradas em todas as nações, religiões nasceram e morreram. Surgiram profetas, proclamando o fim do mundo. Em 24 de dezembro, no mesmo momento em que centenas de japoneses — ao passarem velozmente pelo Monte Fuji a bordo de um trem-bala — presenciavam a primeira aparição do grande Dragão Ryumyo, o profeta da Grande Dança do Espírito, o norte americano Daniel Coiote Uivante, conduziu seus seguidores para além dos portões do centro de reeducação, e um Dragão ocidental de pele avermelhada foi visto por centenas de turistas alçar vôo da ilha de Fernando de Noronha.
Já não havia mais dúvidas nessa época: a magia retornara ao mundo.

O Aparecimento do Dragão

— Eu tinha certeza que não havia sido alucinação. Enquanto pescava sossegado com minha família, apreciando os golfinhos saltando sobre a água, vi uma grande sombra crescer atrás de mim.

— De um só salto, a criatura se ergueu sobre a grama esparsa, lançando-se num vôo determinado rumo ao mar. Na passagem, arrebatou num único golpe o pobre golfinho. Não posso dizer com certeza a cor da criatura, mas o reflexo avermelhado do pôr do sol lhe dava essa tonalidade.
— Era realmente muito grande. Eu juro que estou dizendo a verdade. Você precisa acreditar em mim.
• Eduardo Marques Oliveira, bancário, em depoimento cedido ao jornal Notícias Populares em 25 de dezembro de 2011, sobre o aparecimento do Dragão Laudenzack em Fernando de Noronha.

O Sexto Mundo

O que é conhecido como Ano do Caos foi verdadeiramente o fim da idade antiga e o início da nova, o amanhecer do mundo Despertado. Alguns místicos apontam o calendário Maia como sendo profético, lembrando que ele prediz o começo de um novo ciclo para a humanidade em 24 de dezembro de 2011. Os mesmos místicos alegam que a aparição do dragão Ryumyo é o marco daquilo que os maias chamaram de o alvorecer do sexto mundo.
Tivessem pesquisado mais, esses sonhadores teriam descoberto que os Maias também predisseram uma hecatombe mundial que proclamaria o nascimento de uma nova e aperfeiçoada raça de seres humanos. Quais foram esses sinais e eventos? É verdade que o mundo enfrentou provações, desastres e grandes mudanças, mas não é um mundo novo. É ainda a boa e velha mãe Terra, mesmo que em nova fase.
Um modelo melhor para esse tipo de mudança é a alteração histórica de a.C. para d.C.. Ninguém vivo na época soube que ela aconteceu. Tendo sido revelada apenas mediante uma percepção tardia, foi necessário alterar o calendário para registrar a mudança.

O Inferno no Mundo

A partir de 2014, o Coiote Uivante iniciou uma revolução nos EUA que começou a desestruturar os países daquele continente. Utilizando-se do que alegava ser ‘magia’, ele permaneceu durante todo esse ano desafiando a autoridade do governo norte americano.

A República Livre da Irlanda foi estabelecida nesse período, bem como a dissolução completa do governo branco da Ãfrica do Sul. Em 2015, grandes tribos de ‘Pés-Grande’ desceram as encostas do Aconcágua, em direção às vilas chilenas da região de Viña Del Mar, buscando alimento. A primeira reação do povo daquelas cidades foi — como é do espírito humano — a violência.

Novos incidentes foram registrados por todo aquele ano. Em outubro, a Argentina, sob o comando do General Alencar, declarou que as Ilhas Malvinas seriam novamente anexadas à seu território. Face aos problemas que a Inglaterra enfrentava, em decorrência do vírus VITAS, a única resposta daquele país foi um desagravo junto à ONU.

Um acordo, firmado em 12 de agosto de 2016, garantiu apoio militar do Chile à Argentina, em caso de necessidade, o que viria a ser utilizado posteriormente na guerra contra os Cartéis Bolivianos, culminando com a proclamação da República Cisplatina, anos mais tarde.

Em 2016, o presidente americano Garrety foi assassinado. Logo em seguida ocorreram também os assassinatos do Presidente da Rússia, Nikolai Chelenko; da primeira-ministra Lena Rodale da Grã-Bretanha, e do Ministro Chain Shon de Israel.

Em 2018, após o ano anterior ter sido repleto de catástrofes atribuídas à Coiote Uivante e seus Dançarinos do Espírito, os governos dos EUA, Canadá e México forjaram o pacto de Denver, onde a maior parte da região oeste da América do Norte tornou-se uma nova Nação.

Outros acontecimentos importantes desse ano foram a explosão em órbita do ônibus espacial América, que matou 300 cidadãos na Austrália, e a criação, pelo Dr. Hosato Hikita, da ESP Systems Incorporation de Chicago, da primeira geração do Sistema de Indução Sensória Artificial. Enquanto a indústria de entretenimento começou a explorar desvairadamente os aspectos comerciais do sensorama, outros pesquisadores viram a tecnologia como uma solução para o controle da explosão de dados.

Os movimentos de guerra de guerrilha intensificaram-se nos países da América Central, com Golpes Militares sucessivos ocorrendo em El Salvador, Nicarágua, Costa Rica, Honduras e Guatemala, numa guerra civil sem fronteiras se espalhando por toda a ligação ístmica entre os grandes continentes do Novo Mundo.

