Shadowrun: Decisões Infelizes II

Postado no dia 10 de novembro de 2008 por em Shadowrun

Segunda parte do prólogo da narrativa dos nossos personagens de Shadowrun. Lembrando que o livro de referência diagramado pode ser encontrado no artigo anterior.

Decisões Infelizes — Parte II

Cheguei ao local por volta das 21:50 h. Peter estacionou sua van. Um grupo como este chamaria a atenção em outros locais, mas em São Paulo era fácil passar despercebido. Ninguém olha mais diretamente para você; esta é uma metrópole movimentada e tenebrosa — um olhar errado pode transformar um cidadão comum em mais uma vítima.

Quando todos chegaram, Peter repassou o plano umas três vezes, meticuloso como sempre:
— Vamos entrar como uma firma de limpeza, bem simples. Remarquei a visita da equipe original para outro dia, entrando no sistema deles, mas não alterei a agenda da própria SonMitsu. Eles ainda esperam a chegada dos faxineiros. Seremos nós.
Ele jogou o crachá do chefe da limpeza para mim. Eu estava segurando um esfregão na fotografia inventada pelo tecnauta. Antes que eu pudesse reclamar, ele completou:
– Pelo menos você é o chefe.
– Engraçadinho, sabe que eu odeio sujeira e vive me provocando.
Bem que ele podia ter arrumado outra rota de entrada; e ainda por cima teremos que usar macacões azuis. Odeio azul.
Colocamos a logomarca na van e seguimos em frente. A entrada foi simples. A partir do portão, descemos para a garagem. Não percebi nenhuma suspeita nos guardas quanto a nossa presença.
Normalmente, o tecnauta nem chega a sair com o grupo, mas Peter gosta de sentir a adrenalina também. Ele tem o costume de abrir o sistema antes e pegar algumas senhas básicas, tornando nossa incursão mais “saudável”, por assim dizer.
Ele indicou no mapa o local que procurávamos. Seguimos mais alguns minutos por corredores, encontrando somente funcionários comuns da empresa.

— Não é incrível como ninguém presta atenção nos faxineiros? — Disse Rad, mais resmungando do que afirmando qualquer coisa.

Paramos numa porta, ingressamos em um setor mais vazio e utilizamos as senhas roubadas para avançar. Uma vez na área privativa da empresa, trocamos os macacões por jalecos. Eu uso as minhas próprias roupas, já que prefiro me passar por um guarda-costas.
— Peter, e as câmeras? — perguntei, falando baixo.
— Estão rodando imagens repetidas, nem vão saber quem esteve aqui. Vamos por este corredor. A partir deste ponto, não tenho mais as senhas, vamos ter que improvisar.

A parte boa é que os improvisos dele eram quase tão letais quanto os planos. Melhor eu ir na frente como segurança, será mais fácil se (ou quando) aparecer alguém.
— Dever ser nesta sala — disse Peter. A porta era de metal sólido — Vou acessar daqui, me cubram.
— Vai demorar com esta p*&%$ dessa porta, Peter? — MC é um cara bom, pena que é muito impaciente. Acho que são as dores de cabeça. Uma bola de golfe incrustada no crânio deve incomodar.
— Nem vou pedir paciência, MC. Somente um pouco de silêncio.
— Se você não fosse tão útil, tecnauta, eu…

Um ruído e o som de alguém cantarolando deixou bem claro que tínhamos companhia.

– Era o que eu precisava para me aquecer. — Rad estalou os ossos do pescoço. Quase dava para ver as linhas de maná envolvendo seus músculos; quer dizer, EU quase conseguia ver.

Rad avançou na direção do guarda, que ficou tão surpreso ao ver um cientista tão veloz que era impossível se defender; fico imaginando seus pensamentos: “como pode um cientista ser tão rápido?”. Ele caiu com um único golpe.
– Você não o matou, espero. – perguntou Peter.
– Claro que não! Por isso eu fui antes do MC. — respondeu Rad
– Hunf! — Bufou MC.
– Pronto. Consegui. Não vai dar para segurar os alarmes se ativarmos algumas das defesas internas.
A sala era gelada, como um freezer. Duas caixas de vidro blindado, trancadas, continham equipamentos eletrônicos e tubos de ensaio. Outras tinham braços, pernas e mãos cibernéticas. Um cofre de vidro no centro da sala abrigava nosso alvo; estávamos “subtraindo” (porque roubar é feio) uma maleta com um tipo de armadura externa. Ela parecia composta de um metal super-resistente e leve; pequenos geradores estavam encaixados nas laterais dos braços.
Enquanto Peter tentava entrar no sistema de segurança da sala, MC se precipitou.
— Deve ser apenas um censor de movimentos. Deixa eu testar.
Ele pegou uma cápsula em seu bolso e jogou para dentro da sala; a cena chega a ser engraçada, pois nada aconteceu.
— Não deve ter nada. Vamos logo.
Ele avançou para o interior da sala com sua arrogância padrão e, claro, foi pego desprevenido.
— NÃO ENTRE — gritou Rad, tentando alertá-lo. Ele deve ter ouvido algo com sua audição aprimorada, mas era tarde demais.
O zunido, similar a um assovio, e o barulho de metal indicavam que ele ativara uma armadilha.
– Droga. Que p*&%@ é essa?
Ele se movimentou rápido e se jogou atrás de uma bancada, mas a vindicator cuspiu fogo incessantemente contra ele.
– Vai, Peter, desliga logo esta merda. – gritava o corajoso MC — Vai me partir no meio, caramba!
– Vou ter que entrar direto, vai ser mais rápido. – respondeu Peter, jogando múltiplas senhas no sistema, sobrepondo-o com os programas que ele tinha, tentando conseguir acesso a alguma coisa — qualquer coisa.
— Neko, não tem como fazer alguma magia? — gritou Rad, se escondendo dos ricochetes das centenas de disparos da metralhadora.
– Eu teria que ficar na linha de tiro… é impossível.
– Vai à merda Peter! Desliga essa porra! Vou ter que resolver sozinho?

