Videogame de Papel (ou “A Malvada da WotC”)
Como eu já divulguei aqui no blog, participo da Ãrea RPG, uma movimentada lista de e-mails sobre RPG. Ocupado com o trabalho na tradução, eu dificilmente me intrometo, mas hoje começou uma discussão interessante exatamente sobre um assunto que eu abordei (muito por cima, por sinal) no piloto do d3Cast: D&D 4E ser chamado de “videogame de papel“. Tudo começou com essa entrevista e uma mensagem de um usuário chamado Raul, que dizia o seguinte:
Como foi dito na própria entrevista, se esses mesmos jogos copiaram conceitos de D&D por 20, 30 anos, por que essa chiadeira toda quando ocorre o contrario? Como designers de jogos, eles seriam muito tapados por não aproveitar uma boa idéia só porque saiu de um jogo de videogame.
Jogam isso para um lado tão negativo, mas quanta gente por ai não tenta fazer um personagem que luta com cimitarras e corre pelas paredes, bárbaros ou guerreiros com duas espadas flamejantes presas nos braços por correntes, e outras coisas do tipo?
Simplista? Não. Um argumento realista e prático. Nivelando por baixo, posso dizer que já tive contato com (no mÃnimo) uns trinta jogadores que tomam exatamente essa postura meio hipócrita de se levantar pra criticar o “videogame de papel” só pra ter assunto. Embora isso não seja exclusividade do RPG, parece que galera daqui do meio anda batendo recordes nesse quesito. Até quem não sabe nem o que a sigla D&D significa anda metendo o pau só pra desestressar.
Também somo nessa postura que o Raul citou, aquela parte da galera do animê/mangá, que vive tentando construir Gatz, Riey, Naruro, Avatar, Yusuke, “Iuguiô” e derivados no D&D (tantos que originaram o BESM d20). Nada contra, muito pelo contrário; enriquece e deixa o jogo com a cara/clima daquilo que os jogadores mais gostam, mas reclamar que os designers guinaram o D&D na sua direção é, no mÃnimo, burrice.
O Outro Lado da Moeda
Óbvio que falar só desse ponto fica tendencioso. Tem muita gente que simplesmente não gosta de games e mangá e que prefere outra abordagem, mas pra esses… Bom, pra esses teve um outro testemunho incrÃvel dado lá na lista por outro usuário, chamado Remo di Sconzi:
Eu adoro jogos de luta, daqueles bem primordiais, com torneios de artes marciais clandestinos sem lógica alguma (e à s vezes televisionados mundialmente), com organizações mirabolantes — mas que ficam mal das pernas quando você derrota o campeão/lÃder deles numa briga de socos. Eu gosto de jogar RPGs assim — com uma investigação ou fuga da polÃcia entre as lutas — e as regras da 4a. edição são perfeitas.
Mas eu também gosto de jogar aventuras parecidas com aquelas que eu leio em romances ou coisas do tipo, que compreendem um catupilhão a mais de coisas além dos combates mano-a-mano. Para isso, há plataformas de regras bem melhores que o D&D 4e.
Estou com ele e não abro. Se você está tentando jogar Ray Bradbury, H. P. Lovecraft e Anne Rice no D&D 4E, sinto muito, mas você está no sistema errado. D&D é pra quem gosta de Homero, Robert E. Howard, J. K. Rowling e R. A. Salvatore! Trazendo a analogia pro cinema, o D&D que eu jogo está longe do enredo de Excalibur, Lancelot e (pra dar um exemplo mais moderno) Labirinto do Fauno. O meu D&D é mais parecido com Piratas do Caribe, Coração de Cavaleiro, Van Helsing e Pacto dos Lobos! Que tal Matrix e Forbidden Kigdom então? Ai,. ai, ai…
Nem vou entrar no mundo dos games, pra não criar ainda mais polêmica com os meus preferidos, que vão de Prince of Persia (sim, eu tenho um desses que corre pelas paredes… Mas ele é baseado no Strider Hyriu porque naquela época ainda não tinha esse Prince) até Shadow of Colossus, passando por todas as sagas Diablo, God of War, Soul Calibur, Final Fantasy, Resident Evil, Silent Hill, Metal Gear e até Warcraft (mas só o Warcraft III pois, por incrÃvel que pareça, eu só não consigo gostar de WoW… Me sinto um ET por causa disso à s vezes).