Mutação

Em 30 de abril de 2021, iniciou-se um fenômeno totalmente inexplicado. Por todo o mundo, um entre cada dez homens e mulheres subitamente mutaram em formas humanóides horrendas. Para alguns, o processo foi curto e indolor. Outros passaram dias ou semanas hospitalizados. Alguns se recuperaram, enquanto outros morreram gritando em agonia. Naquelas semanas horríveis, duas novas raças de humanos emergiram como flores primaveris sob o sol Despertado.

“Mutação†ou “Kawaru†foi o nome dado pelos meios de comunicação a esse processo aparentemente catastrófico, que era apenas mais um sinal da reemergência da magia. Os estudiosos têm seus próprios nomes para isso, palavras incrivelmente polissilábicas ou fileiras de consoantes formando fileiras de palavras aparentemente desconexas. Mas, seja qual for o nome, o resultado é sempre o mesmo.

Nenhuma raça ou grupo étnico foi poupado quando 10% da população mundial se transformou em criaturas que logo seriam batizadas de Orks e Trolls, projetando os sombrios mitos nórdicos nas mudanças físicas sofridas pelas vítimas.

A maioria desses desafortunados ficou traumatizada pela experiência. E, se não, seus entes queridos ficaram. Alguns entenderam o nome que lhes foi conferido pela imprensa como uma licença para agir como os duendes e monstros das lendas, gerando muitos incidentes violentos.

Tivesse o fenômeno terminado aqui, os danos psicológicos certamente seriam curados depois de certo tempo. Mas algumas crianças normais também começaram a mudar à medida que cresciam, juntando-se às legiões dos assim chamados Orks e Trolls. Esses ou se juntaram à sua própria espécie ou se casaram com almas de coração aberto que podiam ver através das conchas físicas. Algumas vezes essas uniões geravam proles normais; em outras, produziam os novos tipos raciais. Mas nem todas as crianças normais permaneceram dessa forma. Muitas passaram subitamente pela mutação durante a puberdade; mais uma vez, o trauma terrível e seus desajustes decorrentes circularam pela comunidade.

Conforme fora noticiado mais tarde, durante os conflitos que precederam a derrubada do Congresso Nacional pelos terroristas da B.R.A.S.I.L., dezenas — senão centenas — de indígenas e moradores de áreas litorâneas também mudaram para formas semi-senscientes, com uma compulsão pelas regiões de floresta densa, batizados de curupiras, bois-tatá e outros seres místicos. Ao menos um incidente foi noticiado num Haras na região da Serra da Mantiqueira, na cidade de Lambari, onde todos os cavalos destruíram os celeiros, deixando-os em chamas, fugindo para a Mata Atlântica num frenesi de fogo, segundo testemunhas, que brotava de suas crinas e cabeças. Nenhuma dessas criaturas jamais foi recapturada.

A EGO, a mutação e a violência por elas causadas preocuparam as pessoas da Terra durante a maior parte do ano seguinte. Até então a cor e a religião haviam sido a grande barreira entre os homens, mas agora as pessoas do planeta começavam a odiar e temer as novas raças que surgiam: elfos, anões, Orks e Trolls. No ano de 2022, conflitos raciais varreram o globo numa escala jamais vista. Em meio ao tumulto, novas nações emergiram, quando estados separaram-se das nações que tinham-nas colonizado ou coalesceram a partir de duas ou mais unidades.

Na América do Sul, as mudanças mais importantes foram a criação da Nação Cisplatina, do Estado Militar de Livre Comércio do Paraguai (EMLICOMP), e da Coalizão Independente Cali Bogotá Medellin, surgido de um golpe militar de guerrilheiros e cartéis de droga da Colômbia, a noroeste daquele país. Apesar dos conflitos sangrentos que se seguiriam, e face a baixa militarização do Brasil, a maior faixa territorial coesa e sob um mesmo governo passou a ser nossa República Federativa, que só começou a dissolver-se após 2029.

Numa tentativa inútil de controle, o governo dos Estados Unidos declarou lei marcial durante vários meses, enquanto da Rússia e de outras nações na Comunidade dos Estados Independentes pingavam relatos a respeito de mortes em grande escala. Temendo por suas vidas, muitos dos seres mutantes buscaram refúgio no submundo, no campo ou em comunidades de suas próprias espécies.

O ‘Grande Êxodo’, como ficou conhecida a investida federal brasileira para contenção do fenômeno, foi marcada por meses de peregrinações das novas raças em direção a cidades santas, como Conceição Aparecida, Juazeiro do Norte e Salvador. As cidades de Niterói, Parati e Angra dos Reis tornaram-se o maior refúgio élfico do planeta, até a criação do Tir Tairngire. Por sua vez, a ilha de Florianópolis foi quase totalmente tomada por Orks e Trolls advindos de Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul, boa parte deles por ordem governamental.

As grandes concentrações de meta-humanos começavam a beirar o limite possível antes de explodir em confrontos, quando outro espectro mais pavoroso que qualquer ork ou troll ergueu a cabeça na forma de uma nova onda da praga VITAS. Enquanto mais uma parte da população mundial caía diante do ataque furioso das pestes, a violência racial arrefeceu, unindo pelo mundo humanos e novas raças.

Foi nesse ano sombrio que a Data e em seguida a Veja, revistas de notícias sobre eletrônica e variedades, respectivamente, criou o termo despertados para os meta-humanos e as outras formas de vida que haviam surgido recentemente.

Veja também a Parte I

Continua na Parte III

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