Ele sacou a sub-metralhadora e descarregou o pente, mas a tentativa não surtiu efeito. A vindicator estava bem protegida na parede, coberta com duas placas de metal blindado, tornando mais difícil que ajudássemos. A situação estava cada vez mais feia, os alarmes estavam zunindo, e as luzes do corredor mudaram.
– Consegui! — gritou Peter. — Agora saia daí, diabos!

O funcionamento da arma letal foi interrompido e MC abandonou a sala com seu olhar sombrio, fingindo tranqüilidade. Como se ele não tivesse quase morrido!

– VAMOS LOGO! – ele disse.

Ele avançou até a maleta que estava em frente à porta, chamando a atenção como uma isca fatal. Erguendo-a, achamos que seria uma perda de tempo tentar abri-la naquele momento.
Enquanto nos movimentávamos para o corredor, Rad entrou na sala com velocidade, apanhou um tubo de ensaio e se virou para a porta:

— Neko, isso deve valer algum dinheiro, certo?

Como eu já estava na curva do corredor, com bastante pressa de sair daquele lugar, Rad abriu o frasco, sentiu o cheiro do líquido, fechou-o novamente e o guardou no bolso da jaqueta. Se ele soubesse japonês, teria lido “ Corporações Laudenzack” no rótulo.
— Nossa saída mais fácil agora é pelos dutos de ventilação. — disse Peter, recolhendo seu neuro-terminal — Não vai ser confortável, mas pelo menos não seremos detidos pelos drones de segurança.

Esta era nossa melhor rota, mas o final dos dutos nos levaria para um confronto ainda pior. A travessia não chegou a ser tranqüila, mas foi necessária para todos. Ela terminou numa área de “Carga de Descarga”, onde demos de cara com um grupo de 5 guardas. Estes pareciam bem mais preparados — ou seja, nem pediram para pararmos, já sacaram as armas e começaram a disparar.
— Maldição! A segurança foi dobrada pelo alarme. PROTEJAM-SE. — gritei.
— Abre isso, Vasques! — MC berrou, jogando a maleta na direção do tecnauta — vamos ver para que serve.
— Tudo eu, cacete! – Peter se jogou atrás de uma empilhadeira e começou a mexer nas trancas da maleta.
Os guardas assumiram uma formação padrão e não paravam de atirar. Pelo som, não parecia que estavam usando munição letal — ainda.
Rad, em silêncio, retirou sua arma e se escondeu nas sombras de uma caixa. Eu mesmo quase não o vi agachado. Ele atirou contra um dos guardas, que tombou e não se levantou mais. MC também atirava como um desesperado, e jogou o segundo pente descarregado de sua arma. Num guarda! Esse é abusado.
Eu peguei em meu bolso um sache com ervas… achei que seria engraçado fazê-los sentir o “fedor” de seu próprio medo. Eu sou um Xamã Gato, afinal. Não teria graça se eu simplesmente os matasse ali mesmo… eles teriam que me respeitar. Me posicionei sobre uma caixa e lancei o feitiço. Já ciente do efeito, comecei a rir em voz alta.
– Sai daí seu louco — Peter gritou para mim. Depois jogou a maleta rente ao chão, que foi deslizando até os pés do MC. — Pega e abre, mas eu não aconselho usar. Vai saber os efeitos colaterais disso.
— Problema é meu! Você tem doutorado nisso por acaso? Eu não morri com coisa pior.
— Então tá bom. Só estou falando.

O exoesqueleto era de um material leve, mas não chegava a ser uma roupa. Era possível encaixá-lo sobre uma vestimenta ou mesmo uma armadura. Escondido atrás das caixas, MC ficou quieto durante um curto período. Quando se levantou, estava com 2 armas em punho, atirando feito um louco.
— Isso é muito bom, nem sinto o recuo das Predador. — ele não parecia muito bem… ou melhor, parecia bem demais, gritando e gargalhando.
Ele derrubou dois guardas enquanto falava conosco, Rad acertou mais um e o último fugiu pelo corredor.
– Vamos aproveitar esta “janela”. Certeza que ele voltará com ajuda letal desta vez.


Depois de tirar o exo-esqueleto do MC, que estava quase morto, levamos ele ao único “médico” disponível — O Doutor Hans Chucruts. Depois eu conto como ele é. Digamos que era nossa única escolha MESMO!
Na noite seguinte, fomos encontrar o Senhor Johnson, nosso contato e comprador. Antes de receber seu pagamento, Rad já estava tendo calafrios.

01 Comentário

Duncan Salazar

5 de dezembro de 2008

Doutor Hans Chucrutes??? Dançou! Espero que ele não esteja atendendo ao Pica pau primeiro…

Boa sorte, e lembre-se da máxima: Never deal with a dragon kemosabe.

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