Videogame de Papel II (ou “A Revolta dos Comentários”)
Dez dias atrás, escrevi um artigo comentando sobre uma das maiores polêmicas do D&D 4E. Resolvi me arriscar e abrir comentários (o sistema ainda está em teste no blog), afinal eu citava opiniões alheias.

Tive a feliz participação de muita gente interessada na conversa — falamos da mudança de foco da nova edição, abandono de público, preconceito, fantasia medieval e até da importância dos gnomos no D&D! — e geramos comentários tão grandes que eu resolvi respondê-los com outro artigo aqui do blog.
Não discordo que enquanto opção comercial a decisão de tirar os gnomos tenha sido inteligente, mas eu ainda gostaria mais de ter visto eles bolarem uma solução para tornar os gnomos mais atraentes para os novos jogadores (como eles fizeram com os halflings do AD&D para o 3.0/3.5).
Olá Dani,
Eles tentaram aumentar a popularidade da raça (relacionando os gnomos aos bardos, para não descaracterizar o bom humor dos bichinhos), mas não funcionou. Não me lembro de qual mudança dos halflings que você está falando.
Eu achava a popularidade deles derivava do clã dos Bolseiros, não?
Não acho que o D&D defina o que é fantasia medieval, mas D&D é (ou deveria ser) justamente um jogo de fantasia medieval.
Ele não deixou de ser, muito pelo contrário. O D&D só está acompanhando o conceito de fantasia da nova geração de jogadores (que estão mais acostumados a Ragnarok, Warcraft, Naruto, Avatar, Soul Calibur, Harry Potter e Piratas do Caribe).
O D&D continua sendo baseado em fantasia medieval clássica. A temática ainda é a mesma, só a abordagem que é mais moderna (vide as referências). D&D é, paradoxalmente, um RPG moderno de fantasia medieval.
Sabe o que eu fico imaginando? Uma taverna cheia de meio-demônios e meio-dragões e humanos se socializando numa boa, quando de repente a porta se abre e todos ficam chocados em ver aquela criatura rara e estranha: um gnomo ilusionista.
Esse espanto na cena da taverna só precisa acontecer se você quiser. Os gnomos (e os racial traits deles) estão no Monster Manual. Eles continuam sendo criaturas muito importantes no jogo, e se o Mestre decide que no mundo dele os gnomos são uma raça básica, pronto, as regras estão lá, prontinhas pra ele usar.
Essa raça saiu do Players Handbook por não ser populares entre os jogadores. Estavam, de um jeito ou de outro, ocupando um espaço que não era deles. Como raça, eles não são mais populares que os hobgoblins, ogros ou trolls e todos eles continuaram na trÃade de livros básicos. A diferença é que agora os gnomos figuram ao lado de criaturas tão populares quanto eles dentro do universo mágico de D&D: dragões, beholders, fadas, drow e tudo mais.
eu só acho que o ideal seria encontrar uma solução que criasse espaço amigável para ambos o “novo†e o “velho†conceito de fantasia medieval
Não temos “novo” nem “velho” conceito. O que muda é a abordagem, as referências e as relações.
O conceito do D&D não mudou (veja que o conceito de fantasia medieval é uma coisa e o conceito de D&D é outra). O que mudou foram as referências do D&D e isso está causando um preconceito danado de quem é das antigas diante dessa mudança. Nesse ponto eu concordo plenamente com um membro da Spell RPG que usa como assinatura “D&D 4E, avalie com moderação”.
Não dá mais pra jogar “Dragonlance Age of Mortals” no D&D? Claro que dá! E Greyhawk? Também dá! Agora, emular uma mesa de Pendragon RPG com o D&D é uma péssima idéia e eu via (e vejo) muita gente tentando fazer mais ou menos isso com o D&D, principalmente quem vem das edições mais antigas.
Mas, ainda assim, eu me sinto um pouco abandonada as vezes. Acho que um pouco é minha culpa sim, por ser meio nostalgica, mas acho que um pouco é porque eu deixei de ser público alvo do meu RPG favorito. Não é que eu não ache que as coisas não devam ser atualizadas, reformuladas, etc, mas é que eu acho que com um pouco mais de trabalho você consegue fazer o pessoal mais antigo se sentir incluido.
Olhando a coisa meio pelos bastidores, vejo que eles estão tentando manter o apoio da Hasbro. Concordo com você que não é certo deixar o pessoal das antigas desamparado, mas é preciso pagar a conta do investimento do D&D Insider (que não deve ter sido barato). Obviamente, isso não justifica o abandono, mas como o próprio Freesample disse, essa é uma decisão editorial mercantilista.
