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Uma coisa é uma coisa. Outra coisa é…

Em vias do lançamento da 4ª Edição do D&D, voltamos à velha discussão: “o bom e velho AD&D” vs. “o videogame de mesa da 4E” (ou, dependendo de qual lado se está, “o antiquado e complicado AD&D” vs. “o fenômeno do inovação na 4E“). Sei que essa polêmica não é exclusividade do pessoal do D&D (tem um rolo qualquer entre o pessoal do WoD, com “velho mundo” e “novo mundo”), por isso resolvi parar para respirar da tradução e escrever aqui um pouco sobre o assunto.

Para explicar minha opinião sobre essa polêmica, vou contar parte da minha experiência como RPGista. Para conhecer um pouco (ou relembrar) das coisas sobre as quais vou falar, cliquem nos links (e sintam-se tão velho como eu me senti escrevendo). Sei que isso é um porre de chato, mas vou tentar segurar a onda e poupá-los do cheiro de naftalina nessa conversa.

Conheci o RPG através da série de livros-jogos Aventuras Fantásticas, da extinta Marques Saraiva (a versão brasileira da linha Fighting Fantasy Gamebooks). Talvez por isso eu tenha escolhido Titan, o Mundo das Aventuras Fantásticas como cenário para minhas campanhas, quando comecei a mestrar em meados de 1997. Desde então, uso Allansia, Khul e o Mundo Antigo (os três continentes desse cenário) como pano de fundo a minha campanha de RPG favorita. A parte pertinente desse meu parágrafo saudosista é que o livro básico do cenário de Titan não aborda regra nenhuma — ele só descreve a ambientação.

Titan, o Mundo das Aventuras Fantásticas

No começo, eu usava o sistema de regras das Aventuras Fantásticas (Habilidade, Energia e Sorte), por uma sutil indicação do próprio livro de cenário. Depois descobri o Dungeoneer e o Blacksand! e adotei o sistema avançado de regras (com direito a perícias e encantamentos personalizados! Vejam só que avanço!). Só abandonei esse sistema quando ganhei o D&D da Grow. Aprendi e adotei as regras do sistema novo, mas mantive a história, cenários, heróis, vilões e tudo com estava. Tudo se encaixou com perfeição. Jogamos bastante (e as regras para personagens até o 10º nível que saíram na DB #4 foram valiosíssimas) e, tempo vai, conversa vem, acabei conhecendo o empolgante kit do First Quest. Ele foi só a porta de entrada pro que seria o que eu chamo de “meus anos dourados do RPG” (quem é que não tem os seus?).

First Quest

Foi por causa do First Quest que eu juntei um semestre todo de mesada e condução para comprar os três livrões do Pacote AD&D da Abril. Como não podia deixar de ser, mergulhei de cabeça no universo de tabelas, porcentagens e outras complexidades da segunda edição. Nessa época do AD&D foi quando meu grupo mais tinha tempo pra jogar RPG e é aqui no próximo parágrafo que está a parte mais saudosista da coisa toda.

Realmente “aprendi o que é RPG” nessa época: entendi como fazer de uma partida de RPG uma atividade que vai além de um simples faz-de-conta-com-regras. Fiz dezenas de (ótimos) amigos e conheci lugares magníficos (reais e fictícios). No fundo, escutei/contei/participei de algumas das histórias mais legais que já conheci na vida. Curto falar sobre, contar, relembrar e desenvolver muitas delas até hoje. Seja dentro ou fora do contexto do RPG.

Ok, parei. Voltando. :-)

Pouco antes do anúncio da conversão para 3.0, consegui colocar as mãos num exemplar do Livro do Jogador 3E. Foi paixão á primeira vista. A nova edição trouxe mais padronização e eu gosto bastante disso. As raças e classes eram mais moduladas e traziam uma compatibilidade que possibilitava abordagens nunca antes imaginadas nos universos de D&D (”orc paladino? anão mago? dragão vampiro?”).

Mudamos as regras e a campanha continuou. Embora digam por aí que “a mistureba corrompeu o cenário” felizmente meu grupo soube usar isso pra enriquecer nosso mundo, e não para “corrompê-lo”. Mais tarde, realizamos as sutis conversões para v3.5 e cá estou eu, pasmem: sem sair de Titan e seguindo o mesmo arco de histórias. Com o Pathfinder RPG e o D&D 4E não está sendo diferente! Mesma história, regras diferentes! E agora estamos planejando até mesmo uma “festa junina de conversão” com a galera do grupo, com direito a fechamento de arco de campanha e tudo mais!

Players Handbook 4E ou Pathfinder RPG

Sinceramente, eu não entendo direito os motivos de toda essa rejeição a um novo sistema de regras para o D&D. Entendo (mas não concordo) com o lance do saudosismo e com todo o papo filosófico sobre “o ser humano que repudia sair da zona de conforto”, mas mesmo assim esse papo não me convence. No nosso grupo, optamos por evoluir em etapas: nossa campanha vai primeiro para o Pathfinder RPG, depois vamos jogar algumas aventuras soltas no D&D 4E. Se todo mundo curtir, a gente “evolui” de vez.

Particularmente, acho os dois novos sistemas mais práticos, equilibrado e inovadores. São melhores que o anterior (D&D 3.5) tanto didática quanto praticamente. O que eu acho engraçado é que parece que o vilão da história é o D&D 4E. Ele fala na língua da nova geração e talvez esse sim seja um problema. No entanto, o objetivo desse artigo não é julgar a qualidade dos dois novos sistema (eu já estou preparando um pra fazermos isso) e sim mostrar que talvez as pessoas estejam confundindo as coisas.

Eu não vejo dificuldade em conduzir minha história (que nasceu em Titan e está lá até hoje). Me divirto um bocado independente do sistema. Obviamente, existem regras que não nos agradaram, GURPS 2ª edição e o antigo Tagmar foram dois exemplos. Tentamos. Questão de gosto.

No final das contas, sempre que eu tenho que escolher o melhor para os rumos dessa campanha tão longa (e divertida) que eu venho jogando, escolho em prol da história. Obviamente, você deve jogar sua história usando um sistema de regras que preste e que melhor convier ao gosto de todo o grupo: algo que agrade a lógica, paciência e dinâmica dos jogadores e que caiba no tempo que o Narrador tem disponível para bolar aventuras, mas o importante é que o RPG seja divertido. RPG sem regras é teatro? Só com regras é xadrez? Meu conselho é: procure esse equilíbrio mágico que faz desse jogo uma atividade tão fascinante e tenha a mente sempre aberta para as novidades.

No meu caso, tem dado certo. :-D

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