Ok, Parei…
O que interessa é que o mercado está crescendo e isso é muito bom. O mal é que o D&D sempre foi vanguarda e quem vai na frente é quem leva as porradas primeiro. Pra piorar, o “público antigo” do D&D não estava sustentando as proporções de mercado que o RPG está tomando. Qual é a estratégia então?
Guinar desse jeito com D&D é arriscado? Óbvio! Um, o ser humano tem uma tendência natural a odiar mudanças e se manter na zona de conforto. Dois, estão mudando o foco do público, i.e, estão meio que “abandonando” um público que não estava aguentando o tranco (e quem é que gosta de ser abandonado?). Três, RPG é como futebol, cada um tem seu time/sistema do coração e se daria muito melhor que o técnico oficial se lhe entregassem a seleção ao comando.
Sim, Eu gostei da 4E, mas calma lá…
Odiei alguns conceitos usados nos livros básicos. Tenho milhares de crÃticas e sugestões à respeito de divulgação, promoção e parcerias com relação à marca D&D 4E. Abominei a nova OGL. Contudo, em questão de evolução de mecânica e modulação de regras, eu simplesmente não tenho do que reclamar.
Adorei a tal da “mecânica central” que originou as novas regras. Ela é genial (embora nem seja tão inovadora assim…) e está se baseando em coisas que tem feito muito sucesso hoje em dia e que eu, particularmente, gosto um bocado! Ela é fantástica para atrair novos jogadores, por exemplo.
Chega…
Finalizando, essa aproximação do D&D à cultura oriental e dos games é uma tremenda bola dentro quando é avaliada como decisão editorial. Na verdade, é maior que isso; é uma tremenda decisão da marca D&D como um todo, da equipe de desenvolvimento inteira e, diante da postura/situação atual da WotC no mercado mundial de jogos, isso não me parece nenhuma burrada (até onde eu sei, na Hasbro as cabeças rolam quando os rendimentos não alcançam a casa dos milhões).
Mercado é assim, investe-se em quem gasta dinheiro. Quem é que gasta dinheiro hoje com entretenimento? Otaku (fã de anime) e gamer! Quem não gasta já tem opções prontas, aprendidas, jogadas e divulgadas; mas infelizmente não acompanhou o crescimento do mercado (i.e., não gastou dinheiro suficiente) e vai ficar pra trás. Darwin é isso.

4 de julho de 2008 às 18:26
Muito bom o artigo. Acredito que traduziu a minha opinião sobre o assunto melhor do que eu consegui me expressar.
Gostaria de ressaltar que concordo com a colocação do Remo. A 4ª edição não serve para qualquer tipo de jogo, assim como a 3ª também não serve. Muita gente pode estar reclamando justamente porque foi afetada nessa mudança de foco que houve entre uma edição e outra (uma mudança mais leve do que estão dizendo por ai, na minha opinião), mas eu me sentiria muito mais prejudicado se ao comprar os novos livros, visse que quase não houveram mudanças para justificar uma nova edição.
Gosto dos druidas, bárbaros, bardos e dos meio-orcs (e até dos gnomos, depois de começar a ler os livros básicos novamente), mas se fosse para comprar os livros novamente e ver todas essas coisas de novo, pra que mudar de edição então? Quero jogar a 4ªed. para ver Dragonborns, Tieflings, Warlords, o novo sistema de magia, combate e as novas possibilidades de cenário que surgem com isso, não para fazer as mesmas coisas que eu faço na 3ª.