Faço votos que a retomada da licenças de cenários consagrados (como Dragonlance, Darksun, Ravenloft e Planescape) faça parte de algum projeto futuro da WotC para fazer exatamente isso que você propôs: arrebanhar novamente os veteranos desgarrados, os tais “órfãos do AD&D”. Particularmente, eu acredito que, retirados os devidos preconceitos, tem lugar pra todo mundo nessa nova edição de D&D.
Já imaginou se eles lançam uma enciclopédia de Planescape ou Ravenloft nos moldes do Grand History of te Realms? Waw…
Pegando carona na conversa, como antigo jogador do primeiro D&D, eu reclamei muito da falta de suporte de material descritivo nas terceiras edições.
Os livros “descritivos†de cenários abordavam muito mais as classes de prestÃgio, do que propriamente a descrição de geografia, história, costumes e relações entre os povos das regiões.
Olá Franciolli,
Eu discordo que tenha faltado material descritivo na terceira edição. Falando só de material publicado pela Wizards, haviam suplementos exclusivos para climas diversos, territórios especÃficos e até para monstros ou raças especÃficas. Fora isso, tÃnhamos duas revistas mensais que traziam matérias riquÃssimas nesse quesito — fora toda a avalanche de suplementos não-oficiais que se seguiu com a OGL.
A minha reclamação é que o descritivo estava muito misturado com o mecânico. Felizmente, isso tem tudo para acabar com a 4E justamente devido à esse predomÃnio da mecânica de regras nos livros básicos. Separar a parte mecânica do sistema nos livros básicos e deixar a parte descritiva para a ambientação nos livros de cenários permite que os jogadores usem o que bem entenderem da maneira que quiserem nos seus jogos.
Nada de meio-orcs em Dragonlance se você não quiser. Os warforged do seu mundo podem ser um experimento de uma cabala de magos ao invés de terem vindo da máquina-mãe e os shifters da sua campanha podem não ter relação nenhuma com os licantropos. Eu gosto muito dessa modulação. Postei um comentário no artigo do Rocha sobre a polêmica do lançamento de Kingdons of Kalamar onde eu falava justamente à respeito disso.
Escuto de alguns mestres/jogadores de D&D que sentem-se abandonados, mas isso ocorre principalmente - não que seja a mesma razão para todos, devido ao fato de que os antigos não “se renovam†e nem procuram renovar o seu grupo, quando estes deixam de ser tão assÃduos.
Concordo plenamente. Acho que essa mudança que a nova edição do D&D sofreu nas suas referências na fantasia medieval fantástica está justamente relacionada com isso: renovação.
Este ponto leva a entender que quem prefere (por opção, e não pela falta dela, que fique claro) ficar com seu, digamos, velho D&D da grow, será uma pessoa ultrapassada.
Olá Freesample,
Eu não acho que uma pessoa seja ultrapassada por gostar de determinado RPG ou edição do D&D. Independente de cada um ter o direito de gostar do que quiser, seria estupidez julgar alguém através do seu sistema de RPG preferido. Desculpe se me fiz entender dessa forma.
O que eu quis dizer é que as edições mais antigas do D&D são sistemas de RPG ultrapassados quando são comparados com o D&D 4E. Esses sim, como sistemas de D&D, ficaram para trás. Meus argumentos são inúmeros: didática, foco, público, abordagem, matemática, praticidade e até mesmo conceito. Tem muita coisa para melhorar ainda? Tem muito — principalmente no design conceitual. Pretendo escrever um artigo sobre isso em breve, aqui mesmo no blog.
O fato é que eu não tenho nada contra quem vai ficar na D&D 3.5 ou ainda joga AD&D. Obviamente, essas pessoas terão que lutar um bocado para continuar sobrevivendo com seu sistema antigo sem o suporte da editora. Isso exige adaptações, boa vontade e tempo livre. O Pathfinder vai ajudar um bocado, afinal a Paizo é maravilhosa.
Talvez essas pessoas se sobressaiam, a 4E seja um fracasso e quem vai pagar a lÃngua aqui sou eu. Talvez saia um novo RPG de ação muito melhor que o D&D pra fantasia medieval, mas por enquanto tenho lidar com o que temos de concreto e na atual conjuntura, eu realmente gosto o suficiente da 4E para apostar minhas fichas nela.

14 de Julho de 2008 às 20:00
Muito bom o artigo, Cobbi. Não só concordo, mas acrescento que adoro jogar D&D no fliperama também (ver screenshot)!